Mostrando postagens com marcador Bad 25. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bad 25. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de outubro de 2012

Os Segredos de BAD 25

MJDataBank, 9 de outubro de 2012
Por Richard Lecocq (autor de Michael Jackson: KING)

Escutar a música de Michael Jackson é sempre um tipo de experiência única. Não apenas porque seus vocais e sua música são boas, mas porque suas músicas são como um tapete com tantas camadas que você sempre acaba se pegando descobrindo novos detalhes cada vez que as escuta. Com BAD 25, o Espólio de MJ e a Sony lançaram luz em várias faixas inéditas das sessões de BAD. É claro, ainda há mais canções daquela era para se descobrir, mas as faixas que foram lançadas este ano nos dão uma visão interessante e genuína do - muitas vezes subestimado - processo criativo de Jackson.

Desta vez, BAD 25 entrega a mercadoria: todas as faixas inéditas no disco são apresentadas sem retoques, como explica o engenheiro de som e colaborador de longa data de MJ, Matt Forger: "Foi decidido que o que fosse incluído no lançamento e apresentado ao público tinha de estar no exato estágio de produção de 1987. Sem gravações ou elementos adicionais... eu fiquei muito feliz em ouvir que a direção era 'nós podemos apenas usar elementos que foram gravados até 1987. Deve ser o trabalho desse período'."

Forger trabalhou com Jackson em seus álbuns de estúdio (de Thriller a HIStory) e também o ajudou na produção de outros projetos como Captain E.O., além da trilha sonora de abertura para a turnê Victory dos Jackson, em 1984. Nos anos 2000, ele trabalhou na série de Edições Especiais de 2001 e no box set Ultimate Collection em 2004. Forger também fez parte da equipe que desenvolveu o projeto Thriller 25 no final de 2007. Então, logicamente, ele se viu envolvido no processo de criação do projeto BAD 25: "Eu fui convidado pela Sony e pelo Espólio para participar porque eu estive muito envolvido durante a gravação de muitas destas canções. (...) Eu sou a pessoa que já foi chamada muitas vezes como consultor, para ajudá-los quando eles têm perguntas sobre o material mais antigo dos arquivos, ou quando alguém precisa entender um ponto em particular."

Escavar os arquivos de MJ é, obviamente, um dos melhores empregos do mundo. Mas a forma como as canções e as fitas foram tratadas demanda uma perícia que poucas pessoas têm. Forger estava lá quando tudo aconteceu, por isso ele é capaz de rastrear notas e documentos que podem ter sido negligenciados. "Quando eu revejo notas ou caixas de fitas, todas essas memórias voltam. Eu consigo me lembrar da situação em que cada canção foi gravada, quem foram os participantes e os músicos, e algumas das coisas em particular que nós fizemos, como o estilo e o som da gravação ou o equipamento que nós usamos. Toda essa informação é apenas do meu banco de memória, porque eu estava lá trabalhando com Michael Jackson na época."

Isto mostra o quão abrangente e cheio de surpresas pode ser o trabalho de Jackson no estúdio. O que tem que ser mantido em mente é que desde o álbum Off The Wall (1979), Michael Jackson tinha tomado gradualmente o controle sobre sua música e todos os aspectos de sua carreira. O auge desse processo ocorreu durante a era BAD. Como o episódio final da trilogia que ele começou com Quincy Jones ao final dos anos 70, o álbum também foi uma importante transição para Jackson, que seguiria novas direções com novos colaboradores no começo dos anos 90, quando ele lançou Dangerous. E, em muitas ocasiões, BAD 25 insinua essas mudanças por vir.

Michael Jackson entrou no mundo da música como provavelmente o último verdadeiro herdeiro da Motown de sua geração. Depois de uma carreira que quebrou recordes com seus irmãos, o Jackson 5 e The Jacksons, ele entrou para a vida adulta com uma coleção de músicas que não só provou que ele havia feito a dura transição da infância, mas também gerou faixas que desde então se tornaram sucessos instantâneos nas boates. Em BAD, ele provou que ainda podia ser sucesso nas boates, mas também se inclinou para outros estilos e gêneros musicais. A imagem global do álbum é a dramática evolução da imagem de durão que ele desenvolveu no curta metragem de Beat It (1983). Músicas como Man in the Mirror também mostram que ele vem com uma mensagem, e que a música é sempre uma questão de som, mas também de melodia e letra.

Em BAD, Jackson compôs 9 das 11 faixas apresentadas ao público. Como Quincy Jones pontua em suas entrevistas no bônus da re-lançamento de BAD em 2001, suas músicas "são sempre um pouco autobiográficas." Então, em algum lugar do caminho, deve haver uma linha tênue entre I Just Can't Stop Loving You e Dirty Diana: aqui está uma fascinante definição de amor e ódio que ele também desenvolveu em trabalhos futuros.

BAD é conhecido pelas 11 faixas que acabaram no álbum. Mas ele também é conhecido por ser um projeto com mais de 60 faixas a serem consideradas. Algumas tem os vocais de Jackson, em diferentes estágios de produção. Algumas são apenas faixas instrumentais e idéias que não foram mais elaboradas no futuro. BAD 25 humildemente foca nas sessões de BAD com uma série de 6 faixas inéditas que documentam o processo criativo de Jackson. Então, como cerca de pouco mais de 10% do material gravado foi apresentado ao público, essas faixas inacabadas e experimentais nos dão uma idéia de como os sons foram criados.

Don’t Be Messin’ ‘Round (Gravada por Brent Averill e Bruce Swedien) 

Don't Be Messin' 'Round foi lançada no mês de junho como o lado B do re-lançamento do single I Just Can't Stop Loving You. Ela definitivamente soa como um rascunho cru de Jackson na mesa de som, apenas para observar como os diferentes elementos se juntam e eventualmente combinam. Com um leve sotaque pop e uma influência definitiva da Bossa Nova, Don't Be Messin' 'Round também lembra Don't You Worry 'Bout a Thing de Stevie Wonder. Jackson citou Wonder inúmeras vezes como um dos seus mestres e grande influência em sua música. Em muitas ocasiões, ele elogiou alguns de seus trabalhos. Em 2003, ele deu uma entrevista especial a Brett Ratner para a Interview (públicada no início de 2004) e falou sobre o álbum Innervisions (1973) de Wonder (que inclui Don't You Worry 'Bout a Thing): "Escutar aquela música me fez dizer para mim mesmo, 'Eu consigo fazer isso, e eu acho que consigo fazer isso em um nível internacional.'"

Michael primeiramente gravou a canção com o engenheiro de som Brent Averill no começo dos anos 80. "Essa é uma das músicas que foram gravadas bem no início, potencialmente para o álbum Thriller," explica Matt Forger. "Por alguma razão, ela não foi mais trabalhada. Michael a trouxe novamente e nós trabalhamos mais nela no período do álbum BAD. Algumas gravações adicionais foram feitas na época com Bruce Swedien no Westlake. Eu fiz mais uns mixes na época para o Michael avaliar."

A versão lançada em BAD 25 é uma tentativa de dar a melhor representação da versão de 1987 da faixa, a que foi deixada no estúdio naquela época: "Muitos dos elementos os quais trabalhamos na era BAD foram alguns dos elementos básicos destes primeiros demos. Elementos selecionados foram transferidos e então, com mais trabalho, foram gravados para o álbum BAD. E então foi decidido que a faixa não seria incluída no álbum, e naquele momento paramos de trabalhar nela. E para BAD 25 eu tive que procurar em muitas fitas de multi-faixas porque os elementos da gravação estavam em fitas diferentes: alguns foram gravados em Westlake, e alguns em Hayvenhurst e eu tinha de me certificar de que todos os elementos representativos poderiam ser combinados em uma versão única, em um único mix da canção."

Forger também confirma que outras versões da canção foram gravadas mais tarde e que estas estão mais bem acabadas do que as gravações iniciais. Don't Be Messin' 'Round, uma canção inacabada que é agora apresentada ao público, mostra a espontaneidade de Jackson em seu melhor. "Eu entendi qual deveria ser o sentimento da música. O que é interessante nela é que você pode escutar Michael dando direções como 'bridge' ou 'guitarra' e ele na verdade canta estas partes ele mesmo. Era, é claro, um trabalho em progresso."

A emoção é algo que sempre foi importante nas músicas de Jackson. No documentário de 2004, The One, Jill Scott explica que entende a importância da carga emocional em seu trabalho: "mas são as escolhas que ele faz ao cantar uma música. É um dom." Então mesmo quando ele canta letras aleatórias em demos, pode se sentir que ele está procurando pelos melhores lugares e momentos da melodia para introduzir emoção genuína e sincera. "Michael estava experimentando e testando elementos e estilos," conta Forger. "Ele avaliava a melhor forma de abordagem. Mas a emoção é o elemento principal."


I'm So Blue (Gravada por Matt Forger e Bill Bottrell)

Surpreendentemente, a depressão é um tema que Michael Jackson apresentou muito cedo em sua carreira como compositor quando ele lançou Blues Away no álbum dos Jacksons de 1976. Aos 17 anos, ele já entrava em temas maduros que ele desenvolveria em trabalhos futuros. I'm So Blue conta sobre uma história de amor com um final triste, e Michael canta toda a sua solidão.

A balada é envolvida em um doce arranjo. Os riffs de introdução instantaneamente estabelecem o palco e o clima da canção. Os acordes são groovy e tristes, e a voz de Jackson nos primeiros versos reflete a tristeza da história.

A seção da bridge da canção tem esse grande solo de gaita, ou ao menos um instrumento que soa como uma gaita: "Foi, na verdade, um sintetizador de gaita," revela Forger. "Foi John Barnes. Ele é um tecladista muito talentoso. E ele conseguia tocar muitos instrumentos, metais. Então ele entendia como um músico que toca o instrumento real e como as notas tinham de ser atacadas e esta é uma das coisas as quais ele era muito talentoso e versátil."

I'm So Blue está incluída em BAD 25 como uma gravação demo. Sua sofisticação e alguns de seus arranjos polidos realmente colocam a canção em outra categoria. O que a maioria dos artistas consideraria gravações finalizadas, Michael Jackson chamava de demos.


Song Groove (AKA Abortion Papers) (Gravada por Brian Malouf e Gary O)

Em Song Groove, Michael Jackson aborda um problema social que ainda está em debate hoje. Este é um tema já abordado por outros artistas pop. E, inesperadamente, Jackson compôs uma música sobre o assunto, tentando não ofender as mulheres que podem enfrentar tal situação.

O título da canção, Song Groove, é acompanhado por outro título: Abortion Papers. Soa como se os dois títulos dificilmente combinariam: de certa forma, como um título como Song Groove pode ser usado para uma música sobre aborto? Uma das habilidades de Jackson era criar músicas uptempo e cativantes com temas profundos e melancólicos. Billie Jean pode ser o melhor exemplo, por contar sobre a história de uma mulher que alega ter um filho de Jackson. Em Abortion Papers, Jackson usa do tema musical uptempo para espalhar sua mensagem. A história deste título duplo reflete a forma de Jackson trabalhar em idéias musicais: "Quando nós fizemos a pesquisa haviam duas fitas e cada fita era uma fita analógica multi-faixa escrita Song Groove," relembra Forger. "Mas nós não nos demos conta de que Abortion Papers foi gravada em duas partes. Metade da canção estava em uma fita, metade estava em outra fita. E ao ouvir eu disse, "esta fita é metade de outra fita que temos." E então pesquisamos mais e encontramos outra fita e nós juntamos as duas para extrair a gravação completa."

Então é necessário pessoas como Matt Forger para realmente entender o que está nos arquivos. Algumas canções tinham títulos de trabalho que mudaram no processo. Em BAD, o primeiro título de The Way You Make Me Feel era Hot Fever. Este título de trabalho veio à tona apenas uma vez, em um raro Promo CD americano da Edição Especial de BAD de 2001.

Musicalmente, Song Groove dá dicas das texturas e designs de som que seriam desenvolvidos em Dangerous: a atmosfera dúbia e tensa, as máquinas e os sons metálicos: eles já estão aqui. "Em Song Groove temos uma qualidade agressiva na música que ele estava desenvolvendo e compondo," conta Forger. "Este foi o momento em que, com o incentivo de Quincy, Michael compôs todas as músicas do álbum BAD, tanto quanto ele pudesse. Eu trabalhei com Michael junto com Bill Bottrell, John Barnes e Chris Currell. Nós trabalhamos com ele nos estúdios de Hayvenhurst que Michael chamava de Laboratório. A minha função era trabalhar com Michael e tomar todas essas idéias musicais que Michael estava trabalhando e desenvolvendo: seu estilo de produção, seu estilo de composição, seu estilo de arranjos. Tudo estava em torno do que Michael desenvolvia, o que foi fascinante para mim poder observar. Muito do estilo que você escuta nas canções incluídas em BAD 25 foi desenvolvido em álbuns posteriores."


(parte 2)


Free (Gravado por Bill Bottrell)


Mais uma vez, a influência de Stevie Wonder é altamente palpável nesta canção. Desde a já mencionada Blues Away de 1976 até os trabalhos mais recentes como Beautiful Girl (lançada no box set de 2004 Ultimate Collection), as baladas compostas por Jackson muitas vezes apresentam harmonias inspiradas por Wonder. Free também soa como alguns dos trabalhos dos Jacksons do final dos anos 70. O amor de Jackson por melodias doces pode ter sido alvo de escárnio ao longo dos anos, mas o compositor e colaborador de Celine Dion, Jean Jacques Goldman, disse à rádio RTL em 2009: "Ele é um grande compositor. We Are The World pode soar fácil, mas é necessário talento para criar uma melodia como tal. Ele é um músico e um arranjador."

Free apresenta o cantor de baladas Jackson em sua melhor forma: com alma, feliz e se divertindo. "Esta é uma das minhas canções favoritas aqui porque você pode ouvir a emoção de Michael, e seu espírito, você pode escutar sua felicidade e alegria," confirma Forger. "E este é o sentimento que tínhamos no estúdio. A atmosfera no estúdio era sempre de emoção. Ele estava sempre tão feliz e gostava tanto do trabalho. Quando você ouve a voz de Michael, faz você sorrir e se sentir tão bem que você pode sentir a alegria. Sempre que ouço a música Free, me faz me sentir tão bem por dentro."


Price Of Fame (Gravada por Bill Bottrell e Matt Forger)

Aqui está uma canção que tem uma longa história na comunidade de fãs de Michael Jackson. Price of Fame foi programada para ser o tema principal da campanha da Pepsi. A canção não foi lançada e eventualmente foi substituída por uma versão especial de BAD com letras sobre a Pepsi. Matt Forger relembra: "havia uma versão especial de Price of Fame com letras diferentes para a Pepsi. Eu não acho que muitas pessoas a escutaram. Mas esta é a versão original de The Price of Fame em BAD 25, e ela foi gravada em Hayvenhurst."

Como soa como uma sequência de Billie Jean e uma antecipação de Who Is It, Price of Fame também tem sua própria identidade e originalidade. Ela é construída em torno de uma leve batida Ska / Reggae, uma das escassas incursões de Jackson no gênero (ele também gravou os backing vocals de Don't Let a Woman (Make a Fool out of You) de Joe King Carrasco em 1982).


Al Capone (Gravada por Matt Forger e Bill Bottrell)

Outro título conhecido pelos fãs e experts de MJ há muitos anos. Descrita como uma demo bem crua ou encarnação do que seria Smooth Criminal, Al Capone reflete o amor de Jackson em contar histórias. É óbvio, o cinema teve um enorme impacto em seu trabalho e em sua visão enquanto artista. Começando com o vídeo épico de Can You Feel It (Triumph, 1981), Jackson sempre fugiu dos limites para inovar e apresentar sua música com uma forte vertente cinematográfica. A canção foi gravada em Hayvenhurst e Matt Forger lembra o ângulo original da música: "Al Capone foi composta em torno de uma figura histórica real. Ela estabelece as bases para a canção que se tornou Smooth Criminal. Michael usou muitos dos mesmos temas e idéias similares para criar Smooth Criminal".

Como Al Capone era sobre uma figura histórica, Jackson refinou sua visão e optou por um história totalmente diferente: "Em Smooth Criminal ele compôs uma história e a tornou única. Não era sobre uma figura histórica como Al Capone. Ele fez sua própria história e isto era algo novo e fresco na sua visão."

Assim como as idéias e elementos de Streetwalker foram retrabalhados para criar a primeira versão da música Dangerous, Al Capone e Smooth Criminal foram moldadas com os mesmos tipos de elementos. E, na verdade, ambas as músicas parecem derivar de outra canção que Jackson gravou anteriormente e que já foi amplamente discutida entre os fãs da música de MJ: "Chicago 1945 foi feita antes de Al Capone" explica Matt Forger. "Ela falava sobre uma época no tempo, sobre o que acontecia em Chicago naquele ano. Era quase como se você estivesse lendo os jornais daquela época. Era uma música que talvez Michael tenha usado como idéia para Al Capone, e Al Capone foi a idéia de Smooth Criminal. Então talvez haja algumas semelhanças, mas esta é uma canção diferente. Al Capone foi a abordagem nova e definitiva e Smooth Criminal era muito mais refinada."


Je ne veux pas la fin de nous

Vazada na internet em 2001, Je Ne Veux Pas La Fin De Nous é a única tentativa de Jackson em cantar na língua francesa. Ele escolheu adaptar sua música I Just Can't Stop Loving You em espanhol e em francês para alcançar novos públicos. Outros cantores também foram nesta direção, e o objetivo direto disto era melhorar suas imagens em mercados específicos.

Como a versão em espanhol, Todo Mi Amor Eres Tu, foi co-escrita por Ruben Blades (Jackson também trabalharia com ele na versão em espanhol de seu single cheio de estrelas lançado na internet em 2003, What More Can I Give), a versão francesa foi escrita por Christine Decroix, uma ex-protegida de Quincy Jones. Decroix lembra que a faixa foi gravada com pressa, pouco antes de Jackson ir para o Japão dar início à BAD Tour. Levou a ela algo como uma noite para escrever as letras, e ela esteve no estúdio com ele para treiná-lo e dar-lhe instruções para que ele pudesse obter o sotaque certo.

A versão da faixa apresentada em BAD 25 é a versão final feita em 1987: "Este não é um mix novo," confirma Matt Forger. "O mix existiu na época. Eu sabia apenas que havia uma versão em espanhol e outra em francês. Houve muita pesquisa e interesse em lançar a música. Me disseram para mixá-la para o BAD 25. No entanto, as pessoas com quem eu trabalhei e e eu dissemos que tínhamos de pesquisar completamente e porque sabíamos que algo havia sido feito em 1987. A minha filosofia toda é: cada vez que eu conseguia encontrar um mix muito bom e representante do que a música deveria ser e a da forma como Michael iria querer a música daquela época, a minha escolha é de usá-lo. Nós pesquisamos muito e encontramos o mix e ficamos tão felizes por podermos encontrá-lo. Ele era tão autêntico."


Durante as sessões de BAD, Michael Jackson considerou muitas músicas que no final foram descartadas. O compositor Rod Temperton, que fez parte do Time A de Off The Wall e Thriller, apresentou algumas músicas para BAD, sendo uma delas Groove of Midnight. Esta música foi eventualmente gravada por Siedah Garrett e lançada em seu álbum de estréia, Kiss of Life pela Qwest Records (1988). "Rod Temperton tinha algumas músicas," Matt Forger relembra. "Quincy pediu a ele algumas músicas prontas. Groove of Midnight é uma dessas músicas. No entanto, nós procuramos e não encontramos uma versão com os vocais de Michael. Não era uma música que eles consideraram para o álbum BAD."

BAD foi a colaboração final entre Michael Jackson e Quincy Jones. Ambos artistas seguiriam caminhos diferentes após o lançamento do álbum. Jones se afastou do mundo da música e mergulhou na era da multimídia, principalmente com o lançamento de sua aclamada publicação urbana: a Vibe Magazine. Jackson entrou na década de 90 reconhecendo a cultura Hip Hop ao trabalhar com o guru do New Jack Swing, Teddy Riley, e criou trabalhos ainda mais ambiciosos como compositor, arranjador e produtor. Muito foi falado sobre o respectivo e verdadeiro papel de Michael e Quincy no sucesso das músicas que eles criaram juntos. Matt Forger sente que o debate foi um pouquinho longe demais: "Eu já li todas essas discussões sobre Quincy e Michael na internet. Eles brigam e discutem sobre o envolvimento real de Quincy ou Michael na produção da múisica. Uma das coisas que nós vemos agora, 25 anos depois, é o trabalho maravilhoso que Michael fez. Quincy encorajou Michael como compositor, arranjador e produtor. Houve algumas diferenças de opinião como quando Quincy contou sobre Streetwalker vs. Another Part of Me nas entrevistas da edição especial de 2001, e é claro que coisas assim aconteceram."

Durante as sessões de We Are The World, Quincy botou uma placa na entrada do estúdio, dizendo: "deixem seus egos na porta." O que deveria ser lembrado de discos como BAD é que quando tais músicas foram lançadas ao público, a palavra "álbum" tinha um sentido e o conceito era desenvolver um grande visual em torno das músicas. Isto é algo que talvez tinha sido subestimado todos estes anos. Não é coincidência que 9 das 11 músicas foram lançadas como single e foram altamente aclamadas. Estes eram dias em que álbuns não colecionavam enche-linguiças mas, assim como Thriller foi gerado, eram uma coleção de músicas que poderiam ser consideradas, sem exceção, para um lançamento em single. Com BAD, Michael Jackson atingiu um novo auge que pessoas da sua idade mal ousavam ou conseguiam alcançar. E 25 anos depois, a música e a visão estão alcançando uma nova geração: BAD 25 está no topo das paradas do mundo todo. Enquanto ele tentava superar Thriller, Michael Jackson na verdade criou um álbum que pode ser tocado como uma coleção de seus maiores sucessos que refletem suas fantasias, visão de vida, e também espalha uma mensagem muito forte como o hino Man In The Mirror: "Se você quer tornar o mundo um lugar melhor, olhe para si mesmo e faça a mudança." Esta era a mensagem dos dias de BAD.



Traduzido por Bruno Couto Pórpora

domingo, 21 de outubro de 2012

"Bad 25" vende 23.000 cópias esta semana

A re-edição de Bad vendeu 23.000 cópias na última semana, de acordo com o site Mediatraffic.de. O álbum está na 39ª posição na lista dos 40 discos mais vendidos no mundo.

Na Billboard, Bad 25 caiu do topo para a 6ª posição no Top Catalog Chart e para a 119ª posição no Top 200 Albums.

Com a exibição do documentário Bad 25 na televisão alemã, o boxset (assim como outros títulos da discografia do Rei do Pop) escalou para o topo dos mais vendidos na Amazon do país. Segundo a imprensa do país, quase 1 milhão e meio de pessoas assistiram ao documentário, que conseguiu bater a audiência de alguns dos maiores canais da televisão alemã no horário. Bad 25 de Spike Lee foi exibido após um longo especial dedicado ao Rei do Pop, produzido pelo canal.



por Bruno Couto Pórpora
Fonte: Billboard / MJJC

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

"BAD 25" abandona parada do Reino Unido e cai nos Estados Unidos

Parece haver uma falta de coerência e timing por parte da Sony Music na estratégia de divulgação do projeto BAD 25. Com uma parceria desencontrada e mal organizada com a Pepsi, a falta de um single de divulgação e a exibição restrita do documentário de Spike Lee, o box set vem caindo gradativamente nas paradas do mundo todo - além das vendas realizadas pelo site MichaelJackson.com não estarem sendo contabilizadas.

Na última semana, Bad 25 permaneceu em #1 na parada de álbuns de catálogo na Billboard, mas caiu de #52 para #85 na lista dos 200 álbuns mais vendidos. Com a aproximação do Halloween, Thriller re-apareceu na parada na 165ª posição.

No Reino Unido, apesar da estréia dos shows do Cirque du Soleil, Bad 25 saiu da lista dos 100 discos mais vendidos. Enquanto isso, Number Ones ressurgiu na 85ª posição, em sua 292ª semana na parada.

De acordo com o site Mediatraffic, até agora foram vendidas 200.000 cópias do álbum. O número deve estacionar nesta casa por um bom tempo caso a Sony e o Espólio não organizem melhor a divulgação do projeto.


por Bruno Couto Pórpora
Fonte: Billboard / MJJC


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

"BAD 25" cai em segunda semana na Billboard

A queda nos Estados Unidos foi de 66% nas vendas - a mesma proporção para o novo álbum de Pink, que estreou em #1 na parada na semana passada. O problema com Bad 25 é que a Billboard dividiu o álbum em duas modalidades - Bad e Bad 25. Sendo assim, os discos estão sendo contados separados e aparecem em duas posições no Top 200 ao invés de somarem vendas para atingirem uma posição mais alta.

No top 200 da semana passada, Bad aparecia em #23 e Bad 25 em #46. Nesta semana, estão respectivamente em #55 e #176. Na parada de álbuns de catálogo, Bad continua em #1 pela segunda semana consecutiva.

No resto do mundo, a situação é parecida. De #6, Bad 25 caiu para #38 no Reino Unido. Na Alemanha, foi de #4 para #35; e na França, de #5 para #29.

A exibição do documentário Bad 25 no feriado de Ação de Graças deve estimular as vendas do álbum nos Estados Unidos. Mesmo assim, parece faltar coesão na promoção envolvendo o projeto, embora por vezes ela possa parecer grandiosa em alguns países, enquanto em outros - como no Brasil - ela é inexistente (assim como o álbum).


por Bruno Couto Pórpora
Fonte: Billboard / MJJC

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Espólio Comemora o Sucesso de "BAD 25"!

Em nota lançada à imprensa, o Espólio de Michael Jackson comemora o sucesso do projeto BAD 25! O boxset debutou em #1 nos Estados Unidos (na parada de álbuns de catálogo), em #2 no Japão e na Espanha, em #4 na Alemanha, #5 na França, Hong Kong e Coréia, #6 no Reino Unido e Holanda e #10 na Áustria e Bélgica.

Ontem, o MJOnline, a equipe online oficial do Espólio, comemorou o fato do remix de Bad realizado por Afrojack ter chegado ao #2 na parada Dance do Reino Unido, e pelo mesmo estar subindo na parada americana. Eles pedem que os fãs escrevam suas resenhas em sites de compra, contem aos seus amigos e ajudem a espalhar a notícia sobre o lançamento de Bad 25!



por Bruno Couto Pórpora
Fonte: Espólio de Michael Jackson / MJ Online Team

terça-feira, 25 de setembro de 2012

BAD 25: Crítica de Veneza

The Hollywood Reporter, 31 de agosto de 2012
Por David Rooney


Spike Lee capta um monumento da carreira de Michael Jackson e um período preciso na cultura de música popular dos Estados Unidos com sua extensiva retrospectiva da criação, marketing e legado do álbum de 1987, Bad.

VENEZA - Michael Jackson continua sendo maior em morte do que em vida. Poderia parecer que Kenny Ortega cobriu o seu legado com o documentário de 2009, This Is It, mas Spike Lee faz ainda melhor com Bad 25, um tributo obsessivamente detalhado aos vinte cinco anos do álbum de 1987 que completou o tsunami comercial que foi a trilogia que Jackson começou com Off The Wall e Thriller.


O filme é uma sensacional fotografia do auge dos videoclipes como forma de arte, assim como do intricado processo de camadas pelo qual o pop superior é moldado. Mais sensacional, ele serve para remover o véu de loucura e acusações e restaurar a reputação de Jackson como um músico multi-talentoso de rigorosa disciplina, profissionalismo e perfeccionismo - sem contar sua influência pioneira na dança e modo. Seguindo as exibições em Veneza e Toronto, Bad 25 deverá ir ao ar na ABC no feriado de ação de graças.


Lee dirigiu o videoclipe de Jackson de 1996, They Don't Care About Us. Apesar dele conduzir as entrevistas pessoalmente, ele se mantém fora do quadro aqui, com exceção de um ou dois trechos curtos. Mas é claro que sua conexão com o material é profunda, revelando a si mesmo, por exemplo, em sua exaustiva atenção à criação do curta-metragem de Martin Scorsese para a faixa-título do álbum. Não menos fascinante é sua menção às múltiplas influências coreográficas do vídeo de Smooth Criminal, de A Roda da Fortuna de Fred Astaire ao Soul Tr
ain ao Pernalonga e a Buster Keaton. A riqueza de especialistas falando aqui torna o filme de interesse além da base de fãs de Jackson, mas para todos aqueles curiosos sobre o processo de produção e marketing da música popular.

O apetite do diretor por trivia é contagiante. Quem lembrava que um dos primeiros papéis de Wesley Snipes foi no clipe de Bad? Ou que o grito "Shamone!" era uma homenagem de Jackson a Mavis Staples? Ou que o verso "Annie, are you OK?" foi inspirado pelo nome dado a bonecas de demonstração de massagem cardíaca?

É óbvio que Lee está se divertindo tanto quanto a platéia ao sentar com Scorsese e a editora Thelma Schoonmaker enquanto eles assistem ao seu trabalho no curta de Bad 25 anos depois. O escritor Richard Price, que roteirizou o filme para Scorsese é - perdõem-me - impagável, discutindo como um italiano e um judeu asmáticos foram selecionados por Jackson para fazer o clipe "para mostrar aos irmãos que ele também está do lado deles." Mas Lee também aborda com seriedade as formas como Jackson reafirmou sua conexão com a comunidade negra.


Apesar de reconhecer as fraquezas do álbum - todo mundo, incluindo Stevie Wonder, concordam que o seu dueto com Jackson, Just Good Friends, foi um erro - o filme não é inocente de hagiografia. Mas as entrevistas com fãs famosos, incluindo Mariah Carey, Justin Bieber, Cee Lo Green, Chris Brown e Sheryl Crown - que foi a cantora de apoio cabeluda da Bad Tour - são geralmente elogiosas. (Talvez a exceção seja Kanye West, que parece ter uma opinião excessivamente boa de si mesmo para prestar tributo a outra pessoa).


Talvez o erro mais significativo de Lee é de pular abruptamente - ao fim de cada reconstrução meticulosa de faixa-por-faixa da gravação do álbum e filmagem de seus muitos clipes - para imagens de Jermaine Jackson anunciando a morte de seu irmão. Lee então junta uma série de respostas para "Onde você estava quando ouviu que ele havia morrido?", segurando a câmera enquanto seus entrevistados choram. Soa como manipulação e pesa o clima comparada ao estimulante contexto social e curiosidades iluminadores que diferem o documentário e o coloca no momento-chave da carreira de Jackson.


Mas isto é apenas um motivo. Por mais forçado que tenha sido inserido, ele serve para introdução de The Man in the Mirror como uma aula mestra em como construir o perfeito hino pop. A informação aqui vem dos autores da faixa, Glen Ballard e Siedah Garret, assim como do produtor Quincy Jones e de Andrae Crouch, entre outros. A imagem final de Jackson apresentando a canção em um show no estádio de Wembley em 1988, acompanhado por 72,000 fãs histéricos, é o ponto alto em emoção no filme.


Lee foi feliz em ir não atrás apenas de rostos famosos. Ao invés disso, ele cava cada aspecto da música conversando com engenheiros, arranjadores, músicos, professores de canto, atores, dançarinos e coreógrafos, executivos da indústria fonográfica, empresários, advogados, biógrafos e jornalistas musicais. Particularmente engraçado é o direto Joe Pytka, que dirigiu os clipes de Dirty Diana e The Way You Make Me Feel. Mas contribuições ricas vêm de uma enorme variedade de fontes.


O filme não foge do lado negativo. Ele cobre a histeria inescapável que acompanhou o lançamento do álbum, o estigma Wacko Jacko, o espectro do racismo, a animosidade em relação a Jackson em alguns círculos por conta de seu sucesso estratosférico e por ele ter pisado em território sagrado ao comprar o catálogo dos Beatles. Tempo significativo é gasto em sua vulnerabilidade por ter vivido debaixo dos holofotes desde a infância, refletido na canção Leave Me Alone, com seu estilo a lá Viagens de Gulliver.


Na maior parte, no entanto, Lee mantém seu foco na extraordinária conquista profissional que o álbum ainda representa, capturando Jackson no auge de sua busca por independência criativa. Além do seu valor como um profundo retrato do artista, este é um super relato da indústria musical e uma cápsula do tempo indispensável da cultura pop.



Traduzido por Bruno Couto Pórpora

domingo, 23 de setembro de 2012

"Bad 25" estréia em #6 na parada britânica!

O boxset BAD 25 estreou na parada oficial do Reino Unido em 6º lugar, atrás de Our Version of Events (Emeli Sande), Coexist (XX), Number 3 (Script), The Truth About Love (Pink) e Battle Born (The Killers). O chart considera como se o álbum Bad tivesse entrado novamente na parada, e contabiliza essa como sua 121ª semana.

Na parada de vídeos mais vendidos, a versão separada do DVD Live At Wembley estréia em #2 (atrás de Under The Stars de André Rieu). This Is It retorna em #10 e Moonwalker em #21 na lista dos 40 mais vendidos.


Por Bruno Couto Pórpora
Fonte: Official Charts Company

sábado, 22 de setembro de 2012

Um Pedaço da História: Michael Jackson ao vivo no Estádio Wembley

Huffington Post, 13 de setembro de 2012
Por Joseph Vogel

Há vinte e cinco anos atrás, no fim do verão de 1987, Michael Jackson lançava sua muito esperada sequência de Thriller, o álbum Bad. Bad acabou lançando cinco hits No. 1, vários curta-metragens clássicos e uma turnê mundial que quebrou recordes. Até hoje, estima-se que vendeu entre 30-45 milhões de cópias. Para celebrar o marco, o Espólio de Michael Jackson e a Epic/Legacy Recordings irão lançar um set com três CDs (Bad 25, em 18 de setembro), que inclui o álbum original remasterizado, um álbum de faixas bônus, incluindo demos e remixes, e um álbum ao vivo de sua Bad World Tour.

Juntamente com as novas músicas, o ponto alto da caixa Bad 25 é sem sombra de dúvida o DVD Live at Wembley. É um extraordinário pedaço de história que poderia ter sido perdido se não fosse por um descoberta casual entre os pertences de Jackson. Os shows de Wembley são o equivalente aos dos Beatles no Estádio Shea em 1965. Mas não se enganem: a performance de Jackson aqui eclipsa até os seus antecessores mais talentosos.

Infelizmente, apesar de uma extensa pesquisa através dos arquivos do popstar, o espólio de Jackson não conseguiu localizar as fitas master Umatic originais dos shows de Wembley. Talvez um dia desses elas apareçam em algum lugar. O que eles encontraram foi uma cópia em VHS do show, da próprio coleção pessoal de vídeos do cantor. "Mesmo encontrar esse VHS pareceu um milagre para nós," diz o co-executor do Espólio, John Branca.

Um perfeccionista, Jackson muitas vezes assistia a fitas de seus shows como esta para verificiar se a "magia" estava sendo capturada e o que poderia ser melhorado não apenas em sua própria performance, mas na do resto da equipe. Esta era sua cópia de exibição da lendária performance de 16 de julho de 1988, com a presença de 72,000 pessoas, incluindo a princesa Diana e o príncipe Charles.

Embora a origem da filmagem permaneça "pré-HD, qualidade VHS de 1988", ela foi restaurada por uma equipe que também tratou imagens recuperadas para a NASA. O resultado não é uma imagem de alta definição perfeita, mas para mim, pelo menos, tirou pouco da apreciação da experiência. Assistir ao DVD é como ser transportado no tempo. Parece como a era de onde ele vem. Em geral, parece que os closes e os ângulos médios estão mais nítidos, enquanto os planos gerais ficam um pouco embaçados às vezes. Felizmente, porque o trabalho de câmera é tão bom, conseguimos alguns close-ups brilhantes de Jackson que poderiam ser confundidos com alta-definição. Acrescente isso ao áudio original que foi captado em multi-faixas e apresentado em áudio 5.1, acaba sendo difícil reclamar sobre os resultados.

A Bad World Tour começou em setembro de 1987 no Japão e terminou quase dezesseis meses depois, em Janeiro de 1989 em Los Angeles. Tornou-se a série de shows de maior bilheteria e platéia na história. Jackson se apresentou para estimados 4.4 milhões de fãs em quinze países. Também foi sua primeira e última turnê solo na América do Norte.

Os shows de Londres aconteceram no meio da segunda etapa da turnê. A Michael-mania estava varrendo toda a Europa. Em Viena, na Áustria, a Associated Press noticiou que cerca de 130 pessoas desmaiaram durante o show. Quando ele chegou a Londres, a excitação chegou a um nível de febre. Todos os sete shows no Estádio de Wembley se esgotaram, quebrando os recordes anteriormente detidos por Madonna e Bruce Springsteen.

Assistindo ao show de 16 de julho em DVD 24 anos depois, ainda se pode sentir a energia visceral e a emoção no estádio. Quando Jackson finalmente aparece de dentro da fumaça e começa o número de abertura, Wanna Be Startin' Somethin', a multidão entra em erupção. Este é Michael Jackson no auge do seu poder de performance.

No entanto, parte do que torna a performance tão agradável é o quão simples e espontânea ela é (para os padrões de Jackson), desde o design do palco, aos figurinos, iluminação e apresentação em geral. O diretor musical Greg Philinganes lidera uma banda dinâmica, elevada atrás do palco, enquanto Jackson é acompanhado, em muitos dos números coreografados, por um grupo de talentosos dançarinos andróginos, em uma moda Blade Runner (incluindo Lavelle Smith).

A abordagem minimalista permite que o talento de Jackson - como cantor, dançarino e performer - brilhe. Ele está solto e exuberante, como se ele estivesse se divertindo muito, e nós estamos lá para assistir. Jackson canta ao vivo pela maior parte do show, e improvisa brilhantemente em certos momentos. Ao fim de I'll Be There, por exemplo, ele começa a improvisar como um pregador do evangelho possuído pelo Espírito. Ele pergunta e recebe respostas dos seus cantores de back-up e da platéia. "Can you feel it!" ele exclama. Pingando de suor, a música pulsando através dele, ele começa ritmicamente a bater o pé antes de se lançar ao próximo número.

Outros destaques incluem o locking, popping e mímica de Jackson ao fim de Human Nature e seus gritos etéreos dirigidos para o público. A introdução de Smooth Criminal em silhueta esfumaçada, que entrega a agora famosa e ainda cativante coreografia. O solo de bateria extendido de Billie Jean que permite a Jackson improvisar com a batida - girando, chutando e deslizando. Parte do que torna Jackson tão atraente como performer é como o seu corpo está constantemente em movimento e totalmente em sincronia com a música. Por todo o show, ele se torna, como ele costumava dizer, "o meio através do qual a música flui."

Um dos momentos mais agradáveis acontece no final, quando Jackson brinca introduzindo seus cantores de back-up, guitarristas e banda. Dá um senso de humor e alegria em fazer parte de uma colaboração criativa. Ele também permite que um grupo de crianças suba ao palco, e elas tentam imitar os movimentos de dança de seu ídolo.

O show termina com uma performance de tirar o fôlego de Man In The Mirror. Como Spike Lee (que acabou usando a performance para concluir o seu documentário Bad 25) disse, "Se você olhar para aquela apresentação, ele está em outro lugar. Esta é uma das melhores performances de todos os tempos. Você vê a forma que Michael canta aquela canção - ele não é deste mundo. Ele está em outro lugar."

Jackson se apresentou em um total de sete shows em Londres, para estimadas 500,000 pessoas. A demanda por ingressos era tão grande que foi estimado que ele poderia ter feito pelo menos mais 10 shows esgotados em Wembley se ele quisesse. Todos queriam testemunhar o fenômeno que era Michael Jackson.

Em 18 de setembro, depois de anos amontoando poeira em um armazém, o mundo finalmente terá a chance de experimentar a magia de novo.



 Traduzido por Bruno Couto Pórpora

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Bad 25 (BBC Review)

BBC, 17 de setembro de 2012
Por Mike Diver

Uma fantástica, perene e essencial obra pop

Um campeão milionário de vendas, Bad foi (e permanece) tão importante para a década de 80 como a ascensão do Walkman, os filmes De Volta Para o Futuro e o assassinato de JR. Como Thriller de 1982, é um álbum que parecia encontrar lar fácil na coleção de roqueiros, punks e poetas também.

Ubiquidade vem barato em 2012 (obrigado, internet), mas em 1987 era conquistada sendo o melhor dos melhores. E Bad era simplesmente isto: quase uma coleção de maiores sucessos, gerou nove singles. Sua campanha nas paradas não começou com a faixa-título, mas com I Just Can't Stop Loving You, um número um tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido. No Reino Unido, Bad (a música) atingiu a terceira posição, enquanto Rick Astley dominava o topo.

A faixa-título disparou para o No. 1 nos Estados Unidos, seguida por The Way You Make Me Feel, Man In The Mirror e Dirty Diana. A estrela de Jackson estava em seu apogeu em toda a década de 80 - mas a fama nunca garante a aprovação crítica. Mesmo assim, Bad foi tão bem recebido pela imprensa como pelos fãs de Jackson. É uma raridade especial: um gigante comercial de qualidade em seus 48 minutos.

A produção de Quincy Jones é apertada mas certeira, cada canção pode respirar sem ser desordenada por elementos desnecessários. Dirty Diana é um pouco pobre, apesar da extravagante guitarra de Steve Stevens, mas poderosa também. Speed Demon, considerada uma enche-linguiça pelos críticos da época, é um divertido funk-rock que entraria facilmente para qualquer álbum de Prince da época, em composição se não também pela sua letra.

Demos inéditas compõem a maior parte do segundo disco desta versão de aniversário. Entre as mais interessantes estão Song Groove (Aka Abortion Papers) e Price Of Fame. A primeira, com sua percussão agressiva e poucos sintetizadores, é sobre uma garota cristã levando um gravidez indesejada. "Michael sabia que ela poderia ser polêmica," dizem as notas que acompanham o livreto; mas Jackson trata o assunto com ternura.

Price of Fame aborda as pressões que Jackson sentia como ídolo pop. Dos seus seguidores obsessivos, ele escreveu: "Eles fazem qualquer coisa e está quebrando meu coração... está me deixando louco." É talvez a primeira nota das rachaduras que em breve se espalhariam. Mas nada do que estaria por vir na carreira de Jackson poderia tirar o brilho desta impressionante, essencial e perene obra pop.



Traduzido por Bruno Couto Pórpora

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Como Michael Jackson Criou "Bad"

The Atlantic, 10 de setembro de 2012
Por Joseph Vogel

A história de como o lendário álbum, que completou 25 anos e em breve será re-lançado em um set de três discos, foi moldado pela reação "Wacko Jacko" contra o popstar

No auge de sua fama, Michael Jackson desapareceu.

Em 1984, ele parecia estar em todos os cantos: na MTV e em comerciais da Pepsi, no Grammy e na Casa Branca, na capa da Rolling Stone e da Time, e em todos os Estados Unidos com a Victory Tour. No ano seguinte, no entanto, além de uma breve aparição em We Are The World, ele não foi mais visto. "O ano 1985," escreveu Gerri Hirshey na Rolling Stone, "foi um buraco negro para quem esperou por Jackson, estes que testemunharam o ato de desaparecimento mais espetacular desde que o cometa Halley seguiu para o lado mais distante do sistema solar em 1910." Foi um passo estratégico de um performer que entendia o poder da espera e da mística. 1986 foi praticamente o mesmo. Foi dito que Jackson era um recluso "se escondendo" e ele fez poucas aparições públicas.

Em sua ausência tomou lugar um dilúvio de históricas fantásticas sobre altares, câmaras hiperbáricas e os ossos do Homem Elefante. A maioria delas era inofensiva (e na verdade encantavam Jackson), mas havia um lado mais negro na revolta da mídia. Jackson havia se tornado o afro-americano mais poderoso na história da indústria do entretenimento. Ele não apenas havia construído um império através de seus álbuns que quebraram recordes, vídeos e performances, ele havia ressuscitado a fortuna da CBS/Epic Records, fez a MTV tomar vida, e levantou o padrão do entretenimento ao vivo. Ele também espertamente conquistou a posse completa dos masters de suas gravações com a ajuda de seu advogado, John Branca, ativamente adquiriu direitos de publicação, incluindo músicas de Sly and the Family Stone, Ray Charles e, é claro, a jóia da coroa da música popular: o catálogo ATV/Beatles.

Não é uma coincidência que foi neste preciso momento que a maré começou a mudar. Dos chefões da indústria aos da mídia, havia agora suspeita, ressentimento e ciúme. Era claro que Jackson não era meramente um ingênuo homem-criança (como ele era muitas vezes apresentado), ou um homem da música e dança que sabia e aceitava o seu lugar como um entertainer estático e submisso. Ele estava burlando algumas das figuras mais poderosas da indústria. Ele estava crescendo artisticamente e financeiramente. E ele estava começando a aprender como exercer seu considerável poder e influência cultural para mais fins políticos e sociais.

"Ele não vai ser facilmentes perdoado por ter virado tantas mesas," escreveu James Baldwin em 1985, "porque ele com certeza pegou o anel de bronze, e o homem que quebrou o branco em Monte Carlo não tem nada apostado em Michael. Todo o barulho é sobre a América, como a guardiã desonesta da vida e riqueza negra, especialmente masculina, na América; e da queima, da culpa americana enterrada; e do sexo e dos papéis sexuais e pânico sexual; dinheiro, sucesso e desespero..."

A reação, então, não era meramente por conta das percebidas excentricidades de Jackson. Era sobre poder, dinheiro e formas mais sutis de dominação institucional e cultural. Nas décadas anteriores a Jackson, como James Brown colocou, os artistas negros estavam por demais vezes "no show, mas não no show business". Agora Jackson era uma força financeira a ser reconhecida. Seu status, no entanto, também o transformou em um enorme alvo.

Começando em 1985, a mídia se tornou cada vez mais cruel com o artista. "Eles desejam o nosso sangue, não a nossa dor," escreveu Jackson em uma nota, em 1987. Os tablóides logo começaram a depreciá-lo com o apelido "Wacko Jacko" (um termo que Jackson detestava). Foi um termo primeiramente aplicado ao pop star pelo tablóide britânico The Sun, em 1985, mas sua etimologia vêm de mais longe. "Jacko Macacco" era o nome de um macaco famoso usado em lutas de macacos no Westminster Pit em Londres, no começo da década de 1820. Subsequentemente, o termo "Jacco" ou "Jacco Macacco" era uma gíria londrina para se referir a macacos em geral. O termo persistiu ao longo do século 20 quando "Jacko Monkeys" se tornou um brinquedo popular para crianças no Reino Unido nos anos 50. Eles permaneceram comuns nos lares britânicos até a década de 80 (e ainda podem ser encontrados no Ebay).

O termo "Jacko", então, não surgiu do vácuo, e certamente não foi concebido como um termo carinhoso. Nos anos seguintes, ele seria usado pelos tablóides e mídia mainstream com um desprezo que não deixou dúvidas sobre a sua intenção. Mesmo para aqueles que desconhecem suas raízes e conotações racistas, ele foi obviamente criado para "outrorizar", humilhar e rebaixar o seu alvo. Como a cena da Batalha Real de Ralph Ellison em O Homem Invisível, foi um processo para reduzir Michael Jackson, o ser humano e artista, para "Jacko", o espetáculo de diversões para avarentos (É importante notar que, embora o termo tenha sido amplamente usado pela mídia branca, ele foi raramente, se é que foi usado alguma vez por jornalistas negros.)

Esta foi a corrente sinistra que começou a girar em torno de Jackson e teve um impacto tanto em sua psique como na do público (particularmente nos Estados Unidos). A tensão entre o controle e liberdade ou fuga percorre todo o álbum Bad e seus videoclipes.

No curta-metragem de Leave Me Alone, por exemplo, Jackson sutilmente transmite a realidade carnavalesca de sua vida como um entertainer transformado em objeto. Inspirado em parte pelas Viagens de Gulliver de Jonathan Swift, um Jackson maior-do-que-a-vida é literalmente preso a uma atração de parque de diversões, enquanto cachorros vestidos de executivos colocam estacas no chão para mantê-lo no lugar. Mais a frente no vídeo, ele canta de dentro de jornais, notas de dólar e de dentro de reconstituições de histórias sensacionalistas. É uma astuta análise consciente de si mesmo (e socialmente consciente) do aprisionamento, exploração e dupla consciência na era pós-moderna.



(Parte 2)


Parte do "desaparecimento" de Jackson, então, também tinha a ver com a realidade de sua vida. Ele não mais podia andar livremente em qualquer lugar do mundo sem ser assediado, examinado e dissecado.

Seu retiro foi sua arte. De 1985 a 1987, longe do olhar do público, ele estava compondo e gravando prolificamente. As sessões de Bad acabariam gerando mais de 60 músicas em vários estágios de conclusão. Em certo ponto, ele considerou lançá-lo como um álbum triplo.

Jackson chamava seu estúdio caseiro em Hayvenhurst de "o Laboratório". Era ali onde a mágia era criada com um grupo pequeno de músicos e engenheiros de som, incluindo Matt Forger, John Barnes, Chris Currelll e Bill Bottrell (muitas vezes referido como o "Time-B"). Agora já se tornou uma lenda que Jackson escreveu "100 milhões" no espelho de seu banheiro, o número de cópias que ele esperava que Bad vendesse. O número era mais do que o dobro do número de álbuns que Thriller havia vendido até então. Tal era a extensão da ambição de Jackson.

No entanto, não era apenas sucesso comercial o que ele procurava. Jackson queria inovar. Ele contou aos colaboradores que queria criar sons que o ouvido nunca havia escutado. Excitantes novos sintetizadores estavam surgindo na cena na época, incluindo o Fairlight CMI e o Synclavier PSMT. "Eles realmente abriram outro domínio de criatividade," relembra o engenheiro de som Matt Forger. "O Fairlight tinha essa leve caneta que podia desenhar uma onda de som na tela e permitia que você a modificasse. O Synclavier era apenas uma extensão disso. Muitas vezes nós acabávamos combinando dois elementos de sintetizadores juntos para criar um caráter único. Você conseguia fazer isso dentro do Synclavier, mas você também também podia incrementar com precisão o nível de cada elemento do som. E com isso você podia costurar o som. Nós fizemos muito sampling e criamos novos elementos de som e então criamos uma combinação de sons de sample misturados com a síntese de FM."

Jackson estava fascinado com essas novas tecnologias e constantemente em procura por novos sons. O elemento de som que abre Dirty Diana, por exemplo, foi criado por Denny Jaeger, um expert em Synclavier e designer na Bay Area. Quando Jackson ouviu sobre Jaeger e sua livraria de novos elementos e camadas de som, ele entrou em contato e o chamou para trabalhar em Bad. Os sons de Jaeger acabaram aparecendo tanto em Dirty Diana como em Smooth Criminal. "Michael estava sempre procurando por algo novo," conta Forger. "O quanto poderíamos inventar ou pesquisar e encontrar? Muito disso acontecia. Era esse o propósito do Laboratório."

O que torna o álbum Bad tão atemporal, no entanto, é a maneira como Jackson foi capaz de elogiar essa inovação técnica com qualidades mais orgânicas ao estilo soul. Em The Way You Make Me Feel, por exemplo, o implacável movimento da batida é justaposto com todo tipo de qualidades naturais de improvisação que dão à canção o seu charme: os ad libs vocais, os estalos de dedos, a harmonia blues, os grunhidos e suspiros de percussão, as exclamações. O engenheiro de som Bruce Swedien fala de como ele deixou todos os hábitos vocais de Jackson como parte do "quadro geral de som". Ele não queria tornar a música "antissepticamente limpa" porque ela perderia seu efeito visceral.

Em muitas sentidos, Bad foi o alcance da maturidade de Jackson como artista. Quincy Jones o desafiou a compôr todo o material e Jackson respondeu, compondo nove das 11 faixas que entraram no álbum e dezenas mais que ficaram de fora. "Estude os grandes," ele escreveu em uma nota para si mesmo, "e se torne maior." Ele falava sobre a "anatomia" da música, de dissecar suas partes. Ele também estava lendo muito, incluindo a obra de Joseph Cambpell. Ele queria entender por que o simbolismo e mitos ressoavam ao longo do tempo.

Quando ele trouxe os demos para trabalhar com Quincy Jones e Bruce Swedien (o Time-A) no estúdio de Westlake, a maioria dos elementos-chave das canções já estavam em seu lugar. Agora era uma questão de detalhes: uma pequena escovada, polimento, e para o desgosto de Jackson, enxugada. O assistente de engenheria Russ Ragsdale estima que mais de 800 fitas de multi-faixas foram usadas para criar Bad, um número extraordinário. Pilhas de fitas enchiam a sala de monitoramento, onde Jackson geralmente trabalhava com o programador de sintetizador, John Barnes. Os vocais eram regravados até que Jackson se sentisse satisfeito. Jackson, Quincy Jones e Bruce Swedien continuaram a ajustar e debater decisões até o último minuto antes do fim do prazo.

O mesmo nível de atenção foi dispensado nos curta-metragens. Em suas notas sobre o vídeo de Bad, Jackson indica que ele ainda não estava completamente satisfeito com a coreografia. Os passos tinham de ser tão internalizados para que não houvesse qualquer pensamento. Ele tinha que se dissolver dentro dos passos e da música até eles se tornaram sentimentos puros.

Muitas pessoas ainda não percebem o dedo de Jackson em cada detalhe de seu trabalho, da coreografia a iluminação, ao figurino e a história. Enquanto ensaiava para o curta-metragem de Smooth Criminal, Jackson eloquentemente explicou ao diretor Colin Chivers e ao coreógrafo Vincent Paterson a tensão e libertação que ele esperava alcançar na bridge da música. "É por isso que nós a construímos como se fosse uma montanha e então a derrubamos novamente," ele instruiu. "Então no topo [efeitos sonoros com a boca] com os acordes altos. Algo apenas para levar a emoção que nós não demonstramos no momento [efeitos sonoros com a boca]. Só uma buzina ou algo assim, sabe... para levar o sentimento... eu quero que a música represente como nós nos sentimos... vai ditar nossa emoção, o nosso humor. Nós estamos expressando a forma como todo mundo se sente. É rebelião. Sabe o que quero dizer? Estamos deixando sair o que sempre quisemos dizer para o mundo. Paixão e raiva e fogo!"

Vinte e cinco anos depois, os resultados falam por si mesmos. Clipes como Bad e Smooth Criminal estão entre os melhores que o formato tem a oferecer. Canções como Man In The Mirror, The Way You Make Me Feel, Dirty Diana e Another Part Of Me continuam sendo tesouros no vasto catálogo de Jackson. Escutando o álbum remasterizado, incluído no set de três CDs, Bad 25, a ser lançado em 18 de setembro, é um lembrete de sua personalidade singular e prazer. Ouça as linhas de baixo, as camadas de ritmo, a experimentação vocal, as narrativas cinematográficas, as exclamações características e o vocabulário inventado, a vitalidade e a alegria pura. Este é o pop em seu estado mais dinâmico e está, juntamente com os melhores trabalhos de Prince, entre os melhores álbuns dos anos 80.

Bad é o retrato de um artista em seu auge - ousado, criativo e confiante. Agora, como então, "o mundo todo tem de responder."




Traduzido por Bruno Couto Pórpora

sábado, 15 de setembro de 2012

"Abortion", "Fame" e "Bad": A História por Trás dos Demos de Michael Jackson

The Atlantic, 11 de setembro de 2012
Por Joseph Vogel

As histórias por trás destas faixas que finalmente verão a luz do dia no re-lançamento de 25 anos do álbum

No final de 1986, Michael Jackson andava pelo Studio D de Westlake cantando para si mesmo, "I feel so bad, I feel really bad, God music makes me feel good."

"Na época, nós não tínhamos idéia que o nome do álbum iria ser Bad," brinca o assistente de engenharia de som, Russ Ragsdale.

Não foi a única revelação para a equipe de Westlake. Acabou que, no intervalo entre Thriller o começo oficial das sessões de Bad, Jackson havia composto certa de 60-70 músicas novas. Onze terminaram no álbum oficial, deixando númerosas faixas maravilhosas em vários estágios na sala de mixagem.

Ao longo dos dois últimos anos, sob a direção do Espólio de Jackson, uma equipe cuidadosamente arquiva e digitaliza estes demos. "Algumas das faixas que encontramos são demos muito cruas," conta o co-executor do Espólio de Jackson, John Branca. "Algumas estavam tão completas que qualquer outro artista exceto Michael Jackson poderia considerá-las prontas. E outras estão no meio termo." Destas, seis demos foram escolhidas para o Disco 2 do box set de Bad 25 (a ser lançado em 18 de setembro).

Recentemente eu pude escutar com exclusividade a estes demos nunca lançados. Eu fiquei impressionado pela qualidade e pelo acabamento delas. Não são meros fragmentos de canções. Enquanto a produção em algumas delas soa um pouco datada, todas tem ótimos hooks e refrões. O que as torna muito especiais, no entanto, é a sua autenticidade. Nenhuma delas recebeu uma roupagem moderna. O que elas oferecem é um retrato mais íntimo de Jackson, o artista fonográfico, em seu período de 1985-87. Nós escutamos suas idéias, seu calor, sua dor, seu humor e sua energia. O melhor do pacote, para mim, é a maravilhosa balada mid-tempo I'm So Blue, embora duas faixas mais agitadas também tenham se tornado favoritas minhas, Price of Fame e Al Capone. Cada uma das seis demos (e duas que haviam sido lançadas anteriormente) contém sua marca única - e a mais importante, todas são 100% reais, Michael Jackson puro.

O que se segue é uma crítica faixa-a-faixa com informações adicionais do engenheiro de som e amigo de longa data de Jackson, Matt Forger:

"Don't Be Messin' 'Round"

Eu escrevi um longo artigo sobre a criação desta contagiante faixa (você pode lê-lo aqui), com estilo de Bossa Nova, em junho quando ela foi lançada como B-Side com a balada No. 1 de Jackson, I Just Can't Stop Loving You. Uma favorita dos fãs (e uma música que Jackson trabalhou durante muitos anos e pela qual ele tinha grande afeição), é uma abertura apropriada para esta coleção. Alguns dizem que seria fascinante para os ouvintes escutarem as versões extendidas (muitas das músicas e demos de Jackson têm versões mais longas que ele relutantemente diminuía a pedido de Quincy Jones) assim como suas posteriores reencarnações.

Matt Forger: "O que eu amo nestes demos é a sua crueza. Michael tinha a liberdade de se expressar sem ter de pensar, 'Oh, Quincy vai julgar os vocais, ou ela tem de ser perfeita.' É apenas Michael indo em frente, experimentando, se divertindo."

"I'm So Blue"

Esta é uma balada simples mas linda que fala sobre afastar a tristeza. Seu sentimento lânguido e melancólico é reforçado por um teclado exuberante, acordes e gaita. Ela evoca um crepúsculo quente de verão, enquanto Jackson narra um conto de amor perdido. "Still I'm crying/Tell me what should I do." O refrão sem palavras (sha da da da da da da) é um suspiro resignado. Como os antigos homens do blues, ele se refugia de sua solidão e tristeza na música.

Matt Forger: "Esta é uma música que Michael trabalhou comigo e com Bill Bottrell. Já estava mixada naquela era. É um mid-tempo, melancólico, tipo de música para se ouvir num dia chuvoso perto da lareira. Lembra um pouco Stevie Wonder - a harmonia, a tonalidade. Stevie era uma grande parte da vida de Michael. Não é incomum você ver esta influência no trabalho dele."

"Abortion Papers"

Jackson não é o primeiro artista fonográfico a explorar o polêmico tema do aborto em uma música. Ele também já apareceu no trabalho de Neil Young, Madonna, Sinead O'Connor e Lauryn Hill, entre outros. Em Abortion Papers, Jackson aborda o assunto cuidadosamente (e de forma ambíguia); ao invés de apresentar uma perspectiva política dogmática, ele a personaliza através da história de uma garota em conflito, criada em uma casa profundamente religiosa com seu rígido pai leitor da Bíblia. Em suas notas sobre a faixa, Jackson escreveu, "Eu tenho de fazê-la de modo que eu não ofenda as garotas que fizeram aborto ou as traga sentimentos de culpa, então tem de ser feito com cuidado... Eu tenho que pensar muito sobre isso." Jackson narra a faixa com um vocal forte e apaixonado. Ironicamente, o melhor da faixa é que ela contagia. Parece um pouco estranho querer dançar e cantar uma música sobre aborto, mas é exatamente o que o groove viciante inspira. Parabéns a Jackson por tentar abordar um assunto sensível de forma responsável, embora pareça que até mesmo ele não tinha certeza de como seus ouvintes a levariam.

Matt Forger: "Esta foi a música que inicialmente perdemos durante o processo de arquivar. Estava entitulada 'Song Groove' na caixa, então passou despercebido. Quando nos tocamos qual faixa era, começamos a montar o quebra-cabeças. Foi gravada por Brian Maloof e Gary O., dois engenheiros de som que trabalharam com Michael por um breve período. Quando a escutamos nós sabíamos que seria polêmica, especialmente com o que anda acontecendo politicamente. Mas quando você escuta a música, há uma história sendo contada. Michael realmente refletiu sobre como a abordagem deveria ser. Ele não estava certo sobre como narrá-la. Havia variações diferentes de vocais - ele não queria que fosse uma crítica. Ele foi bem claro em relação a isso. Mas ele queria apresentar uma situação real e complicada."

"Free"

"Got to be free," exclama Jackson ao final desta alegre balada. Seu vocal soproso e brilhante trás de volta a vitalidade da era Jacksons/Off The Wall. Os versos nesta faixa estavam claramente sendo trabalhados, mas o refrão ("Free, free like the wind blows/To fly away just like the sparrow...") e a harmonia são o suficiente para mandar para longe as precoupações do dia. Bela canção.

Matt Forger: "Em alguns momentos, voltar e ouvir estas coisas novamente foi uma experiência muito emocionante para mim. Este foi especialmente o caso quando eu comecei a trabalhar na canção Free. Quando você ouve essa canção, você ouve o espírito e a alegria de Michael. É crua, é solta, é ele em seu elemento, fazendo o que ele amava fazer. A primeira vez que eu a escutei, eu chorei. Ela soa como os nossos dias no estúdio."

"Price Of Fame"

Um dos temas recorrentes no trabalho de Jackson - penetrante no álbum Bad e em seus outtakes - é sobre estar no controle vs. ser controlado. Dada a natureza de sua vida, especialmente depois de Thriller, esta preocupação faz sentido. Como ele mantém sua identidade, sua sanidade, sua privacidade em meio ao sufocante escrutínio, adulação e expectativas? Fora deste contexto vem a ruminação psicológica sombria, Price Of Fame, com sua abertura ao estilo de Spirits in a Material World do Police e versos a lá Billie Jean (também tem os acordes que ecoam Who Is It). "Father always told me you won't live a quiet life," ele canta, "if you're reaching for fortune and fame." O vocal é encharcado com uma dolorosa ironia. Enquanto Billie Jean narra o apelo de uma mãe para ser "cuidadoso com quem você ama," aqui o pai domina com duros ditados sobre a realidade do show business. "It's the price of fame," Jackson canta no refrão. "So don't you feel no pain/It's the price of fame/So don't you ever complain." Embora a produção não esteja completa para os padrões de Jackson, ela oferece um vocal poderoso (ouça a maneira como ele ataca o verso "My father never lies!"). É uma justaposição marcante à felicidade fácil da faixa anterior, revelando o porque ele tão desesperadamente desejava voar e ser "livre".

Matt Forger: "Bill [Bottrell] e eu trabalhamos nesta e eu acredito que esta é a mixagem de Bill daquela época... Você pode notar que é uma música carregada emocionalmente. É claramente baseada na experiência dele. Mas Michael muitas vezes fazia canções que eram baseadas em sua experiência mas se misturavam com outros personagens e em experiênciais de outras pessoas também."

"Al Capone"

Al Capone soa tanto como Smooth Criminal como Streetwalker soa como Dangerous (ou seja, não são muito parecidas). Em ambos os casos, no entanto, Jackson tomou elementos que ele gostava e os transformou em algo completamente novo. É uma prova dos instintos, paciência e ética de trabalho de Jackson. Embora esta versão anterior tenha grande potencial (e provavelmente teria sido lançada por muitos contemporâneos de Jackson na forma como está), ele a guardou e veio com o clássico atemporal que é Smooth Criminal. A demo também demonstra o notável talento de Jackson por refrões que grudam. Uma audição e aquelas harmonias em falsete irão ligar o repeat do seu cérebro.

Matt Forger: "Este é um exemplo de uma música onde uma parte dela inspira a próxima versão da canção. Houve muitos casos em que Michael fez isso, onde ele se enfurnava dentro de uma canção e refinava conceitos, ou letras ou melodias. A linha de baixo em Al Capone - você pode ver como ela evoluiu para Smooth Criminal. E todo o tema gangster seguiu junto - embora quando tenha evoluído tenha se tornado menos sobre uma figura histórica particular e mais sobre uma situação e história. Você também pode ouvir Michael experimentando com esse tipo de vocal staccato, este jogo de palavras rápido que ele usaria mais tarde."

"Streetwalker"

Streetwalker mantém o seu lugar como um dos melhores outtakes da era Bad (seguido de perto pelo destaque não incluído, Cheater). Embora tenha sido lançada em 2001 na edição especial de Bad, é bom tê-lo nesta coleção já que ele se encaixa perfeitamente com o material do álbum e agora será ouvido por mais milhões de pessoas. Jackson queria colocar a faixa na lista final de Bad, mas eventualmente concordou com Quincy Jones em trocá-la por Another Part of Me. A canção apresenta uma arrasadora linha de baixo, gaita de blues e um vocal clássico de Jackson.

"Fly Away"

Também lançada originalmente na edição especial de Bad em 2001, esta bela balada é pura felicidade sonora. Ao contrário de alguns dos demos iniciais de Hayvenhurst, a produção aqui é pura e exibe a voz de Jackson em forma sublime.

Remixes:

Há um punhado de remixes no final do Disco 2 destinados, sem dúvida, a introduzir Jackson para uma nova geração de ouvintes. De longe, o melhor destes o altamente energético remix de Speed Demon feito por Nero. Parece que poderia ser um sucesso nas boates ou no rádio hoje. 



Traduzido por Bruno Couto Pórpora