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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A Tempestuosa Família Jackson

Em 3 de junho de 2014, foi publicado nos Estados Unidos o livro Remember The Time: Protecting Michael Jackson in His Final Days. Um relato de memórias de Bill Whitfield e Javon Beard, dois seguranças que trabalharam para o Rei do Pop durante dois anos e meio - entre dezembro de 2006 e junho de 2009. Engraçado, triste e trágico, conhecemos a intimidade do carinhoso pai Michael Jackson e a solitária rotina de seus anos finais. Nesta tradução exclusiva, confira um trecho do livro. Todos os direitos do texto original pertencem à Weinstein Books.

Bill: Alguns fãs passavam de carro pela casa. Eles vinham, circulavam pelo quarteirão, paravam, olhavam um pouco e iam embora. Neste dia em particular, deve ter sido no começo de fevereiro, nós vimos uma PT Cruiser vinho indo e voltando para a frente da casa. Tinha janelas filmadas, então não podíamos ver quem era. O carro circulou pelo quarteirão talvez umas quatro vezes e foi embora. Isso nos deixou alarmados. No dia seguinte, a mesma PT Cruiser veio e estacionou bem ao lado do portão. Javon ficou no trailer para assistir os monitores. Eu desci até o portão para ver o que era aquilo. Eu cheguei lá, e o pai do senhor Jackson, Joe Jackson, estava saindo do carro. Era a primeira vez que eu via esse cara em pessoa; eu só o havia visto pela TV antes. Ele tem uma aparência sinistra. Uma monocelha. Parece o Blacula e tudo. O tempo todo eu fiquei pensando, "Cara, esse aqui é o Joe Jackson. Esse é o cara que batia nas crianças do Jackson 5." Foi isso o que se passou na minha cabeça, olhando pra ele. Eu coloquei minha mão para fora do portão para cumprimentá-lo e disse, "Como você está, Sr. Jackson?" Ele não me cumprimentou. Ele só me olhou com essa expressão desagradável e disse, "Você provavelmente é um desses que estão injetando agulhas no braço do meu filho." Eu não respondi. Ele disse, "Estou aqui para ver o Michael". Eu disse, "Okay," o deixei, e fui para dentro da casa para buscar o sr. Jackson. Ele estava no quarto dele, escutando música bem alto. Eu bati na porta e ele saiu, e eu disse, "Senhor, o seu pai está lá fora." 

Ele perguntou, "Ele marcou um horário? Ele está no calendário?" 

"Eu acredito que não, senhor."

"Não, não, não. Eu estou trabalhando. Eu não posso ser perturbado quando estou criando. Diga a ele que ele tem de voltar e marcar um horário."

Quando esse papo de marcar horário saiu da boca dele? Me deixou bem confuso. Eu saí até o portão pensando, "Cara, eu tenho que dizer para esse homem que ele precisa marcar um horário? Para ver o seu filho?" Uh-uh. Eu não ia fazer isso. Eu ia ter que inventar alguma coisa. Eu fui até o portão e disse que o Sr. Jackson estava ocupado, mas que se ele voltasse no dia seguinte, eu asseguraria que deixaria o filho dele saber que ele queria visitá-lo. Então entreguei meu cartão a ele. Ele não o pegou. E começou a me atacar. “Eu não preciso da porcaria do seu número! Se não fosse por mim, nenhum de vocês, seus bastardos, teriam emprego! Fui eu quem começou essa merda”! Quando ele começou com esse papo? Nossa conversa acabou. Eu saí de lá. Ele ficou em pé lá, na calçada, gritando para o nada. Eu não queria fazer parte daquela cena, então dei meia volta e voltei ao trailer. Enfim ele entrou no carro e foi embora. Naquele momento, eu comecei a me perguntar em que tipo de situação havíamos nos metido. Eu não havia me comprometido a isso, me envolver com família.

Javon: Alguns dias depois que o Joe veio, havíamos feitos planos para levar o chefe e as crianças ao cinema. O time reserva estava vigiando a casa e Billy e eu estávamos ao caminho do cinema, há algumas milhas, para fazermos a pré-segurança. De repente recebemos uma ligação no rádio. 

“Eles violaram o portão! Eles violaram o portão!”

Bill agarrou o rádio. “Quem? Quem violou o portão?” 

“A família dele. Eles estão aqui.”

No momento em que escutamos aquilo, quebramos toda regra de trânsito do manual. Estávamos dirigindo do lado errado da rua, passando por barreiras. Voamos de volta para casa.


Bill: Estacionamos e eu vi uma Hummer preta dentro do portão. Eu estava vermelho, com raiva, gritando no carro, “Como eles conseguiram passar o portão?” O portão para a rua fechava muito devagar. Tinha sempre de ficar atento, porque se você abrisse para um carro, geralmente havia tempo para outro vir logo atrás. Nós descobrimos depois que foi isso o que aconteceu. O chef havia entrado para deixar uma encomenda, e a família do Sr. Jackson estava esperando na rua, com o carro em marcha lenta, esperando pela chance de entrar. Eu saí do carro e vi que haviam três dos seus irmãos: Randy, Rebbie e Jackie. Eles estavam parados na rotatória  em frente da casa. Eles vieram até mim. Eu estava esperando confronto, como com Joe, mas eles foram muito cordiais, muito calmos. Eles se apresentaram. Jackie apertou a minha mão e disse, “Hey, como você está? Você é o Bill?”

“Sim, senhor.”

“Okay, sim. Nós ouvimos falar sobre você.”

Então Randy interrompeu. “Você é da Fruit?” ele perguntou.

“Perdão?”

“Você é da Fruit of Islam?”

Eu disse, “Não, não sou.”

Randy disse, “Oh, ok. Bem, nós precisamos falar com o nosso irmão.”

Eu disse, “Sinto muito, mas vocês precisam marcar um horário.”

E isso foi tudo o que dissemos. Depois disso, eu os escoltei para fora da propriedade. A situação toda foi muito desagradável. Enquanto eu retornava para a casa, olhei para cima e pude ver o Sr. Jackson assistindo tudo por detrás das cortinas da janela do seu banheiro. Eu entrei e o encontrei. Ele parecia bem agitado. 

Eu perguntei, “Senhor, está tudo bem?” 

Ele disse, “Como eles conseguiram simplesmente vir até a minha porta de entrada?” 

Eu disse, “Eu sinto muito, senhor. Eu vou checar com o time e descobrir o que aconteceu.”

Ele disse, “Bill, isso nunca mais pode acontecer novamente.”

“Sim, senhor.”

“Nunca. Você entende isso?”

“Eu entendo.”

Javon: Dava pra notar que a família estava brava conosco. Eles pensavam que nós é que estávamos impedindo o acesso. Muitas pessoas acusaram a segurança do Sr. Jackson de tentar limitar o acesso a ele como forma de controlá-lo. Mas não tínhamos parte alguma nisso. Não estávamos nem aí se a família falasse com ele. Eram 100% as ordens do Sr. Jackson. Eu não sei como era o lance com a família dele antes de nós chegarmos, mas sob a nossa vigilância era óbvio que o relacionamento deles era nulo e vazio. Não entendíamos isso. Você pensaria que eles eram inimigos. Eu fiquei tipo, “O que tá rolando? Por que ele não quer ver a própria família?”

Bill: O Sr. Jackson e Elizabeth Taylor eram velhos amigos, e ela ia fazer uma festa de aniversário pelos seus setenta e cinco anos num resort em Lake Las Vegas, esse evento grande, de tapete vermelho. O pessoal dela havia escutado que o Sr. Jackson estava morando aqui agora, e eles entraram em contato com a empresária dele para perguntar se ele iria comparecer. Eles queriam que fosse uma surpresa para a sra. Taylor; ela não saberia de nada até ele aparecer. É claro que o Sr. Jackson queria ir. Então por volta de duas semanas antes do evento, ficamos sabendo e começaram os preparativos.

Javon: A primeira coisa que o Sr. Jackson fez foi ligar para o Roberto Cavalli, o designer, para criar a roupa que ele usaria para a festa. Cavalli pegou um vôo de emergência para lá. Nós o pegamos no MGM Grand, o levamos para a casa, e ele o Sr. Jackson começaram a desenvolver toda essa coisa nova para ele só para a festa. O Sr. Jackson estava obsessivo com cada detalhe. Ele mandou seu cabeleireiro vir de avião e sua maquiadora também. Assim que vimos aquilo? Sabíamos que ele estava levando a sério. Estávamos trabalhando para ele por volta de um mês, e essa foi a primeira vez em que ele disse, “Se certifiquem de irem com ternos novos.” Não apenas ternos, ternos novos. “Lavem os carros. Enceirem os carros. Se certifiquem de que seus sapatos estejam brilhando como espelhos.” Ele nunca havia feito esse tipo de coisa antes. Tipicamente, ele apenas no dizia onde queria ir e nós dávamos conta. Essa era a primeira vez que apareceríamos em público, onde sabíamos que haveria paparazzis e imprensa. Então todo dia, o Sr. Jackson falava, “Vocês têm que estarem ótimos. Quero que todo mundo esteja ótimo.”

Bill: Fomos ao shopping algumas vezes, com ele disfarçado. Fomos à Tiffany’s, ao Hallmark. Ele escolheu alguns presentes, um cartão de aniversário. Ouvíamos ele falando no carro, falando com Feldman sobre como ele estava cheio de energia. Estávamos ficando animados só de ficar perto dele. Era a primeira vez que realmente o víamos assim. No dia da festa, ele estava de bom humor o dia todo. Era contagiante. Se espalhava para todos na casa.

“Hey, o Sr. Jackson está de bom humor!”

Todos estavam entusiasmados. Toda a atmosfera do lugar mudou. O time de segurança, estávamos um olhando o outro, nos certificando de que estávamos prontos. Ternos passados. Sapatos engraxados. Até as nossas armas foram lustradas. Merda, estávamos bonitos!

Javon: Estávamos prontos para andar no tapete vermelho com Michael Jackson. Era surreal para nós. Éramos seguranças, mas também éramos fãs. Como não poderíamos ser? Estávamos escoltando o Rei do Pop para o aniversário de Elizabeth Taylor. Isso era topo de linha. VIP.

Bill: Estávamos prontos para seguir, os carros estavam fora da garagem, prontos para ir, eu saí para colocar um pouco mais de gasolina num dos veículos. Eu voltei e eles abriram o portão para mim e eu encostei do lado direito da rotatória. O portão estava se fechando atrás de mim. Eu estava saindo do carro e o portão estava a apenas um metro de fechar quando de repente – BAM! – esse barulho enorme. Eu virei para olhar essa Mercedes SUV entra batendo em máxima velocidade contra o portão. Ele começou a oscilar, como um portão de garagem quando não consegue fechar. A Mercedes acelerou, raspando pela abertura e estacionou do lado esquerdo da rotatória. Eu pensava que era alguma pessoa louca que ia enfiar o carro dentro da casa. Eu saquei a minha arma e corri até o carro.

Javon: Eu estava na garagem, esperando pelo sr. Jackson descer, para poder trancar a porta. Eu ouvi a batida e vi Bill sacar a arma. O chefe estava vindo pela porta da garagem no mesmo momento. Eu gritei, “Sr. Jackson! Não!” E eu o agarrei e o empurrei de volta para a casa e o tranquei. Ele ficou perplexo, perguntando, “O que está acontecendo? Está tudo bem?”

Bill: Parecia que tudo acontecia em alta velocidade e bem devagar ao mesmo tempo. A Mercedes freou bem em frente à porta principal. Eu fiquei entre ela e casa, saquei a minha arma e mirei no motorista. A luz do laser estava bem em seu peito e a única coisa que passava pela minha cabeça era, Seja lá quem for, está prestes a tomar um tiro. O motorista se mexeu e eu vi essa mulher no banco do passageiro. Aquilo me desestabilizou. Eu não estava esperando ver uma mulher. Então o motorista levantou a sua cabeça e eu vi quem era e gelei. Puta merda, eu pensei. É o irmão dele. É o Randy Jackson. Eu relaxei um pouco. Agora eu estava confuse. Qual era o lance com essa família? Aqui estava eu, prestes a atirar no próprio irmão dele e estava apenas a um segundo de puxar o gatilho. Só conseguia pensar na loucura que teria sido se eu tivesse atirado. Eu podia ver as manchetes: Irmão de Michael Jackson Leva Tiro dos Seguranças do Rei do Pop.

Javon: Eu não conseguia ver quem era, ao que Bill tinha o cara na sua mira. Eu corri até a garagem para lhe dar cobertura. Eu estava chegando lá quando o Bill me acenou para parar. Eu estava pronto para meter bala, com certeza, mas ele acenou para mim tipo, “Eu tenho o controle, tá tudo bem”. 

Bill: Randy desceu a janela do carro e gritou, “Tire essa arma da minha cara antes que eu chame a imprensa.” A imprensa? Isso era a última coisa que o chefe precisava. Eu fui até a janela e disse, “Sr. Jackson, o sr. não pode fazer isso.”

“Eu estou aqui para ver o meu irmão,” ele disse.

“Não deste jeito, você não irá vê-lo. Eu agradeceria se você voltasse para o outro lado do portão. Saia que eu informarei ao Sr. Jackson que você está aqui.”

“Eu não vou me mover até ver o meu irmão!”

Javon: Ele começou a gritar, falando um monte de palavrões, falando sobre esse dinheiro que é dele e que ele não vai sair sem ele.

“O Michael me deve dinheiro! Eu quero a porra do meu dinheiro! Eu não vou me mexer até conseguir a porra do meu dinheiro!”

Bill: Eu não estava nem aí para o que ele queria. Eu apenas o queria fora do portão. Eu guardei a minha arma, tentando amenizar as coisas. Eu pedi para ele saísse do veículo para que pudéssemos conversar de maneira civilizada. Ele se recusou. Ele ficou sentado lá no carro, ameaçando chamar a imprensa se ele não visse o irmão dele. Eu não queria que ele chamasse a imprensa, e eu não podia chamar a polícia porque isso traria a imprensa também. Eu fiquei preso. Lá estava esse putinho falando merda na minha cara, e eu não podia fazer nada a respeito. Eu deixei o Javon e os outros para olharem o Randy e entrei na casa para falar com o Sr. Jackson.

“O seu irmão Randy violou o portão,” eu disse a ele.

“Ele diz que está aqui para lhe ver a respeito de assuntos financeiros, e ele não vai embora até falar com você.”

O Sr. Jackson levantou as sobrancelhas por um momento. Então ele estremeceu e olhou para o outro lado. 

“Se livre dele, “ele disse. 

Eu voltei para tentar falar com o Randy novamente. Ele não se mexia. Estava lá parado em seu carro, gritando e xingando sobre o dinheiro dele.

Javon: Eu tive a idéia de bloquear o Randy com um dos carros, trazer o chefe pela entrada lateral, fazê-lo entrar em um carro diferente e assim, despistar Randy. Mas o Sr. Jackson disse, “Ele vai descobrir como nos seguir até a festa da Liz e fazer uma grande cena; ela não merece isso.”

Bill: Depois de mais uma meia hora, eu entrei na casa e disse novamente ao Sr. Jackson que o Randy não ia embora. O Sr. Jackson sentou por um momento, então ele suspirou e disse, “Okay. Eu vou para a cama.” Ele subiu, fechou a porta, e não saiu mais.

Javon: Aquilo nos matou. Ficamos desolados, pelo sr. Jackson e por nós mesmos. Eu estava orgulhoso de trabalhar para ele, e queria a chance de fazer isso em público, de mostrar às pessoas que eu trabalhava para Michael Jackson. Estávamos com ternos novinhos; estávamos muito animados. A festa de aniversário de Elizabeth Taylor? Você tá brincando?! Eu sou só um cara normal. Era da natureza humana que estivéssemos animados. E o Sr. Jackson? Ele estava fazendo planos há duas semanas. Isso era tão importante para ele. Teria sido uma das últimas vezes que ele e a Sra. Taylor teriam se visto, e eles eram amigos de longa data. Então para ele dispensar isso e ir para a cama? Aquele foi o momento que nos fez saber, okay, essa família tem um grande poder sobre ele. Se tivesse sido qualquer pessoa comum que tivesse invadido o portão, o Sr. Jackson teria falado algo como “O que vocês estão esperando? Escoltem ele para fora da casa e vamos embora.” Mas isso? Isso acabou com toda a noite dele.

Bill: Eu estava puto. Eu nem queria mais que o Randy saísse da propriedade. Eu queria que ele saísse do carro, porque eu queria acabar com ele por ter estragado a noite do Sr. Jackson. Ele ficou sentado lá por mais duas horas. Tivemos que ligar para o pai dele. Foi a única coisa que pudemos pensar. O Randy é um homem adulto, e ligamos para o papai dele vir e limpar a sujeira dele. Joe Jackson apareceu e, de início, o Randy nem queria escutá-lo. Só ficava dizendo que iria chamar a imprensa, falando “Eu estou aqui para pegar meu dinheiro.”

O Joe disse, “Esse não é o lugar para isso. Que diabos você está fazendo?”

Joe finalmente convenceu Randy a ir embora, e assim eles se foram. O quarto do Sr. Jackson era bem em cima da garagem. Ele deve ter escutado muito do que eles falaram. Naquele momento já era muito tarde para chegarmos na festa. Tentamos marcar para que ele visse a sra. Taylor enquanto ela estivesse na cidade, mas ele já iria embora na manhã seguinte. Então eles conversaram pelo telefone e foi isso.

Javon: Depois daquilo, ele não saiu de casa por três dias. Não ouvimos nada dele. Nada de ligações, comunicação, nada. Ele se desligou.


Traduzido por Bruno Couto Pórpora

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O Pai Michael Jackson

Em 3 de junho de 2014, foi publicado nos Estados Unidos o livro Remember The Time: Protecting Michael Jackson in His Final Days. Um relato de memórias de Bill Whitfield e Javon Beard, dois seguranças que trabalharam para o Rei do Pop durante dois anos e meio - entre dezembro de 2006 e junho de 2009. Engraçado, triste e trágico, conhecemos a intimidade do carinhoso pai Michael Jackson e a solitária rotina de seus anos finais. Nesta tradução exclusiva, confira um trecho do livro. Todos os direitos do texto original pertencem à Weinstein Books.

Javon: A professora, sra. Ilean, voou [para Las Vegas] logo depois das festas. Ela era uma asiática do Bahrain. O Sr. Jackson a conheceu enquanto estava viajando e ele a havia contratado para lidar com a tutoria escolar das crianças. Ele tinha alugado um apartamento para ela a uns cinco minutos da casa. Nos dias da semana, um de nós a buscava às 07:30 e a trazia para a casa para dar as aulas. O Sr. Jackson não brincava quando se tratava da educação das crianças. Escola começava às 8:00 em ponto. Nós ajudamos a professora a pendurar a lousa, organizar os computadores, estantes de livros, mapas, pôsteres educacionais com o alfabeto e a tabuada, tudo isso. Cada uma das crianças tinha a sua própria mesa. Parecia como qualquer sala de aula que você vê numa escola de ensino fundamental. Era sempre assim mesmo quando viajávamos e ficávamos em hotéis. Um quarto separado era sempre reservado e nos certificávamos que o hotel arrumasse as carteiras, e aquele quarto era usado como a classe das crianças.

Bill: Mesmo com a vida que levavam, o Sr. Jackson insistia que houvesse estrutura e rotina no ambiente educacional das crianças. Eles até usavam uniformes escolares. Prince e Blanket usavam camisas brancas com calças pretas e gravatas. Paris usava sapatos de couro e um vestido preto, tipo um vestido de aluna de colégio de freiras. Estavam sempre limpos e com a roupa impecável. Cabelos penteados, uniformes passados. E de segunda a sexta, todas as manhãs, as crianças levantavam, se vestiam, desciam para o café e então “iam para a escola”. O Conselho de Educação de Nevada tem todos esses requerimentos para ensino doméstico, que inclui que as crianças sejam aprovadas em testes para poderem passar para a próxima série. A Sra. Ilean organizava seus planos de aula para cumprir todos esses critérios. Ela distribuía lições de casa, exigia relatórios dos livros, exigia períodos na sala de estudos. A qualidade da educação deles era tão boa ou até melhor da que você vê em qualquer escola particular de primeira linha. Essas crianças eram bem espertas. Estavam constantemente lendo. Os cérebros delas eram como pequenas esponjas, sempre curiosas, sempre fazendo perguntas. Quando os levávamos para jantar ou ir ao cinema o Sr. Jackson, sentado no banco de trás, fazia perguntas sobre o que haviam aprendido naquele dia. Ele sabia exatamente o que eles estavam estudando. Ele sentava toda semana com a professora para ver os planos de aula e se manter informado sobre o que estava sendo ensinado. Ele os ajudava com suas lições de casa também, de tarde e de noite. Eles iam até ele o tempo todo. “Papai, você me ajuda com a lição de casa?” Era uma das coisas que ele mais gostava de fazer. Assistiam a muita pouca televisão na casa. Eles tinham noites de filmes, assistiam DVDs juntos como família, mas não era como em muitas casas em que você vê as crianças acampadas em frente à TV. Eles faziam a sua lição de casa, liam livros, brincavam, escutavam música.

Javon: Havia muitas atividades extracurriculares, também. As crianças tinha Educação Física todos os dias. Elas corriam em volta do jardim, faziam polichinelo. Algumas vezes nós os levamos a esse parque público que ficava perto. Armamos um trampolim para eles também. Levamos eles a passeios. Nós os levamos ao Museum Lied – é o museu local de descobertas para crianças com atividades interativas e experimentos científicos que as crianças podem fazer. Paris, ela amava ir aos museus de arte e galerias. Os hotéis no Strip eram muito bons para passeios assim; eles sempre tinham exposições e instalações. Levamos as crianças para a exposição Bodies, aquela com cadáveres. Essa foi no Tropicana. Também os levamos à exposição do tubarão no Mandalay Bay. Teve também os filmes IMAX no Luxor, Deep Sea 3D e Dinosaurs. Em aula, as crianças liam e estudavam os assuntos, e nós as levávamos nestes passeios e elas tinham de entregar um relatório sobre eles. A primeira vez que saímos com as crianças sem o Sr. Jackson foi em algum momento de fevereiro. Nós as levamos ao parquinho com a professora. Ainda éramos novos na cena, mas ela já estava com ele há algum tempo e ele confiava nela. Ela pôde relatar a ele como nós nos comportamos. O telefone tela tocou e a ouvimos dizer, ‘Sim, senhor. Não, eles estão bem.’ Então sabíamos que ele estava de olho em nós e em como nós estávamos fazendo o nosso trabalho.

Bill: Nós nos aproveitávamos do fato de que ninguém sabia quem eles eram. Uma das primeiras vezes que saímos com eles foi para ir ao parque Circus Circus com a Grace. Nós fomos pegos pelos paparazzi. Alguém deve nos ter seguido de casa. Eles tiraram algumas fotos embaçadas de longe mas, felizmente para nós, não conseguiram uma foto nítida. Não dava para identificar as crianças. As pessoas muitas vezes questionaram porque o Sr. Jackson escondia os rostos das crianças com máscaras e véus quando estavam em público. Os tablóides diziam que era estranho e louco, mas eles não entendiam o motivo para isso. Se ninguém conhecia as crianças elas podiam, às vezes, ir a lugares públicos sem ele e ter uma experiência um pouco normal. Quando elas estavam longes de seu pai, podiam ser crianças comuns fazendo coisas comuns. Pelos primeiros meses, toda vez que saímos com as crianças, ou a babá ou a professora estava conosco. Mas começando lá pelo fim de abril, ele começou a pedir a mim e ao Javon que saíssemos com elas sozinhos, passeios curtos, levá-las ao parquinho. Quando saímos com as crianças sem Grace ou a professora pela primeira vez? Aquilo foi uma grande coisa. Foi aí que sentimos que havíamos estabelecido um nível de confiança. Ele protegia tanto elas. Eu me lembro de um dia em que saímos para levar as crianças para comprar sorvete. O Sr. Jackson ficou em casa. Isso foi em fevereiro, ainda frio. Estávamos no meio do caminho, e o sr. Jackson ligou e perguntou se Blanket estava usando o chapéu. Ele não estava. Tinha esquecido. O Sr. Jackson disse, “Volte e venha pegar.” As crianças nem iam sair do carro, mas ele insistiu. Se estivesse frio, as crianças tinham de estar com seus chapéus e luvas, e ponto final. Fizemos o retorno e voltamos para a casa. 

Javon: As pessoas riam da ideia dele ser pai, riam dos nomes das crianças e das máscaras e de tudo mais. Tipo, o quão estranho deve ser para o Michael Jackson ser pai. Mas quanto mais você o conhecia, mais você via que ser pai era a coisa mais normal nele. Estávamos fazendo a segurança na casa um dia, e ele ligou e disse que havia acabado o sabão líquido para roupas e se alguém podia correr e comprar mais pra ele. Antes daquele momento, eu nunca havia parado para imaginar Michael Jackson na lavanderia, lavando as roupas de seus filhos, mas ele era exatamente assim em boa parte do tempo. Ele não os mimava, tampouco. Tinha os passeios extravagantes ao FAO Schwarz e tudo mais, mas isso era apenas nos feriados e aniversários, ou uma recompensa específica por terem ido bem numa prova ou por executarem suas tarefas. Se eles não se saíssem bem, ele era ligeiro em tirar os seus privilégios. Teve essa vez em que íamos levar toda a família ao cinema. Já havíamos feito toda a pré-segurança, alugado o cinema para a tarde, feito todos os arranjos. Mas naquela manhã uma das crianças foi mal numa prova e não havia terminado alguma lição, então ele cancelou. Estávamos lá embaixo, os carros prontos para ir e Prince saiu e falou, “O papai disse que não podemos ir.” Você vê esses filhos de celebridades na TV o tempo todo, malcriados e mimados e arrogantes. Os filhos do Michael Jackson eram o oposto. Eles nunca pediam muito, e quando pediam, era sempre “por favor” e “obrigado” para tudo. E quando um deles se comportava mal, não era necessário muita disciplina para endireitá-los. Uma pequena conversa ou um tempo de castigo e eles aprendiam sua lição. 

Bill: Quando o Prince ganhou o cachorro, ele não sabia como cuidar dele, como levá-lo para fazer as suas necessidades e catar depois e etc. Então nessas primeiras semanas, o cachorro pegou o hábito de usar a garagem para ir ao banheiro – a garagem em que nós trabalhávamos.

Javon: E fedia. O lugar cheirava a merda. E tínhamos que cheirar aquilo durante nosso horário de trabalho. Estávamos com ternos novos e tudo e cheirávamos a merda. Nós tínhamos o trailer, mas a garagem era nosso posto também; era o nosso local de trabalho. Era onde lavávamos e fazíamos a manutenção dos veículos. A gente não queria acabar atropelando a merda quando voltássemos.

Bill: A gente pensou que em algum momento o Prince ia limpar a merda. Não. Ele vinha até a garagem, pisava perto da pilha de merda, ia até o cachorro, pegava um biscoito, dava o biscoito para ele, voltava, pulava por cima da pilha de merda e corria de volta para a casa. Deixava a merda lá.

Javon: Nós pisamos nela algumas vezes. O Bill nos mandava limpar. Ele dizia, “Quem pegar o turno agora tem que limpar.” Então nós limpávamos. Eu reclamava o tempo todo. “Não me comprometi com nada disso.”

Bill: Em alguns momentos virou um impasse. “Eu não vou limpar a merda”. “Bem, eu não vou limpar a merda. Você limpe a merda.” “Não, você limpe a merda.”

Javon: Então algumas vezes a merda apenas ficava lá. Mas quando o Sr. Jackson pisou naquela merda? Aí foi quando a merda ficou séria. 

Bill: Nós íamos levá-lo a uma reunião. Reunião importante. Ele estava todo vestido, terno bonito, seus sapatos de designer, e ele veio andando da garagem até o lado do carro e pisou com tudo.

Javon: Ele deu um sermão bravo no Prince. Deu o discurso de responsabilidade. “Você queria o cachorro, Prince. É o seu cachorro. É sua responsabilidade. Não é responsabilidade dos caras.” Depois daquilo, o Prince andou na linha. Aonde quer que o cachorro fosse, na garagem ou na propriedade, o Prince vinha atrás com uma vassoura e uma pá de lixo para limpar a sujeira. O problema foi resolvido.

Traduzido por Bruno Couto Pórpora

quinta-feira, 12 de março de 2015

Esperando Pelo Rei

Em 3 de junho de 2014, foi publicado nos Estados Unidos o livro Remember The Time: Protecting Michael Jackson in His Final Days. Um relato de memórias de Bill Whitfield e Javon Beard, dois seguranças que trabalharam para o Rei do Pop durante dois anos e meio - entre dezembro de 2006 e junho de 2009. Engraçado, triste e trágico, conhecemos a intimidade do carinhoso pai Michael Jackson e a solitária rotina de seus anos finais. Nesta tradução exclusiva, confira um trecho do livro. Todos os direitos do texto original pertencem à Weinstein Books.

Bill: Pelas primeiras duas semanas, tudo estava quieto. Então começamos a ver carros. As pessoas dirigiam ao redor da casa. Alguns paravam, olhavam, e então iam embora. Havia este carro, um carro vermelho que estacionava na rua de frente e ficava lá. Eu o via pelas câmeras de segurança. Isto acontecia pelo menos duas vezes na semana. Algumas vezes, diariamente.

Eventualmente, eu acabei vendo a motorista. Era uma mulher, pequena, com cabelo castanho claro. Ela saía do carro e apenas dava uma volta. Eu tinha ouvido falar sobre os tipos de fãs que eram atraídas por Michael Jackson. Elas se apaixonavam por ele. Do ponto de vista de segurança, eu as percebia como uma ameaça primeiro. Quando você vê um carro estacionado do lado de fora do portão, você não sabe se é apenas uma fã ou alguém pior, um stalker, alguém que é completamente desequilibrado. Eu nunca havia visto essa pessoa antes então, numa tarde, fui até o carro e falei com ela. Ela era da Califórnia. Ela disse que não morava longe de Neverland. Ela disse que conhecia Michael e que ela era uma amiga dele. Eu disse, "Então você vai apenas ficar sentada aqui fora?"

Ela disse, "Está tudo bem. Ele sabe."

Sempre que saíamos, essa garota saía do carro para ser vista, esperando que ele a notasse. Geralmente era só eu ou Javon no carro e não podíamos parar. Na primeira vez em que saímos da casa com o Sr. Jackson na parte de trás, ela saiu do carro e eu disse: "Olha aquela garota de novo."

O Sr. Jackson olhou para cima e disse, "Quem?"

Eu disse, "Aquela garota ali."

Ele disse: "Ah, sim. Eu a conheço. Desacelere."

Paramos e ele abaixou o vidro da janela e eles tiveram uma conversa como se fossem velhos amigos. "Como estão as crianças?" "Você está gostando de Vegas?" "Você vai ficar aqui por muito tempo?" Ao ouvi-los conversar, eu não tive a sensação de que ela era uma stalker. Ela era apenas uma fã real e dedicada. A conversa parecia inocente, amigável, confiante. Com um pouco de flerte, para ser honesto. Eles só conversaram. Chegou ao ponto em que tive de lembrá-lo: "Senhor, nós temos de ir."

Ele disse a ela que horas estaríamos de volta e que esperava vê-la na volta, assim como você diria: "Vejo você mais tarde" a um bom amigo. Enquanto seguíamos, ele disse, "Sim, ela vai para onde quer que eu vá."

Perto do final de janeiro, o Sr. Jackson deu uma entrevista para a Associated Press, confirmando que ele estava de volta ao país. Depois disso, os fãs começaram a chegar. Eles estacionavam do lado de fora o dia todo. Normalmente, cerca de quatro ou cinco carros. Às vezes mais. Eles chegavam todas as manhãs, estacionavam em frente à casa, se sentavam em cadeiras de praia, iam para casa de noite. Sempre que nossos veículos deixavam a propriedade, o Sr. Jackson abaixava o vidro da janela e dizia, "Oi. Nós voltaremos em torno de vinte minutos." Seguíamos, e eles sentavam e esperavam por ele. Então voltávamos, ele acenava para eles, entrava na casa, e aí eles se sentavam e esperavam um pouco mais. Era a presença dele, a sua aura. Eles só queriam estar perto dele.

Javon: Os vizinhos odiavam. Os fãs eram geralmente bem comportados, mas este era um bairro residencial de alto padrão. O CEO da Sprint vivia ao lado. Gary Payton, o jogador da NBA, morava no mesmo bloco. Todas essas mansões milionárias e essas pessoas montando acampamento na rua.

Para os vizinhos, os fãs eram um incômodo. Estavam sempre chamando a polícia. Eles apareciam e incomodavam os fãs até eles irem embora. Então no dia seguinte, os fãs estariam de volta.

Bill: Um dia, havia três carros de polícia lá fora, e o Sr. Jackson os viu de sua janela. Ele foi até o trailer de segurança e me disse, "Eu não quero que os meus fãs sejam assediados. Eu preciso que você diga à polícia que não há problema neles estarem aqui, contanto que eles estejam do meu lado da propriedade."

Eu saí e disse isso aos policiais. Um deles me perguntou se eu era um residente. Eu disse, "Não, mas estou fazendo a segurança do dono da casa."

Ele perguntou: "E quem é ele?"

Eu não respondi. Só encolhi os ombros. Então um dos fãs disse, "Michael Jackson vive aqui."

Eu não confirmei ou neguei. Eu apenas disse. "O dono da casa não tem um problema com o fato dessas pessoas estarem aqui."

Os fãs começaram a bater palmas e a dizerem: "Viu? Viu?"

O policial os advertiu de que se eles fizessem qualquer barulho e ele tivesse de voltar, prisões seriam feitas. Eu não senti que aquele era o fim de tudo, e não foi. Os vizinhos continuaram a reclamar, e a polícia continuou a voltar. Finalmente, o Sr. Jackson disse que ia falar com o seu advogado. Eu não sei com quem eles falaram ou que pauzinhos foram mexidos, mas depois daquilo a polícia nunca voltou e os fãs ficaram.

Javon: Eles ficaram lá nos meses do inverno. Eles ficaram durante os meses do verão. Estava mais quente do que o inferno lá fora, e eles acampavam na calçada, esperando. Em dias muito quentes, o Sr. Jackson os enviava refrigerantes e pratos de petiscos. Para os que ficaram por muito tempo, ele nos mandou entregar cadeiras dobráveis. Nós até tiramos a mobília da casa da piscina.

Havia uma garota que estava inflexível sobre ver o Sr. Jackson. Ela estava lá todos os dias. Todos. Os. Dias. Ela alegava ter um lugar permanente na calçada junto à entrada da garagem, e ela estava sempre tentando passar coisas para o Sr. Jackson pela janela do carro. Uma vez, ela correu e entregou para o Sr. Jackson uma pilha de fotos nuas de si mesma. De alguma forma, ele sempre encontrava tempo para parar e conversar com ela.

Bill: Cada vez que ele saía de casa, os fãs corriam e tentavam obter um vislumbre dele. Se as crianças estavam no carro, nós mantínhamos as janelas fechadas e seguíamos; o Sr. Jackson não queria que ninguém ficasse muito perto de seus filhos. Mas se fosse apenas nós, ele insistia em parar e dizer Olá e assinava tantos autógrafos quanto possíveis. Sempre ficávamos nervosos com isso, mas ele insistia. A maioria deles era respeitoso, cortês, mas houve momentos em que as coisas fugiam do controle e eu tinha de saltar para fora do carro para que todo mundo saísse. Sempre que eu ficava assim, o Sr. Jackson me dava um sermão.

"Bill, seja gentil com os meus fãs," ele diria. "Eles não vão deixar nada acontecer comigo. Eles são inofensivos."

Parte de nossa apreensão era que, no início, não entendíamos o que era o seu relacionamento com seus fãs. Ficamos surpresos ao saber que ele manteve contato com alguns deles, se correspondia com eles. Eles ligavam para a sua empresária ou mandavam mensagens através dela. Quando ele falava com eles, havia um monte de trocas de "Eu te amo" e "Eu te amo mais". Eles estavam sempre trazendo-lhe presentes, coisas pessoais. Eles diziam, "Eu fiz isso pra você"; "Aqui é um bicho de pelúcia"; "Aqui está uma bugiganga do Peter Pan". 

Sua relação com seus fãs - eu nunca havia visto nada parecido com outras celebridades. Nunca. Não importa o quão famoso. Com outras celebridades, você via as groupies por aí, mas estas não eram groupies. O Sr. Jackson realmente conhecia muitos deles individualmente. Ele lembrava em que show eles os havia conhecido, há quantos anos eles se conheciam. Ele apontava para os fãs que havia visto em outros países. Aqui estávamos nós em Las Vegas e ele dizia, "Aquele ali, eu me lembro dele na Alemanha."

Era uma relação interessante, ele e os fãs. Ele os amava tanto quanto eles o amavam.

Da janela do seu quarto no andar de cima, ele podia olhar diretamente para a rua onde eles estavam acampados. Algumas vezes olhávamos para cima e podíamos vê-lo, olhando por trás das cortinas, apenas os observando. Eles sentavam e esperavam; ele sentava e assistia.



 Traduzido por Bruno Couto Pórpora

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Insônia, Ameaças, Fuga: Noites com o Rei do Pop

Em 3 de junho de 2014, foi publicado nos Estados Unidos o livro Remember The Time: Protecting Michael Jackson in His Final Days. Um relato de memórias de Bill Whitfield e Javon Beard, dois seguranças que trabalharam para o Rei do Pop durante dois anos e meio - entre dezembro de 2006 e junho de 2009. Engraçado, triste e trágico, conhecemos a intimidade do carinhoso pai Michael Jackson e a solitária rotina de seus anos finais. Nesta tradução exclusiva, confira um trecho do capítulo 3 da parte um do livro. Todos os direitos do texto original pertencem à Weinstein Books.


Bill: Nós instalamos botões de pânico em diferentes áreas da casa - em seu quarto, no quarto da família.

No caso de uma emergência, o Sr. Jackson ou as crianças poderiam nos alertar imediatamente. O alarme não soava dentro da casa, apenas no trailer, para nos alertar. E era um alarme bem alto, posso te dizer. Eu me lembro a primeira vez que ele soou. Foi cedo numa manhã. Eu o escutei e corri para fora do trailer e voltei para a casa. Eu cheguei em frente à porta da cozinha, saquei a minha arma e invadi a casa, como se estivesse pronto para alguma grande merda acontecer.

Eles estavam todos sentados à mesa do café, comendo seu cereal. Eles me viram e congelaram: o Sr. Jackson à esquerda, Paris na cabeceira da mesa, Prince sentado à minha direita, de frente para o Sr. Jackson. Eu não vi Blanket. Ele estava do outro lado da sala, perto da TV, onde havíamos instalado botões de pânico nas paredes. Ele estava apenas andando e apertando os botões. Todos estavam sentados à mesa, me encarando, e então Blanket deixou escapar: "Bill, isso é uma arma de verdade?!"

O pequenino achou que era legal. O Sr. Jackson não. Puxar uma arma automática na sala da família com seus filhos tomando café da manhã? Oh, eu ouvi muito dele a respeito disso.

Javon: Ele não gostava que as crianças vissem armas, mas ele gostava que estivéssemos bem armados. Nós dois portávamos pistolas semi-automáticas Glock com compartimento extra. Tínhamos Tasers. Cada uma delas com uma carga de 1.2 milhão de volts, o suficiente para derrubar um homem de 140 kilos. Tínhamos um esconderijo de armas reserva: metralhadoras automáticas MP5, AR-15s de estilo militar, 12 espingardas automáticas e MAC-10s escamoteáveis. Tínhamos três estojos de munição, cerca de 300 cartuchos para tudo o que tínhamos. Usávamos armadura corporal leve sob os nossos ternos o tempo todo. Alguns podem dizer que era um exagero, mas essas pessoas não sabem o tipo de ameaças que o Sr. Jackson recebia em uma base regular. Nós planejávamos e nos preparávamos para o pior, mas esperávamos e rezávamos pelo melhor.

Bill: Qualquer um que viesse à casa - reparadores, técnicos de serviço, quem fosse - todos eles tinham de assinar acordos de confidencialidade antes de serem permitidos de entrar na propriedade. Era um contrato que carregava uma multa de US$10 milhões por divulgar qualquer detalhes sobre o Sr. Jackson, sua casa, seus filhos, etc. Se eles não assinassem, não entravam. Nós também tínhamos de revistá-los e confiscar os seus celulares. Se eles não aceitassem, não entravam. Aqueles que eram permitidos nas propriedade eram acompanhados por um membro do time de segurança ao longo da casa até que terminassem seu serviço.

Isso era um procedimento padrão para todos, até para os palhaços que contratávamos para as festas de aniversário das crianças. Os palhaços não sabiam de quem era a festa aonde iriam se apresentar até que chegassem lá.

Eles apareciam, nós os apresentávamos o acordo de confidencialidade e eles viravam tipo, 'Hãn?'. Então nós os revistávamos e confiscávamos seus telefones.

"Nós precisamos ficar com os telefones até você sair."

"Mas e se alguém ligar?"

"Você quer ser o nosso palhaço ou não?"

E eles nos davam o telefone.

O Sr. Jackson não confiava em ninguém. O homem era paranóico, muito paranóico. Não dormia muito. Eles sempre andava pela casa às três, quatro da manhã, checando as trancas de todas as portas. Nas noites em que eu fiquei no trailer, eu o vi fazer isto várias vezes. Tínhamos milhares de dólares em equipamento de vigilância cobrindo cada centímetro desta propriedade, guardas de segurança armados patrulhando o território, e mesmo assim ele ia de porta em porta checar as trancas.

Eu aparecia de manhã e os caras que ficaram durante a noite me davam um relatório. "O cara tava checando as portas novamente," eles diziam. Tornou-se normal para nós.

Javon: Ele frequentemente saía da casa na calada da noite só para se certificar que estávamos no trailer e dizia, "Só checando que vocês estão aqui." Nós dizíamos, "Senhor, não vamos a lugar algum."

Bill: Havia uma linha telefônica direta para o trailer, e apenas o Sr. Jackson tinha o número. Recebíamos ligações no meio da noite. Ele escutou alguma coisa. Estava preocupado com alguma coisa. Não era preciso muito para preocupá-lo. Uma noite, estávamos de plantão e, por volta das duas e meia da manhã, nós escutamos a porta da casa bater e, de repente, essa batida forte de alguém na porta do trailer. Nós o abriamos e lá estava o Sr. Jackson, segurando as crianças perto dele. As crianças estavam meio sonolentas e cambaleantes, vestindo pijamas, tremendo no frio.

O Sr. Jackson tinha esse olhar de pânico em seu rosto, os olhos bem abertos. "Alguém está dentro da casa," ele disse. "Eles estão tentando entrar no meu quarto pela porta do terraço."

O meu primeiro pensamento foi de que deveríamos sair, saltar nos carros de dar o fora. Mas o Javon dizia, "Cheque o quarto! Vamos checar o quarto!" Então ficamos para investigar. Nós trouxemos o Sr. Jackson e as crianças para dentro do trailer. Javon ficou com eles. Eu saquei a minha arma, entrei na casa e subi as escadas até o quarto do Sr. Jackson.

O pensamento no fundo da minha mente era de que alguém devia ter subido de volta na varanda.

Assim que estava dentro do seu quarto, eu pude ouvir ao que ele se referia. Havia este murmúrio vindo de fora da porta para o terraço, como alguém tentando entrar. Eu subi, abri a porta e olhei para fora. Ninguém lá. Mas agora eu podia escutar melhor o som. Soava mais como uma batida. Eu olhei para cima e lá estava uma asa saindo desta abertura, freneticamente batendo ao redor. Um pombo. Tudo isto por conta de um pombo.

Eu estendi a mão e o agarrei. Puxei-o para fora da abertura e o joguei por cima do terraço. Eu não poderia dizer se ele decolou ou o quê. Eu posso ter quebrado a sua asa. Tudo o que eu vi foi a coisa indo direto para baixo. Eu desci e disse ao Sr. Jackson que era apenas um pássaro. É claro, agora ele estava todo preocupado com o pássaro. Ele perguntou, "Você não o matou, né?" "Não, senhor," eu disse. "É claro que não. Eu só o deixei ir." "Ah, bom."

Javon: Naquele momento, já passava das três da manhã. Prince falou, "Papai, podemos voltar para a cama agora, por favor? Nós temos aula amanhã de manhã e eu estou cansado."

Então todos se arrastaram de volta para casa e para a cama. Enquanto caminhavam, o Sr. Jackson disse, "Viram, crianças? Melhor prevenir do que remediar."

Bill: Cerca de duas semanas depois, talvez em meados de fevereiro, por volta de uma e meia da manhã, eu recebi um telefonema desesperado da sua empresária, Raymone. Ela estava toda nervosa e dizia, "Você tem de tirar o Sr. Jackson da casa!"

"Qual é o problema?"

Ela não quis me dizer. Ela apenas dizia, "Tire ele da casa! Eu reservei um quarto de hotel. Tire ele da casa!"

Eu percebi que tinha de ser algo sério. Eu falei para o Javon preparar os carros e corri para dentro da casa. Quando cheguei lá em cima, o Sr. Jackson estava andando de um lado para o outro no escuro. O quarto estava completamente escuro; ele não queria que as luzes fossem acesas, como se estivesse com medo de que alguém pudesse vê-lo. Ele fez as crianças irem de quarto em quarto com lanternas para organizarem suas coisas, fazendo as malas para ir embora. Ele sussurrava para elas, "Vamos! Vamos! Não, nós não precisamos disso! Só peguem algumas coisas!"

Eu não sabia o que estava acontecendo. Eu perguntei, "Senhor, o que há de errado? O que está acontecendo?"

Ele não quis dizer. Ele apenas disse, "Raymone ligou. Há uma ameaça. Nós temos de sair. Temos de sair. Agora mesmo."

Javon: Eu havia preparado os carros e estava do lado de fora do trailer de segurança. Não havia nada em qualquer um dos monitores; nenhum dos sensores havia sido desarmado. Antes de sairmos, Bill e eu verificamos toda a casa.

Nada. Fomos até o Sr. Jackson e dissemos, "Senhor, está tudo bem. A casa está segura. Confie em nós, ninguém vai entrar aqui."

Mas ele estava em pânico total. Ele estava quase incoerente, como se não ouvisse uma palavra que dizíamos a ele. Ele só continuava dizendo, "Temos que ir! Temos que ir!"

Bill: Não tínhamos ideia alguma do que estava acontecendo, mas carregamos as malas e as crianças até os caminhões e levamos todos para o rancho Green Valley, um resort nas proximidades de Henderson. O gerente esperava por nós na doca de carregamento quando chegamos. Nós subimos no meio da noite, sem verificação prévia de segurança, nada.

Nós o estabelecemos em seu quarto e ficamos no quarto em frente ao hall. Na manhã seguinte, eu fui falar com ele. Ele estava fumegante. Ele disse, "Eu não deveria ter de sair da minha casa por conta de ninguém. Eu não deveria ter de fugir de ninguém. Não é pra isso que eu tenho vocês?"

Eu perguntei, "Senhor, de quem você está fugindo?"

Finalmente ele me contou o que estava acontecendo. Raymone recebeu um telefonema de um ex-guarda de segurança de Neverland, um empregado a quem o Sr. Jackson supostamente devia dinheiro. O cara havia ligado para ela e fez ameaças explícitas sobre o que ele iria fazer para pegar o seu dinheiro. Ele disse que viria a Vegas e que iria escalar o muro da casa do Sr. Jackson. Então a Raymone ligou para o Sr. Jackson e o deixou em estado de pânico.

Eu disse, "E foi por isso que deixamos a casa? Sr. Jackson, você está seguro em sua casa. Nós somos mais do que capazes de proteger a sua família. Se a Raymone tivesse me dito o que estava acontecendo, eu teria resolvido o problema."

Isso o pegou desprevenido. Ele pareceu um pouco irritado.

Ficamos no rancho Green Valley por mais uma noite, então fizemos as malas e voltamos para a casa. As crianças estavam muito cansadas. Geralmente, elas costumavam levar esse tipo de coisa na esportiva; elas estavam acostumadas com o ritmo da vida de seu pai. Portas dos fundos secretas, alarmes de segurança, botões de pânico - isso era o seu dia-a-dia. Eles eram pequenos soldados. Mas de vez em quando, você via a loucura tomar o seu pedágio. Este foi um desses momentos. Aqui estavam eles, em uma nova cidade, vivendo em uma casa estranha.

Então, de repente, eles estão saindo daquela casa, fugindo no meio da noite, entrando neste hotel, e então voltando e deixando o hotel. E sem uma explicação real para tudo aquilo.

Enquanto dirigíamos de volta para a casa, todos estavam quietos no banco traseiro. Então Blanket olhou para seu pai e disse, "Papai, podemos voltar para a outra casa? Podemos voltar para Neverland?"

O Sr. Jackson balançou a cabeça e disse, "Não. Não podemos voltar para lá nunca mais. Aquele lugar foi contaminado pelo mal."



 Traduzido por Bruno Couto Pórpora