Mostrando postagens com marcador Ele. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ele. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A Tempestuosa Família Jackson

Em 3 de junho de 2014, foi publicado nos Estados Unidos o livro Remember The Time: Protecting Michael Jackson in His Final Days. Um relato de memórias de Bill Whitfield e Javon Beard, dois seguranças que trabalharam para o Rei do Pop durante dois anos e meio - entre dezembro de 2006 e junho de 2009. Engraçado, triste e trágico, conhecemos a intimidade do carinhoso pai Michael Jackson e a solitária rotina de seus anos finais. Nesta tradução exclusiva, confira um trecho do livro. Todos os direitos do texto original pertencem à Weinstein Books.

Bill: Alguns fãs passavam de carro pela casa. Eles vinham, circulavam pelo quarteirão, paravam, olhavam um pouco e iam embora. Neste dia em particular, deve ter sido no começo de fevereiro, nós vimos uma PT Cruiser vinho indo e voltando para a frente da casa. Tinha janelas filmadas, então não podíamos ver quem era. O carro circulou pelo quarteirão talvez umas quatro vezes e foi embora. Isso nos deixou alarmados. No dia seguinte, a mesma PT Cruiser veio e estacionou bem ao lado do portão. Javon ficou no trailer para assistir os monitores. Eu desci até o portão para ver o que era aquilo. Eu cheguei lá, e o pai do senhor Jackson, Joe Jackson, estava saindo do carro. Era a primeira vez que eu via esse cara em pessoa; eu só o havia visto pela TV antes. Ele tem uma aparência sinistra. Uma monocelha. Parece o Blacula e tudo. O tempo todo eu fiquei pensando, "Cara, esse aqui é o Joe Jackson. Esse é o cara que batia nas crianças do Jackson 5." Foi isso o que se passou na minha cabeça, olhando pra ele. Eu coloquei minha mão para fora do portão para cumprimentá-lo e disse, "Como você está, Sr. Jackson?" Ele não me cumprimentou. Ele só me olhou com essa expressão desagradável e disse, "Você provavelmente é um desses que estão injetando agulhas no braço do meu filho." Eu não respondi. Ele disse, "Estou aqui para ver o Michael". Eu disse, "Okay," o deixei, e fui para dentro da casa para buscar o sr. Jackson. Ele estava no quarto dele, escutando música bem alto. Eu bati na porta e ele saiu, e eu disse, "Senhor, o seu pai está lá fora." 

Ele perguntou, "Ele marcou um horário? Ele está no calendário?" 

"Eu acredito que não, senhor."

"Não, não, não. Eu estou trabalhando. Eu não posso ser perturbado quando estou criando. Diga a ele que ele tem de voltar e marcar um horário."

Quando esse papo de marcar horário saiu da boca dele? Me deixou bem confuso. Eu saí até o portão pensando, "Cara, eu tenho que dizer para esse homem que ele precisa marcar um horário? Para ver o seu filho?" Uh-uh. Eu não ia fazer isso. Eu ia ter que inventar alguma coisa. Eu fui até o portão e disse que o Sr. Jackson estava ocupado, mas que se ele voltasse no dia seguinte, eu asseguraria que deixaria o filho dele saber que ele queria visitá-lo. Então entreguei meu cartão a ele. Ele não o pegou. E começou a me atacar. “Eu não preciso da porcaria do seu número! Se não fosse por mim, nenhum de vocês, seus bastardos, teriam emprego! Fui eu quem começou essa merda”! Quando ele começou com esse papo? Nossa conversa acabou. Eu saí de lá. Ele ficou em pé lá, na calçada, gritando para o nada. Eu não queria fazer parte daquela cena, então dei meia volta e voltei ao trailer. Enfim ele entrou no carro e foi embora. Naquele momento, eu comecei a me perguntar em que tipo de situação havíamos nos metido. Eu não havia me comprometido a isso, me envolver com família.

Javon: Alguns dias depois que o Joe veio, havíamos feitos planos para levar o chefe e as crianças ao cinema. O time reserva estava vigiando a casa e Billy e eu estávamos ao caminho do cinema, há algumas milhas, para fazermos a pré-segurança. De repente recebemos uma ligação no rádio. 

“Eles violaram o portão! Eles violaram o portão!”

Bill agarrou o rádio. “Quem? Quem violou o portão?” 

“A família dele. Eles estão aqui.”

No momento em que escutamos aquilo, quebramos toda regra de trânsito do manual. Estávamos dirigindo do lado errado da rua, passando por barreiras. Voamos de volta para casa.


Bill: Estacionamos e eu vi uma Hummer preta dentro do portão. Eu estava vermelho, com raiva, gritando no carro, “Como eles conseguiram passar o portão?” O portão para a rua fechava muito devagar. Tinha sempre de ficar atento, porque se você abrisse para um carro, geralmente havia tempo para outro vir logo atrás. Nós descobrimos depois que foi isso o que aconteceu. O chef havia entrado para deixar uma encomenda, e a família do Sr. Jackson estava esperando na rua, com o carro em marcha lenta, esperando pela chance de entrar. Eu saí do carro e vi que haviam três dos seus irmãos: Randy, Rebbie e Jackie. Eles estavam parados na rotatória  em frente da casa. Eles vieram até mim. Eu estava esperando confronto, como com Joe, mas eles foram muito cordiais, muito calmos. Eles se apresentaram. Jackie apertou a minha mão e disse, “Hey, como você está? Você é o Bill?”

“Sim, senhor.”

“Okay, sim. Nós ouvimos falar sobre você.”

Então Randy interrompeu. “Você é da Fruit?” ele perguntou.

“Perdão?”

“Você é da Fruit of Islam?”

Eu disse, “Não, não sou.”

Randy disse, “Oh, ok. Bem, nós precisamos falar com o nosso irmão.”

Eu disse, “Sinto muito, mas vocês precisam marcar um horário.”

E isso foi tudo o que dissemos. Depois disso, eu os escoltei para fora da propriedade. A situação toda foi muito desagradável. Enquanto eu retornava para a casa, olhei para cima e pude ver o Sr. Jackson assistindo tudo por detrás das cortinas da janela do seu banheiro. Eu entrei e o encontrei. Ele parecia bem agitado. 

Eu perguntei, “Senhor, está tudo bem?” 

Ele disse, “Como eles conseguiram simplesmente vir até a minha porta de entrada?” 

Eu disse, “Eu sinto muito, senhor. Eu vou checar com o time e descobrir o que aconteceu.”

Ele disse, “Bill, isso nunca mais pode acontecer novamente.”

“Sim, senhor.”

“Nunca. Você entende isso?”

“Eu entendo.”

Javon: Dava pra notar que a família estava brava conosco. Eles pensavam que nós é que estávamos impedindo o acesso. Muitas pessoas acusaram a segurança do Sr. Jackson de tentar limitar o acesso a ele como forma de controlá-lo. Mas não tínhamos parte alguma nisso. Não estávamos nem aí se a família falasse com ele. Eram 100% as ordens do Sr. Jackson. Eu não sei como era o lance com a família dele antes de nós chegarmos, mas sob a nossa vigilância era óbvio que o relacionamento deles era nulo e vazio. Não entendíamos isso. Você pensaria que eles eram inimigos. Eu fiquei tipo, “O que tá rolando? Por que ele não quer ver a própria família?”

Bill: O Sr. Jackson e Elizabeth Taylor eram velhos amigos, e ela ia fazer uma festa de aniversário pelos seus setenta e cinco anos num resort em Lake Las Vegas, esse evento grande, de tapete vermelho. O pessoal dela havia escutado que o Sr. Jackson estava morando aqui agora, e eles entraram em contato com a empresária dele para perguntar se ele iria comparecer. Eles queriam que fosse uma surpresa para a sra. Taylor; ela não saberia de nada até ele aparecer. É claro que o Sr. Jackson queria ir. Então por volta de duas semanas antes do evento, ficamos sabendo e começaram os preparativos.

Javon: A primeira coisa que o Sr. Jackson fez foi ligar para o Roberto Cavalli, o designer, para criar a roupa que ele usaria para a festa. Cavalli pegou um vôo de emergência para lá. Nós o pegamos no MGM Grand, o levamos para a casa, e ele o Sr. Jackson começaram a desenvolver toda essa coisa nova para ele só para a festa. O Sr. Jackson estava obsessivo com cada detalhe. Ele mandou seu cabeleireiro vir de avião e sua maquiadora também. Assim que vimos aquilo? Sabíamos que ele estava levando a sério. Estávamos trabalhando para ele por volta de um mês, e essa foi a primeira vez em que ele disse, “Se certifiquem de irem com ternos novos.” Não apenas ternos, ternos novos. “Lavem os carros. Enceirem os carros. Se certifiquem de que seus sapatos estejam brilhando como espelhos.” Ele nunca havia feito esse tipo de coisa antes. Tipicamente, ele apenas no dizia onde queria ir e nós dávamos conta. Essa era a primeira vez que apareceríamos em público, onde sabíamos que haveria paparazzis e imprensa. Então todo dia, o Sr. Jackson falava, “Vocês têm que estarem ótimos. Quero que todo mundo esteja ótimo.”

Bill: Fomos ao shopping algumas vezes, com ele disfarçado. Fomos à Tiffany’s, ao Hallmark. Ele escolheu alguns presentes, um cartão de aniversário. Ouvíamos ele falando no carro, falando com Feldman sobre como ele estava cheio de energia. Estávamos ficando animados só de ficar perto dele. Era a primeira vez que realmente o víamos assim. No dia da festa, ele estava de bom humor o dia todo. Era contagiante. Se espalhava para todos na casa.

“Hey, o Sr. Jackson está de bom humor!”

Todos estavam entusiasmados. Toda a atmosfera do lugar mudou. O time de segurança, estávamos um olhando o outro, nos certificando de que estávamos prontos. Ternos passados. Sapatos engraxados. Até as nossas armas foram lustradas. Merda, estávamos bonitos!

Javon: Estávamos prontos para andar no tapete vermelho com Michael Jackson. Era surreal para nós. Éramos seguranças, mas também éramos fãs. Como não poderíamos ser? Estávamos escoltando o Rei do Pop para o aniversário de Elizabeth Taylor. Isso era topo de linha. VIP.

Bill: Estávamos prontos para seguir, os carros estavam fora da garagem, prontos para ir, eu saí para colocar um pouco mais de gasolina num dos veículos. Eu voltei e eles abriram o portão para mim e eu encostei do lado direito da rotatória. O portão estava se fechando atrás de mim. Eu estava saindo do carro e o portão estava a apenas um metro de fechar quando de repente – BAM! – esse barulho enorme. Eu virei para olhar essa Mercedes SUV entra batendo em máxima velocidade contra o portão. Ele começou a oscilar, como um portão de garagem quando não consegue fechar. A Mercedes acelerou, raspando pela abertura e estacionou do lado esquerdo da rotatória. Eu pensava que era alguma pessoa louca que ia enfiar o carro dentro da casa. Eu saquei a minha arma e corri até o carro.

Javon: Eu estava na garagem, esperando pelo sr. Jackson descer, para poder trancar a porta. Eu ouvi a batida e vi Bill sacar a arma. O chefe estava vindo pela porta da garagem no mesmo momento. Eu gritei, “Sr. Jackson! Não!” E eu o agarrei e o empurrei de volta para a casa e o tranquei. Ele ficou perplexo, perguntando, “O que está acontecendo? Está tudo bem?”

Bill: Parecia que tudo acontecia em alta velocidade e bem devagar ao mesmo tempo. A Mercedes freou bem em frente à porta principal. Eu fiquei entre ela e casa, saquei a minha arma e mirei no motorista. A luz do laser estava bem em seu peito e a única coisa que passava pela minha cabeça era, Seja lá quem for, está prestes a tomar um tiro. O motorista se mexeu e eu vi essa mulher no banco do passageiro. Aquilo me desestabilizou. Eu não estava esperando ver uma mulher. Então o motorista levantou a sua cabeça e eu vi quem era e gelei. Puta merda, eu pensei. É o irmão dele. É o Randy Jackson. Eu relaxei um pouco. Agora eu estava confuse. Qual era o lance com essa família? Aqui estava eu, prestes a atirar no próprio irmão dele e estava apenas a um segundo de puxar o gatilho. Só conseguia pensar na loucura que teria sido se eu tivesse atirado. Eu podia ver as manchetes: Irmão de Michael Jackson Leva Tiro dos Seguranças do Rei do Pop.

Javon: Eu não conseguia ver quem era, ao que Bill tinha o cara na sua mira. Eu corri até a garagem para lhe dar cobertura. Eu estava chegando lá quando o Bill me acenou para parar. Eu estava pronto para meter bala, com certeza, mas ele acenou para mim tipo, “Eu tenho o controle, tá tudo bem”. 

Bill: Randy desceu a janela do carro e gritou, “Tire essa arma da minha cara antes que eu chame a imprensa.” A imprensa? Isso era a última coisa que o chefe precisava. Eu fui até a janela e disse, “Sr. Jackson, o sr. não pode fazer isso.”

“Eu estou aqui para ver o meu irmão,” ele disse.

“Não deste jeito, você não irá vê-lo. Eu agradeceria se você voltasse para o outro lado do portão. Saia que eu informarei ao Sr. Jackson que você está aqui.”

“Eu não vou me mover até ver o meu irmão!”

Javon: Ele começou a gritar, falando um monte de palavrões, falando sobre esse dinheiro que é dele e que ele não vai sair sem ele.

“O Michael me deve dinheiro! Eu quero a porra do meu dinheiro! Eu não vou me mexer até conseguir a porra do meu dinheiro!”

Bill: Eu não estava nem aí para o que ele queria. Eu apenas o queria fora do portão. Eu guardei a minha arma, tentando amenizar as coisas. Eu pedi para ele saísse do veículo para que pudéssemos conversar de maneira civilizada. Ele se recusou. Ele ficou sentado lá no carro, ameaçando chamar a imprensa se ele não visse o irmão dele. Eu não queria que ele chamasse a imprensa, e eu não podia chamar a polícia porque isso traria a imprensa também. Eu fiquei preso. Lá estava esse putinho falando merda na minha cara, e eu não podia fazer nada a respeito. Eu deixei o Javon e os outros para olharem o Randy e entrei na casa para falar com o Sr. Jackson.

“O seu irmão Randy violou o portão,” eu disse a ele.

“Ele diz que está aqui para lhe ver a respeito de assuntos financeiros, e ele não vai embora até falar com você.”

O Sr. Jackson levantou as sobrancelhas por um momento. Então ele estremeceu e olhou para o outro lado. 

“Se livre dele, “ele disse. 

Eu voltei para tentar falar com o Randy novamente. Ele não se mexia. Estava lá parado em seu carro, gritando e xingando sobre o dinheiro dele.

Javon: Eu tive a idéia de bloquear o Randy com um dos carros, trazer o chefe pela entrada lateral, fazê-lo entrar em um carro diferente e assim, despistar Randy. Mas o Sr. Jackson disse, “Ele vai descobrir como nos seguir até a festa da Liz e fazer uma grande cena; ela não merece isso.”

Bill: Depois de mais uma meia hora, eu entrei na casa e disse novamente ao Sr. Jackson que o Randy não ia embora. O Sr. Jackson sentou por um momento, então ele suspirou e disse, “Okay. Eu vou para a cama.” Ele subiu, fechou a porta, e não saiu mais.

Javon: Aquilo nos matou. Ficamos desolados, pelo sr. Jackson e por nós mesmos. Eu estava orgulhoso de trabalhar para ele, e queria a chance de fazer isso em público, de mostrar às pessoas que eu trabalhava para Michael Jackson. Estávamos com ternos novinhos; estávamos muito animados. A festa de aniversário de Elizabeth Taylor? Você tá brincando?! Eu sou só um cara normal. Era da natureza humana que estivéssemos animados. E o Sr. Jackson? Ele estava fazendo planos há duas semanas. Isso era tão importante para ele. Teria sido uma das últimas vezes que ele e a Sra. Taylor teriam se visto, e eles eram amigos de longa data. Então para ele dispensar isso e ir para a cama? Aquele foi o momento que nos fez saber, okay, essa família tem um grande poder sobre ele. Se tivesse sido qualquer pessoa comum que tivesse invadido o portão, o Sr. Jackson teria falado algo como “O que vocês estão esperando? Escoltem ele para fora da casa e vamos embora.” Mas isso? Isso acabou com toda a noite dele.

Bill: Eu estava puto. Eu nem queria mais que o Randy saísse da propriedade. Eu queria que ele saísse do carro, porque eu queria acabar com ele por ter estragado a noite do Sr. Jackson. Ele ficou sentado lá por mais duas horas. Tivemos que ligar para o pai dele. Foi a única coisa que pudemos pensar. O Randy é um homem adulto, e ligamos para o papai dele vir e limpar a sujeira dele. Joe Jackson apareceu e, de início, o Randy nem queria escutá-lo. Só ficava dizendo que iria chamar a imprensa, falando “Eu estou aqui para pegar meu dinheiro.”

O Joe disse, “Esse não é o lugar para isso. Que diabos você está fazendo?”

Joe finalmente convenceu Randy a ir embora, e assim eles se foram. O quarto do Sr. Jackson era bem em cima da garagem. Ele deve ter escutado muito do que eles falaram. Naquele momento já era muito tarde para chegarmos na festa. Tentamos marcar para que ele visse a sra. Taylor enquanto ela estivesse na cidade, mas ele já iria embora na manhã seguinte. Então eles conversaram pelo telefone e foi isso.

Javon: Depois daquilo, ele não saiu de casa por três dias. Não ouvimos nada dele. Nada de ligações, comunicação, nada. Ele se desligou.


Traduzido por Bruno Couto Pórpora

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O Pai Michael Jackson

Em 3 de junho de 2014, foi publicado nos Estados Unidos o livro Remember The Time: Protecting Michael Jackson in His Final Days. Um relato de memórias de Bill Whitfield e Javon Beard, dois seguranças que trabalharam para o Rei do Pop durante dois anos e meio - entre dezembro de 2006 e junho de 2009. Engraçado, triste e trágico, conhecemos a intimidade do carinhoso pai Michael Jackson e a solitária rotina de seus anos finais. Nesta tradução exclusiva, confira um trecho do livro. Todos os direitos do texto original pertencem à Weinstein Books.

Javon: A professora, sra. Ilean, voou [para Las Vegas] logo depois das festas. Ela era uma asiática do Bahrain. O Sr. Jackson a conheceu enquanto estava viajando e ele a havia contratado para lidar com a tutoria escolar das crianças. Ele tinha alugado um apartamento para ela a uns cinco minutos da casa. Nos dias da semana, um de nós a buscava às 07:30 e a trazia para a casa para dar as aulas. O Sr. Jackson não brincava quando se tratava da educação das crianças. Escola começava às 8:00 em ponto. Nós ajudamos a professora a pendurar a lousa, organizar os computadores, estantes de livros, mapas, pôsteres educacionais com o alfabeto e a tabuada, tudo isso. Cada uma das crianças tinha a sua própria mesa. Parecia como qualquer sala de aula que você vê numa escola de ensino fundamental. Era sempre assim mesmo quando viajávamos e ficávamos em hotéis. Um quarto separado era sempre reservado e nos certificávamos que o hotel arrumasse as carteiras, e aquele quarto era usado como a classe das crianças.

Bill: Mesmo com a vida que levavam, o Sr. Jackson insistia que houvesse estrutura e rotina no ambiente educacional das crianças. Eles até usavam uniformes escolares. Prince e Blanket usavam camisas brancas com calças pretas e gravatas. Paris usava sapatos de couro e um vestido preto, tipo um vestido de aluna de colégio de freiras. Estavam sempre limpos e com a roupa impecável. Cabelos penteados, uniformes passados. E de segunda a sexta, todas as manhãs, as crianças levantavam, se vestiam, desciam para o café e então “iam para a escola”. O Conselho de Educação de Nevada tem todos esses requerimentos para ensino doméstico, que inclui que as crianças sejam aprovadas em testes para poderem passar para a próxima série. A Sra. Ilean organizava seus planos de aula para cumprir todos esses critérios. Ela distribuía lições de casa, exigia relatórios dos livros, exigia períodos na sala de estudos. A qualidade da educação deles era tão boa ou até melhor da que você vê em qualquer escola particular de primeira linha. Essas crianças eram bem espertas. Estavam constantemente lendo. Os cérebros delas eram como pequenas esponjas, sempre curiosas, sempre fazendo perguntas. Quando os levávamos para jantar ou ir ao cinema o Sr. Jackson, sentado no banco de trás, fazia perguntas sobre o que haviam aprendido naquele dia. Ele sabia exatamente o que eles estavam estudando. Ele sentava toda semana com a professora para ver os planos de aula e se manter informado sobre o que estava sendo ensinado. Ele os ajudava com suas lições de casa também, de tarde e de noite. Eles iam até ele o tempo todo. “Papai, você me ajuda com a lição de casa?” Era uma das coisas que ele mais gostava de fazer. Assistiam a muita pouca televisão na casa. Eles tinham noites de filmes, assistiam DVDs juntos como família, mas não era como em muitas casas em que você vê as crianças acampadas em frente à TV. Eles faziam a sua lição de casa, liam livros, brincavam, escutavam música.

Javon: Havia muitas atividades extracurriculares, também. As crianças tinha Educação Física todos os dias. Elas corriam em volta do jardim, faziam polichinelo. Algumas vezes nós os levamos a esse parque público que ficava perto. Armamos um trampolim para eles também. Levamos eles a passeios. Nós os levamos ao Museum Lied – é o museu local de descobertas para crianças com atividades interativas e experimentos científicos que as crianças podem fazer. Paris, ela amava ir aos museus de arte e galerias. Os hotéis no Strip eram muito bons para passeios assim; eles sempre tinham exposições e instalações. Levamos as crianças para a exposição Bodies, aquela com cadáveres. Essa foi no Tropicana. Também os levamos à exposição do tubarão no Mandalay Bay. Teve também os filmes IMAX no Luxor, Deep Sea 3D e Dinosaurs. Em aula, as crianças liam e estudavam os assuntos, e nós as levávamos nestes passeios e elas tinham de entregar um relatório sobre eles. A primeira vez que saímos com as crianças sem o Sr. Jackson foi em algum momento de fevereiro. Nós as levamos ao parquinho com a professora. Ainda éramos novos na cena, mas ela já estava com ele há algum tempo e ele confiava nela. Ela pôde relatar a ele como nós nos comportamos. O telefone tela tocou e a ouvimos dizer, ‘Sim, senhor. Não, eles estão bem.’ Então sabíamos que ele estava de olho em nós e em como nós estávamos fazendo o nosso trabalho.

Bill: Nós nos aproveitávamos do fato de que ninguém sabia quem eles eram. Uma das primeiras vezes que saímos com eles foi para ir ao parque Circus Circus com a Grace. Nós fomos pegos pelos paparazzi. Alguém deve nos ter seguido de casa. Eles tiraram algumas fotos embaçadas de longe mas, felizmente para nós, não conseguiram uma foto nítida. Não dava para identificar as crianças. As pessoas muitas vezes questionaram porque o Sr. Jackson escondia os rostos das crianças com máscaras e véus quando estavam em público. Os tablóides diziam que era estranho e louco, mas eles não entendiam o motivo para isso. Se ninguém conhecia as crianças elas podiam, às vezes, ir a lugares públicos sem ele e ter uma experiência um pouco normal. Quando elas estavam longes de seu pai, podiam ser crianças comuns fazendo coisas comuns. Pelos primeiros meses, toda vez que saímos com as crianças, ou a babá ou a professora estava conosco. Mas começando lá pelo fim de abril, ele começou a pedir a mim e ao Javon que saíssemos com elas sozinhos, passeios curtos, levá-las ao parquinho. Quando saímos com as crianças sem Grace ou a professora pela primeira vez? Aquilo foi uma grande coisa. Foi aí que sentimos que havíamos estabelecido um nível de confiança. Ele protegia tanto elas. Eu me lembro de um dia em que saímos para levar as crianças para comprar sorvete. O Sr. Jackson ficou em casa. Isso foi em fevereiro, ainda frio. Estávamos no meio do caminho, e o sr. Jackson ligou e perguntou se Blanket estava usando o chapéu. Ele não estava. Tinha esquecido. O Sr. Jackson disse, “Volte e venha pegar.” As crianças nem iam sair do carro, mas ele insistiu. Se estivesse frio, as crianças tinham de estar com seus chapéus e luvas, e ponto final. Fizemos o retorno e voltamos para a casa. 

Javon: As pessoas riam da ideia dele ser pai, riam dos nomes das crianças e das máscaras e de tudo mais. Tipo, o quão estranho deve ser para o Michael Jackson ser pai. Mas quanto mais você o conhecia, mais você via que ser pai era a coisa mais normal nele. Estávamos fazendo a segurança na casa um dia, e ele ligou e disse que havia acabado o sabão líquido para roupas e se alguém podia correr e comprar mais pra ele. Antes daquele momento, eu nunca havia parado para imaginar Michael Jackson na lavanderia, lavando as roupas de seus filhos, mas ele era exatamente assim em boa parte do tempo. Ele não os mimava, tampouco. Tinha os passeios extravagantes ao FAO Schwarz e tudo mais, mas isso era apenas nos feriados e aniversários, ou uma recompensa específica por terem ido bem numa prova ou por executarem suas tarefas. Se eles não se saíssem bem, ele era ligeiro em tirar os seus privilégios. Teve essa vez em que íamos levar toda a família ao cinema. Já havíamos feito toda a pré-segurança, alugado o cinema para a tarde, feito todos os arranjos. Mas naquela manhã uma das crianças foi mal numa prova e não havia terminado alguma lição, então ele cancelou. Estávamos lá embaixo, os carros prontos para ir e Prince saiu e falou, “O papai disse que não podemos ir.” Você vê esses filhos de celebridades na TV o tempo todo, malcriados e mimados e arrogantes. Os filhos do Michael Jackson eram o oposto. Eles nunca pediam muito, e quando pediam, era sempre “por favor” e “obrigado” para tudo. E quando um deles se comportava mal, não era necessário muita disciplina para endireitá-los. Uma pequena conversa ou um tempo de castigo e eles aprendiam sua lição. 

Bill: Quando o Prince ganhou o cachorro, ele não sabia como cuidar dele, como levá-lo para fazer as suas necessidades e catar depois e etc. Então nessas primeiras semanas, o cachorro pegou o hábito de usar a garagem para ir ao banheiro – a garagem em que nós trabalhávamos.

Javon: E fedia. O lugar cheirava a merda. E tínhamos que cheirar aquilo durante nosso horário de trabalho. Estávamos com ternos novos e tudo e cheirávamos a merda. Nós tínhamos o trailer, mas a garagem era nosso posto também; era o nosso local de trabalho. Era onde lavávamos e fazíamos a manutenção dos veículos. A gente não queria acabar atropelando a merda quando voltássemos.

Bill: A gente pensou que em algum momento o Prince ia limpar a merda. Não. Ele vinha até a garagem, pisava perto da pilha de merda, ia até o cachorro, pegava um biscoito, dava o biscoito para ele, voltava, pulava por cima da pilha de merda e corria de volta para a casa. Deixava a merda lá.

Javon: Nós pisamos nela algumas vezes. O Bill nos mandava limpar. Ele dizia, “Quem pegar o turno agora tem que limpar.” Então nós limpávamos. Eu reclamava o tempo todo. “Não me comprometi com nada disso.”

Bill: Em alguns momentos virou um impasse. “Eu não vou limpar a merda”. “Bem, eu não vou limpar a merda. Você limpe a merda.” “Não, você limpe a merda.”

Javon: Então algumas vezes a merda apenas ficava lá. Mas quando o Sr. Jackson pisou naquela merda? Aí foi quando a merda ficou séria. 

Bill: Nós íamos levá-lo a uma reunião. Reunião importante. Ele estava todo vestido, terno bonito, seus sapatos de designer, e ele veio andando da garagem até o lado do carro e pisou com tudo.

Javon: Ele deu um sermão bravo no Prince. Deu o discurso de responsabilidade. “Você queria o cachorro, Prince. É o seu cachorro. É sua responsabilidade. Não é responsabilidade dos caras.” Depois daquilo, o Prince andou na linha. Aonde quer que o cachorro fosse, na garagem ou na propriedade, o Prince vinha atrás com uma vassoura e uma pá de lixo para limpar a sujeira. O problema foi resolvido.

Traduzido por Bruno Couto Pórpora

quinta-feira, 12 de março de 2015

Esperando Pelo Rei

Em 3 de junho de 2014, foi publicado nos Estados Unidos o livro Remember The Time: Protecting Michael Jackson in His Final Days. Um relato de memórias de Bill Whitfield e Javon Beard, dois seguranças que trabalharam para o Rei do Pop durante dois anos e meio - entre dezembro de 2006 e junho de 2009. Engraçado, triste e trágico, conhecemos a intimidade do carinhoso pai Michael Jackson e a solitária rotina de seus anos finais. Nesta tradução exclusiva, confira um trecho do livro. Todos os direitos do texto original pertencem à Weinstein Books.

Bill: Pelas primeiras duas semanas, tudo estava quieto. Então começamos a ver carros. As pessoas dirigiam ao redor da casa. Alguns paravam, olhavam, e então iam embora. Havia este carro, um carro vermelho que estacionava na rua de frente e ficava lá. Eu o via pelas câmeras de segurança. Isto acontecia pelo menos duas vezes na semana. Algumas vezes, diariamente.

Eventualmente, eu acabei vendo a motorista. Era uma mulher, pequena, com cabelo castanho claro. Ela saía do carro e apenas dava uma volta. Eu tinha ouvido falar sobre os tipos de fãs que eram atraídas por Michael Jackson. Elas se apaixonavam por ele. Do ponto de vista de segurança, eu as percebia como uma ameaça primeiro. Quando você vê um carro estacionado do lado de fora do portão, você não sabe se é apenas uma fã ou alguém pior, um stalker, alguém que é completamente desequilibrado. Eu nunca havia visto essa pessoa antes então, numa tarde, fui até o carro e falei com ela. Ela era da Califórnia. Ela disse que não morava longe de Neverland. Ela disse que conhecia Michael e que ela era uma amiga dele. Eu disse, "Então você vai apenas ficar sentada aqui fora?"

Ela disse, "Está tudo bem. Ele sabe."

Sempre que saíamos, essa garota saía do carro para ser vista, esperando que ele a notasse. Geralmente era só eu ou Javon no carro e não podíamos parar. Na primeira vez em que saímos da casa com o Sr. Jackson na parte de trás, ela saiu do carro e eu disse: "Olha aquela garota de novo."

O Sr. Jackson olhou para cima e disse, "Quem?"

Eu disse, "Aquela garota ali."

Ele disse: "Ah, sim. Eu a conheço. Desacelere."

Paramos e ele abaixou o vidro da janela e eles tiveram uma conversa como se fossem velhos amigos. "Como estão as crianças?" "Você está gostando de Vegas?" "Você vai ficar aqui por muito tempo?" Ao ouvi-los conversar, eu não tive a sensação de que ela era uma stalker. Ela era apenas uma fã real e dedicada. A conversa parecia inocente, amigável, confiante. Com um pouco de flerte, para ser honesto. Eles só conversaram. Chegou ao ponto em que tive de lembrá-lo: "Senhor, nós temos de ir."

Ele disse a ela que horas estaríamos de volta e que esperava vê-la na volta, assim como você diria: "Vejo você mais tarde" a um bom amigo. Enquanto seguíamos, ele disse, "Sim, ela vai para onde quer que eu vá."

Perto do final de janeiro, o Sr. Jackson deu uma entrevista para a Associated Press, confirmando que ele estava de volta ao país. Depois disso, os fãs começaram a chegar. Eles estacionavam do lado de fora o dia todo. Normalmente, cerca de quatro ou cinco carros. Às vezes mais. Eles chegavam todas as manhãs, estacionavam em frente à casa, se sentavam em cadeiras de praia, iam para casa de noite. Sempre que nossos veículos deixavam a propriedade, o Sr. Jackson abaixava o vidro da janela e dizia, "Oi. Nós voltaremos em torno de vinte minutos." Seguíamos, e eles sentavam e esperavam por ele. Então voltávamos, ele acenava para eles, entrava na casa, e aí eles se sentavam e esperavam um pouco mais. Era a presença dele, a sua aura. Eles só queriam estar perto dele.

Javon: Os vizinhos odiavam. Os fãs eram geralmente bem comportados, mas este era um bairro residencial de alto padrão. O CEO da Sprint vivia ao lado. Gary Payton, o jogador da NBA, morava no mesmo bloco. Todas essas mansões milionárias e essas pessoas montando acampamento na rua.

Para os vizinhos, os fãs eram um incômodo. Estavam sempre chamando a polícia. Eles apareciam e incomodavam os fãs até eles irem embora. Então no dia seguinte, os fãs estariam de volta.

Bill: Um dia, havia três carros de polícia lá fora, e o Sr. Jackson os viu de sua janela. Ele foi até o trailer de segurança e me disse, "Eu não quero que os meus fãs sejam assediados. Eu preciso que você diga à polícia que não há problema neles estarem aqui, contanto que eles estejam do meu lado da propriedade."

Eu saí e disse isso aos policiais. Um deles me perguntou se eu era um residente. Eu disse, "Não, mas estou fazendo a segurança do dono da casa."

Ele perguntou: "E quem é ele?"

Eu não respondi. Só encolhi os ombros. Então um dos fãs disse, "Michael Jackson vive aqui."

Eu não confirmei ou neguei. Eu apenas disse. "O dono da casa não tem um problema com o fato dessas pessoas estarem aqui."

Os fãs começaram a bater palmas e a dizerem: "Viu? Viu?"

O policial os advertiu de que se eles fizessem qualquer barulho e ele tivesse de voltar, prisões seriam feitas. Eu não senti que aquele era o fim de tudo, e não foi. Os vizinhos continuaram a reclamar, e a polícia continuou a voltar. Finalmente, o Sr. Jackson disse que ia falar com o seu advogado. Eu não sei com quem eles falaram ou que pauzinhos foram mexidos, mas depois daquilo a polícia nunca voltou e os fãs ficaram.

Javon: Eles ficaram lá nos meses do inverno. Eles ficaram durante os meses do verão. Estava mais quente do que o inferno lá fora, e eles acampavam na calçada, esperando. Em dias muito quentes, o Sr. Jackson os enviava refrigerantes e pratos de petiscos. Para os que ficaram por muito tempo, ele nos mandou entregar cadeiras dobráveis. Nós até tiramos a mobília da casa da piscina.

Havia uma garota que estava inflexível sobre ver o Sr. Jackson. Ela estava lá todos os dias. Todos. Os. Dias. Ela alegava ter um lugar permanente na calçada junto à entrada da garagem, e ela estava sempre tentando passar coisas para o Sr. Jackson pela janela do carro. Uma vez, ela correu e entregou para o Sr. Jackson uma pilha de fotos nuas de si mesma. De alguma forma, ele sempre encontrava tempo para parar e conversar com ela.

Bill: Cada vez que ele saía de casa, os fãs corriam e tentavam obter um vislumbre dele. Se as crianças estavam no carro, nós mantínhamos as janelas fechadas e seguíamos; o Sr. Jackson não queria que ninguém ficasse muito perto de seus filhos. Mas se fosse apenas nós, ele insistia em parar e dizer Olá e assinava tantos autógrafos quanto possíveis. Sempre ficávamos nervosos com isso, mas ele insistia. A maioria deles era respeitoso, cortês, mas houve momentos em que as coisas fugiam do controle e eu tinha de saltar para fora do carro para que todo mundo saísse. Sempre que eu ficava assim, o Sr. Jackson me dava um sermão.

"Bill, seja gentil com os meus fãs," ele diria. "Eles não vão deixar nada acontecer comigo. Eles são inofensivos."

Parte de nossa apreensão era que, no início, não entendíamos o que era o seu relacionamento com seus fãs. Ficamos surpresos ao saber que ele manteve contato com alguns deles, se correspondia com eles. Eles ligavam para a sua empresária ou mandavam mensagens através dela. Quando ele falava com eles, havia um monte de trocas de "Eu te amo" e "Eu te amo mais". Eles estavam sempre trazendo-lhe presentes, coisas pessoais. Eles diziam, "Eu fiz isso pra você"; "Aqui é um bicho de pelúcia"; "Aqui está uma bugiganga do Peter Pan". 

Sua relação com seus fãs - eu nunca havia visto nada parecido com outras celebridades. Nunca. Não importa o quão famoso. Com outras celebridades, você via as groupies por aí, mas estas não eram groupies. O Sr. Jackson realmente conhecia muitos deles individualmente. Ele lembrava em que show eles os havia conhecido, há quantos anos eles se conheciam. Ele apontava para os fãs que havia visto em outros países. Aqui estávamos nós em Las Vegas e ele dizia, "Aquele ali, eu me lembro dele na Alemanha."

Era uma relação interessante, ele e os fãs. Ele os amava tanto quanto eles o amavam.

Da janela do seu quarto no andar de cima, ele podia olhar diretamente para a rua onde eles estavam acampados. Algumas vezes olhávamos para cima e podíamos vê-lo, olhando por trás das cortinas, apenas os observando. Eles sentavam e esperavam; ele sentava e assistia.



 Traduzido por Bruno Couto Pórpora

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Insônia, Ameaças, Fuga: Noites com o Rei do Pop

Em 3 de junho de 2014, foi publicado nos Estados Unidos o livro Remember The Time: Protecting Michael Jackson in His Final Days. Um relato de memórias de Bill Whitfield e Javon Beard, dois seguranças que trabalharam para o Rei do Pop durante dois anos e meio - entre dezembro de 2006 e junho de 2009. Engraçado, triste e trágico, conhecemos a intimidade do carinhoso pai Michael Jackson e a solitária rotina de seus anos finais. Nesta tradução exclusiva, confira um trecho do capítulo 3 da parte um do livro. Todos os direitos do texto original pertencem à Weinstein Books.


Bill: Nós instalamos botões de pânico em diferentes áreas da casa - em seu quarto, no quarto da família.

No caso de uma emergência, o Sr. Jackson ou as crianças poderiam nos alertar imediatamente. O alarme não soava dentro da casa, apenas no trailer, para nos alertar. E era um alarme bem alto, posso te dizer. Eu me lembro a primeira vez que ele soou. Foi cedo numa manhã. Eu o escutei e corri para fora do trailer e voltei para a casa. Eu cheguei em frente à porta da cozinha, saquei a minha arma e invadi a casa, como se estivesse pronto para alguma grande merda acontecer.

Eles estavam todos sentados à mesa do café, comendo seu cereal. Eles me viram e congelaram: o Sr. Jackson à esquerda, Paris na cabeceira da mesa, Prince sentado à minha direita, de frente para o Sr. Jackson. Eu não vi Blanket. Ele estava do outro lado da sala, perto da TV, onde havíamos instalado botões de pânico nas paredes. Ele estava apenas andando e apertando os botões. Todos estavam sentados à mesa, me encarando, e então Blanket deixou escapar: "Bill, isso é uma arma de verdade?!"

O pequenino achou que era legal. O Sr. Jackson não. Puxar uma arma automática na sala da família com seus filhos tomando café da manhã? Oh, eu ouvi muito dele a respeito disso.

Javon: Ele não gostava que as crianças vissem armas, mas ele gostava que estivéssemos bem armados. Nós dois portávamos pistolas semi-automáticas Glock com compartimento extra. Tínhamos Tasers. Cada uma delas com uma carga de 1.2 milhão de volts, o suficiente para derrubar um homem de 140 kilos. Tínhamos um esconderijo de armas reserva: metralhadoras automáticas MP5, AR-15s de estilo militar, 12 espingardas automáticas e MAC-10s escamoteáveis. Tínhamos três estojos de munição, cerca de 300 cartuchos para tudo o que tínhamos. Usávamos armadura corporal leve sob os nossos ternos o tempo todo. Alguns podem dizer que era um exagero, mas essas pessoas não sabem o tipo de ameaças que o Sr. Jackson recebia em uma base regular. Nós planejávamos e nos preparávamos para o pior, mas esperávamos e rezávamos pelo melhor.

Bill: Qualquer um que viesse à casa - reparadores, técnicos de serviço, quem fosse - todos eles tinham de assinar acordos de confidencialidade antes de serem permitidos de entrar na propriedade. Era um contrato que carregava uma multa de US$10 milhões por divulgar qualquer detalhes sobre o Sr. Jackson, sua casa, seus filhos, etc. Se eles não assinassem, não entravam. Nós também tínhamos de revistá-los e confiscar os seus celulares. Se eles não aceitassem, não entravam. Aqueles que eram permitidos nas propriedade eram acompanhados por um membro do time de segurança ao longo da casa até que terminassem seu serviço.

Isso era um procedimento padrão para todos, até para os palhaços que contratávamos para as festas de aniversário das crianças. Os palhaços não sabiam de quem era a festa aonde iriam se apresentar até que chegassem lá.

Eles apareciam, nós os apresentávamos o acordo de confidencialidade e eles viravam tipo, 'Hãn?'. Então nós os revistávamos e confiscávamos seus telefones.

"Nós precisamos ficar com os telefones até você sair."

"Mas e se alguém ligar?"

"Você quer ser o nosso palhaço ou não?"

E eles nos davam o telefone.

O Sr. Jackson não confiava em ninguém. O homem era paranóico, muito paranóico. Não dormia muito. Eles sempre andava pela casa às três, quatro da manhã, checando as trancas de todas as portas. Nas noites em que eu fiquei no trailer, eu o vi fazer isto várias vezes. Tínhamos milhares de dólares em equipamento de vigilância cobrindo cada centímetro desta propriedade, guardas de segurança armados patrulhando o território, e mesmo assim ele ia de porta em porta checar as trancas.

Eu aparecia de manhã e os caras que ficaram durante a noite me davam um relatório. "O cara tava checando as portas novamente," eles diziam. Tornou-se normal para nós.

Javon: Ele frequentemente saía da casa na calada da noite só para se certificar que estávamos no trailer e dizia, "Só checando que vocês estão aqui." Nós dizíamos, "Senhor, não vamos a lugar algum."

Bill: Havia uma linha telefônica direta para o trailer, e apenas o Sr. Jackson tinha o número. Recebíamos ligações no meio da noite. Ele escutou alguma coisa. Estava preocupado com alguma coisa. Não era preciso muito para preocupá-lo. Uma noite, estávamos de plantão e, por volta das duas e meia da manhã, nós escutamos a porta da casa bater e, de repente, essa batida forte de alguém na porta do trailer. Nós o abriamos e lá estava o Sr. Jackson, segurando as crianças perto dele. As crianças estavam meio sonolentas e cambaleantes, vestindo pijamas, tremendo no frio.

O Sr. Jackson tinha esse olhar de pânico em seu rosto, os olhos bem abertos. "Alguém está dentro da casa," ele disse. "Eles estão tentando entrar no meu quarto pela porta do terraço."

O meu primeiro pensamento foi de que deveríamos sair, saltar nos carros de dar o fora. Mas o Javon dizia, "Cheque o quarto! Vamos checar o quarto!" Então ficamos para investigar. Nós trouxemos o Sr. Jackson e as crianças para dentro do trailer. Javon ficou com eles. Eu saquei a minha arma, entrei na casa e subi as escadas até o quarto do Sr. Jackson.

O pensamento no fundo da minha mente era de que alguém devia ter subido de volta na varanda.

Assim que estava dentro do seu quarto, eu pude ouvir ao que ele se referia. Havia este murmúrio vindo de fora da porta para o terraço, como alguém tentando entrar. Eu subi, abri a porta e olhei para fora. Ninguém lá. Mas agora eu podia escutar melhor o som. Soava mais como uma batida. Eu olhei para cima e lá estava uma asa saindo desta abertura, freneticamente batendo ao redor. Um pombo. Tudo isto por conta de um pombo.

Eu estendi a mão e o agarrei. Puxei-o para fora da abertura e o joguei por cima do terraço. Eu não poderia dizer se ele decolou ou o quê. Eu posso ter quebrado a sua asa. Tudo o que eu vi foi a coisa indo direto para baixo. Eu desci e disse ao Sr. Jackson que era apenas um pássaro. É claro, agora ele estava todo preocupado com o pássaro. Ele perguntou, "Você não o matou, né?" "Não, senhor," eu disse. "É claro que não. Eu só o deixei ir." "Ah, bom."

Javon: Naquele momento, já passava das três da manhã. Prince falou, "Papai, podemos voltar para a cama agora, por favor? Nós temos aula amanhã de manhã e eu estou cansado."

Então todos se arrastaram de volta para casa e para a cama. Enquanto caminhavam, o Sr. Jackson disse, "Viram, crianças? Melhor prevenir do que remediar."

Bill: Cerca de duas semanas depois, talvez em meados de fevereiro, por volta de uma e meia da manhã, eu recebi um telefonema desesperado da sua empresária, Raymone. Ela estava toda nervosa e dizia, "Você tem de tirar o Sr. Jackson da casa!"

"Qual é o problema?"

Ela não quis me dizer. Ela apenas dizia, "Tire ele da casa! Eu reservei um quarto de hotel. Tire ele da casa!"

Eu percebi que tinha de ser algo sério. Eu falei para o Javon preparar os carros e corri para dentro da casa. Quando cheguei lá em cima, o Sr. Jackson estava andando de um lado para o outro no escuro. O quarto estava completamente escuro; ele não queria que as luzes fossem acesas, como se estivesse com medo de que alguém pudesse vê-lo. Ele fez as crianças irem de quarto em quarto com lanternas para organizarem suas coisas, fazendo as malas para ir embora. Ele sussurrava para elas, "Vamos! Vamos! Não, nós não precisamos disso! Só peguem algumas coisas!"

Eu não sabia o que estava acontecendo. Eu perguntei, "Senhor, o que há de errado? O que está acontecendo?"

Ele não quis dizer. Ele apenas disse, "Raymone ligou. Há uma ameaça. Nós temos de sair. Temos de sair. Agora mesmo."

Javon: Eu havia preparado os carros e estava do lado de fora do trailer de segurança. Não havia nada em qualquer um dos monitores; nenhum dos sensores havia sido desarmado. Antes de sairmos, Bill e eu verificamos toda a casa.

Nada. Fomos até o Sr. Jackson e dissemos, "Senhor, está tudo bem. A casa está segura. Confie em nós, ninguém vai entrar aqui."

Mas ele estava em pânico total. Ele estava quase incoerente, como se não ouvisse uma palavra que dizíamos a ele. Ele só continuava dizendo, "Temos que ir! Temos que ir!"

Bill: Não tínhamos ideia alguma do que estava acontecendo, mas carregamos as malas e as crianças até os caminhões e levamos todos para o rancho Green Valley, um resort nas proximidades de Henderson. O gerente esperava por nós na doca de carregamento quando chegamos. Nós subimos no meio da noite, sem verificação prévia de segurança, nada.

Nós o estabelecemos em seu quarto e ficamos no quarto em frente ao hall. Na manhã seguinte, eu fui falar com ele. Ele estava fumegante. Ele disse, "Eu não deveria ter de sair da minha casa por conta de ninguém. Eu não deveria ter de fugir de ninguém. Não é pra isso que eu tenho vocês?"

Eu perguntei, "Senhor, de quem você está fugindo?"

Finalmente ele me contou o que estava acontecendo. Raymone recebeu um telefonema de um ex-guarda de segurança de Neverland, um empregado a quem o Sr. Jackson supostamente devia dinheiro. O cara havia ligado para ela e fez ameaças explícitas sobre o que ele iria fazer para pegar o seu dinheiro. Ele disse que viria a Vegas e que iria escalar o muro da casa do Sr. Jackson. Então a Raymone ligou para o Sr. Jackson e o deixou em estado de pânico.

Eu disse, "E foi por isso que deixamos a casa? Sr. Jackson, você está seguro em sua casa. Nós somos mais do que capazes de proteger a sua família. Se a Raymone tivesse me dito o que estava acontecendo, eu teria resolvido o problema."

Isso o pegou desprevenido. Ele pareceu um pouco irritado.

Ficamos no rancho Green Valley por mais uma noite, então fizemos as malas e voltamos para a casa. As crianças estavam muito cansadas. Geralmente, elas costumavam levar esse tipo de coisa na esportiva; elas estavam acostumadas com o ritmo da vida de seu pai. Portas dos fundos secretas, alarmes de segurança, botões de pânico - isso era o seu dia-a-dia. Eles eram pequenos soldados. Mas de vez em quando, você via a loucura tomar o seu pedágio. Este foi um desses momentos. Aqui estavam eles, em uma nova cidade, vivendo em uma casa estranha.

Então, de repente, eles estão saindo daquela casa, fugindo no meio da noite, entrando neste hotel, e então voltando e deixando o hotel. E sem uma explicação real para tudo aquilo.

Enquanto dirigíamos de volta para a casa, todos estavam quietos no banco traseiro. Então Blanket olhou para seu pai e disse, "Papai, podemos voltar para a outra casa? Podemos voltar para Neverland?"

O Sr. Jackson balançou a cabeça e disse, "Não. Não podemos voltar para lá nunca mais. Aquele lugar foi contaminado pelo mal."



 Traduzido por Bruno Couto Pórpora

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O que 45 minutos com Michael Jackson me Ensinaram (HP, Outubro 2014)

Huffington Post, 28 de outubro de 2014
Por Jody Michael

Quando eu tinha 16 anos, tive uma conversa de 45 minutos com Michael Jackson. Como você pode imaginar, a experiência foi emocionante. Mas o que eu desconhecia na época era como essa breve conversa iria moldar a trajetória da minha vida.

Era primavera de 1974 quando eu soube que a minha banda favorita, o Jackson 5, estava vindo para Chicago. Eu imediatamente enviei meu pedido de ingressos pelo correio. Quando eles chegaram, não pude acreditar na minha sorte: consegui assentos na primeira fileira! Daquele momento em diante, tudo o que eu podia pensar era em conhecer Michael.

Quando o dia finalmente chegou, meu pai levou a minha melhor amiga, Linda, e eu para o subúrbio e nos deixou no local do concerto. Nós encontramos os nossos lugares, fortuitamente localizados junto à mãe de Michael, Katherine. Ela foi doce e amigável e após eu ter começado a contar sobre o quanto amava os seus filhos, ela fez com que todo o grupo assinasse o meu programa da turnê. Após o show, com o programa em mãos, eu disse a Linda que nós TÍNHAMOS que conhecer o Michael.

Nosso plano brilhante era simples: ficar após o show e esperar por ele do lado de fora. Infelizmente, cerca de 100 outras pessoas tiveram o mesmo plano brilhante, mas estávamos determinadas. Durante as próximas duas horas, o grupo passou a diminuir até que ficamos só nós duas. Nós sabíamos, simplesmente sabíamos em nossos corações, que Michael ainda estava dentro do teatro. Eventualmente, o gerente do local saiu e perguntou o que estávamos fazendo; eu respondi com naturalidade, "Estamos esperando para conhecer Michael." Ele nos disse que eles haviam ido embora horas atrás e eu, com confiança, respondi, "É o seu trabalho nos dizer que ele não está aí. Eu sei que ele está e nós não vamos sair daqui."

Finalmente, farto das adolescentes obstinadas, ele destrancou o teatro e nos deixou vasculhar o local. Não havia um membro sequer da família Jackson a ser encontrado. Ficamos desanimadas.

Quando ele nos perguntou como tínhamos planejado para chegar em casa, percebemos que o trem de volta para a cidade há muito havia terminado sua última viagem da noite. No meio de toda a animação, tínhamos perdido completamente a noção de tais questões práticas. Ele foi gentil o suficiente para nos dar uma carona. Na volta para casa, ficamos alheias ao motorista; Linda e eu só falávamos sobre a nossa tentativa fracassada de conhecer Michael e do castigo que nos aguardava em casa.

Logo antes de nos deixar, o gerente da casa de shows teve piedade de nós e nos disse onde os Jacksons estavam hospedados. Senti toda a onda de excitação e esperança novamente, assim como senti quando os ingressos chegaram. Mesmo ficando de castigo por uma semana não diminuiu o meu humor ou minha determinação.

Determinada a conhecer o Michael, logo no dia seguinte eu desafiei as ordens do meu pai e corri para o hotel após a aula. Eu sentei no saguão esperando pacientemente por cinco horas. Quando era óbvio que o show já havia começado e Michael não estava à vista, eu abordei o homem da recepção e escutei, "Eu não posso confirmar ou negar que o Jackson 5 esteja hospedado aqui." Depois de muito incomodar, ele finalmente salientou que, se um grupo musical famoso estivesse hospedado no hotel, eles provavelmente não iriam sair pelo saguão.

Arrasada pela sóbria percepção de que eu o havia perdido novamente, eu sentei e escrevi uma carta sincera para Michael explicando o quanto eu havia tentado, o quanto havia esperado para conhecê-lo e em quantos problemas eu tinha me envolvido nas minhas tentativas de conexão com ele. Quando eu tentei entregá-la ao homem da recepção, ele se recusou a levá-la. Relaxada, entrei no elevador e parei em todos os andares. Quando cheguei ao topo, um gigantesco guarda avisou, "Eu acho que você está no andar errado." Bingo! Eu sabia que estava exatamente onde precisava estar. Depois de muita persuasão, eu finalmente o convenci a levar a carta. Então fui para casa e fiquei de castigo. Mais uma vez.

Mas tudo valeu a pena porque, naquela mesma noite, o telefone tocou às duas horas da manhã. Eu mal estava acordada quando ouvi meu pai responder e dizer, "Michael? Michael quem?" Eu pulei da cama e gritei para ele não desligar. Ele olhou para mim como se eu fosse uma pessoa louca e disse, "Você diga para esse Michael Jackson, seja ele quem for, para nunca mais ligar aqui novamente a esta hora!"

Eu peguei o telefone e passei 45 minutos falando com Michael Jackson. Ele era afável e gentil - era como falar com um amigo. Nós tínhamos a mesma idade e a maior parte de nossa conversa foi focada na sua curiosidade sobre a vida de um adolescente normal. Ele perguntou sobre a escola e minhas experiências cotidianas; nós nos conectamos através de nossas lutas com nossos pais rigorosos. Foi uma conversa íntima entre duas crianças.

À medida que a conversa se desenrolava, eu me lembro de pensar, "Ninguém vai acreditar nisto. Eu tenho que ter uma prova." Então eu pensei, "Não". Intuitivamente, eu sabia que pedir uma foto personalizada como prova iria estragar o momento. A conversa foi tão autêntica e pura. Eu não pedi.

Conversar com Michael Jackson foi minha primeira grande meta - algo tão grande e tão improvável que a maioria das pessoas não se incomodaria de ir atrás. Sem que eu soubesse na época, aquela ligação de 45 minutos foi uma das conversas mais importantes da minha vida. Ela me moldou para ser destemida e obstinada em busca dos meus objetivos.

Muitas vezes, nós aceitamos "não" como um sinal de que não somos inteligentes o suficiente, poderosos o suficiente ou capazes o suficiente. Nós criamos e contamos a nós mesmos histórias que nos limitam. A trajetória do nosso futuro muda - muitas vezes de forma dramática - quando o "não" não serve mais como um absoluto, e nós mudamos as nossas histórias para apoiar a ação que precisamos para seguir em frente e avançar.



 Traduzido por Bruno Couto Pórpora

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Enfermeira Kathy McGrath relembra Michael Jackson

Maggie Griffin's Corner, abril de 2010
Por Maggie Griffin

Kathy era uma enfermeira na área de tratamento intensivo do Centro Médico de Brotman, o centro onde Michael Jackson foi internado quando sofreu sérias queimaduras durante as filmagens do comercial da Pepsi em 1984. Kathy, sendo fã de Michael Jackson, não esperava que o Rei do Pop fosse ser um dos seus pacientes. Jackson foi colocado em um quarto particular, número 3307. Como disse Kathy McGrath, com 29 anos na época, citada na edição de fevereiro de 1984 da revista People: "Ele ainda estava meio abalado e frio, então colocamos uns cinco cobertores por cima dele."

"Ele estava no auge de sua carreira. Ser sua enfermeira foi maravilhoso e uma experiência honrosa, já que sua música me tocou a vida inteira," disse McGrath. Kathy também enfatizou um fato importante, "Por mais maravilhoso e incrível que fosse o fato de Michael Jackson ser meu paciente, independente dele ser uma celebridade, eu automaticamente entre no 'Modo Enfermeira'. Era importante que ele tivesse um quarto particular para que eu pudesse tratar suas queimaduras apropriadamente, sem interrupções. É um desafio tratar vítimas de queimaduras porque elas também podem ter outras complicações relacionadas às queimaduras. O meu trabalho era garantir que todos os meus pacientes recebessem o melhor e mais imediato tratamento médico, incluindo Michael."

Ao invés de uma típica vestimenta de hospital, ele preferiu vestir um uniforme de enfermeiro na cor turquesa. As enfermeiras também customizaram uma atadura para a cabeça que podia ser camuflada com o chapéu. "Você vai começar uma nova onda aqui em 1984- o 'look' com redes," disse a enfermeira Jan Virgiu para Michael. "Ele riu e disse que queria parecer francês."

A enfermeira Kathy se lembra de MJ visitando Keith Perry, um mecânico de 23 anos que havia sofrido queimaduras de terceiro grau em 95% de seu corpo. Perry havia passado por sua décima quarta operação quando Michael chegou e foi colocado em um quarto contíguo. Outra paciente severamente queimada com quem ele esteve em frequente contato foi a costureira de 41 anos, Bessie Henderson. "Bessie havia passado por muitas operações e estava muito deprimida," contou Steven Hoefflin, cirurgião plástico de Michael Jackson na época. "Quando Michael começou a ligar, ela mudou e agora está muito melhor."

"Michael se importou com Keith, Bessie e muitos outros que estavam sendo tratados por queimaduras," contou McGrath.

Revirando as fotos eu leio, escrito à mão para Kathy McGrath: "Obrigado, eu te amo - Michael Jackson"

Tem uma mensagem que Kathy McGrath quer dar para a família Jackson. Esta mensagem é: "O meu coração e orações estão voltados para toda a família Jackson pela perda de Michael. Não importa o que seja, eles são a família e a família vem primeiro."



Traduzido por Bruno Couto Pórpora

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O homem que salvou Michael Jackson (Larry King Blog, Julho 2009)

Larry King Live Blog, 16 de julho de 2009
Por Miko Brando

Era janeiro de 1984. Nós estávamos filmando o comercial da Pepsi no Shrine Auditorium em Los Angeles. A Pepsi estava promovendo a turnê que Michael ia fazer, Victory Tour. Michael estava descendo as escadas. Eu estava do lado esquerdo do palco, a cerca de 10 metros de distância. Eu vi ele pegando fogo. Eu imediatamente pulei nele e sacudi sua cabeça para apagar o fogo. Não houve hesitação. Meu primeiro instinto foi de ajudar o meu amigo.

Eu tenho de admitir, eu não vi o fogo logo quando começou porque o meu ângulo estava bloqueado. Ele estava atrás dos músicos, e não foi até ele estar na minha frente que eu percebi o que havia acontecido. Quando eu cheguei no Michael, nós fomos empurrados para o chão. Pouco depois disto, uma dupla de paramédicos chegou e nos pediu para dar espaço. Eles o levantaram e o tiraram do palco. Eu acho que havia uma ambulância em espera porque estávamos usando efeitos pirotécnicos. Ele foi levado para a sala de emergência do Cedars-Sinai. Ele ficou no Cedars por um tempo, então foi transferido para o Brotman Medical Center em Culver City. Brotman eventualmente abriu o Michael Jackson Burn Center [ala do hospital dedicada a vítimas de queimaduras] após Michael ter doado seus $1.5 milhão do acordo com a Pepsi para o hospital.

Eu fui para o hospital, mas não logo em seguida. As minhas mãos se queimaram um pouco. Alguns paramédicos me examinaram e disseram que eu estava OK. Assim que me liberaram, fui ao Cedars. Eu queria estar com o meu amigo. Eu não me lembro quanto tempo ele ficou no hospital após aquele incidente. Eu fui visitá-lo várias vezes, e cada vez ele me agradecia por ter ido, e por salvar sua vida. A nossa amizade realmente cresceu depois disto.

O acidente não era algo que Michael gostava de conversar a respeito, mas às vezes ele dizia "obrigado por me ajudar, obrigado por me salvar." Eu dizia a ele que sempre estaria lá se ele precisasse de mim, e ele sempre me ajudou também. Um dia ele disse - e eu esqueci em que situação - mas ele disse "graças a você, eu posso fazer isso". Eu sabia o que ele queria dizer. Eu também sei que se os papéis fossem invertidos, ele teria feito o mesmo por mim.

Na última semana da vida de Michael, durante os ensaios para sua turnê, nós conversamos nos bastidores. Nós conversamos sobre as crianças, meu filho Shane, que está na faculdade, uma conversa comum, até ele perguntar se eu estaria por perto durante a parte pirotécnica do show. 25 anos após o acidente, Michael me queria lá. Eu não precisei perguntar porque. Não foi dito, mas foi compreendido. Pouco após aquela conversa, eu falei com o diretor de palco Scott Chase, e ele disse que faria acontecer.

Assistindo ao vídeo agora me trás de volta muitas emoções, e é realmente difícil colocá-las em palavras. Eu já vi antes o incidente em fita, de muitos ângulos, incluindo o que foi lançado ontem. Havia cerca de 6 ou 7 câmeras rodando na hora. Os advogados de Michael me mostraram quando se preparavam para o processo. Enquanto assistíamos, eles me disseram que eu tive sorte de não ter sido baleado. Eu estava com roupas comuns, e havia muitos seguranças ao redor. Eles não tinham idéia do porque eu estava correndo até Michael Jackson durante a gravação de um comercial. Mas eu fui. Eu estive lá em uma parte crucial de sua vida. Eu reagi do modo como qualquer um teria reagido ao ver alguém com quem eles se importam em perigo.



Traduzido por Bruno Couto Pórpora

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Gilberto Gil e Tom Jobim Falam Sobre Michael Jackson (Veja, 1988)

Revista Veja, edições de 20 de janeiro de 1988 e 23 de março de 1988

Gilberto Gil, em entrevista à Revista Veja, edição de 20 de janeiro de 1988

Veja - O que você acha de artistas negros que procuram assimilar os padrões da raça branca - Michael Jackson, por exemplo, que fez plástica para afinar o nariz e alisou os cabelos?

Gil - O caso de Michael Jackson é uma exigência técnica, prática. É a adoção de um esquema de enriquecimento. Na sociedade americana, racista como é, o fato de ele ter ascendido à posição de um grande ídolo criou, nos vários interesses que cercam a carreira dele, uma vontade expansionista de ser aceito por maior número de pessoas, de ser uma coisa legitimada pela totalidade da sociedade americana. E para isso, nos Estados Unidos, a adoção de certos traços de branco é necessária, para vender, para sair do mercado de música negra, pura e simplesmente, e cruzar por cima de todo o mercado americano e internacional. É até uma vitória para o negro americano, do ponto de vista econômico - ser um ídolo, vender tanto quanto Elvis Presley, ser querido tanto quanto ele. É a opção de uma rejeição de um passado, de uma herança racial.

Veja - A música de Michael Jackson é branca ou negra?

Gil - A música de Michael Jackson não é negra nem branca. É esse filão novo saído dessa junção de um tremendo tecnichs propiciado pelo mundo branco. O Michael Jackson é um bonequinho programado, mas cheio de alma.


Tom Jobim, em entrevista à Revista Veja, edição de 23 de março de 1988

Veja - O Michael Jackson ganhou 10 milhões de dólares para fazer anúncio da Pepsi-Cola, não é?

Jobim - Eu fico muito satisfeito com isso porque o Michael Jackson comprou os direitos dos Beatles. Isso é uma coisa fantástica. O Michael Jackson deve ser fã dos Beatles e vai cuidar bem da obra. Eu, se ganhasse um dinheiro desses, não 10 milhões de dólares que é muita coisa para mim, mas 5 ou 4 ou 3 ou 2 ou 1 milhão de dólares, compraria a obra do Tom Jobim, a minha própria obra. Não quero terras nem fazendas. Dinheiro é muito bom quando você não tem de pensar nele. Eu compraria minha obra e iria editá-la toda direitinho porque está toda escrita errada, iria corrigir as letras, as harmonias e as melodias e até o ritmo. Faria isso para poder morrer em paz. Se eu morresse agora, neste minuto, iria ficar um rastro de besteira incrível. No mais das vezes, esses editores nunca se preocuparam em editar música nenhuma, eles sempre quiseram foi ficar com os direitos autorais.

Veja - Está acontecendo uma renovação na música brasileira?

Jobim - O Brasil é um país maravilhosamente musical, bem-dotado. Fala-se muito aqui da influência americana. Mas tenho ouvido Michael Jackson e aquilo está cheio de samba. Aliás, a música latina sempre fez parte da música americana. A música cubana toda foi assimilada pelos Estados Unidos. O Dizzy Gillespie ia a Cuba estudar pistão. Eles vêm aqui e ficam encantados. Mas é difícil ouvir músicas brasileiras porque aqui só se escuta rock.

Grandes da Indústria: Música e Michael (Julho 2009)

Entrevista com Cory Rooney e Chris Apostle em 8 de julho de 2009.
Traduzida e editada por Bruno Couto Pórpora.

Michael Jackson entreteu o mundo com sua voz e seus passos desde os seis anos de idade. Sua recente morte provocou muitas perguntas. Mais do que tudo, as pessoas ao redor do mundo querem saber porque o Rei do Pop se foi repentinamente.

Em 1979, Michael lançou Off The Wall pela Epic Records - uma divisão da Sony. O álbum foi aclamado pela crítica, ao mesmo tempo que vendia 20 milhões de cópias e que concedia a Jackson prêmios Grammy pela primeira vez desde os anos 70.

Três anos depois, o Enluvado lançaria o disco mais popular da história da música, Thriller. Sua voz, dança e habilidade como performer foi algo diferente de tudo que o mundo já havia visto, deixando uma marca definitiva no gênero do videoclipe.

Em 1993, o executivo musical Chris Apostle começou sua carreira como Vice Presidente de Projetos Especiais de Gravação na Sony Music Entertainment. Ele seria mais conhecido como a mão direita de Tommy Mottola - o presidente da companhia e uma lenda da indústria musical -, trabalhando com todo mundo de Mariah Carey a Jennifer Lopez e Marc Anthony.

Nos últimos 20 anos, Apostle tem sido amigo do produtor/compositor Cory Rooney. Em 1998, Mottola nomeou Rooney Vice Presidente da A&R da Epic. A VH1 chamou Rooney de o segredo mais bem guardado da indústria musical. Ele já compôs e produziu para artistas incluindo Jennifer Lopez, Mary J. Blige, e Destiny's Child entre outros. Durante seu tempo na Epic, Cory tornou-se amigo de Michael Jackson.

Enquanto trabalhava no estúdio com Michael, Rooney teve a oportunidade de ver um lado de Jackson que poucos conheciam. Por exemplo, em uma reveladora conversa em 2001, Jackson contou a Rooney que ele nunca mais faria uma turnê, e se a fizesse, ela o mataria.

Entre outras coisas, Cory conta que era fácil trabalhar com Michael - ao contrário do que a mídia conta. Rooney relata um momento quando Michael se desculpou por chegar tarde numa gravação no estúdio mandando uma cesta com cerca de 100 DVDs e um recado que dizia, "Estou muito arrependido por não respeitar o seu tempo."

Rooney não se surpreendeu quando Jackson se virou contra o então chefe da Sony Tommy Mottola, em 2002. Ele diz que Michael sentia que ninguém estava do seu lado, que ele não estava recebendo o amor e respeito que merecia.

Mas mais importante, Rooney e Apostle esperam que as pessoas lembram das contribuições de Michael Jackson para a música e, como Apostle diz, reconheçam o musicólogo que ele era.

Chris Yandek: Cory, você teve uma chance de trabalhar com Michael, você escreveu e produziu algumas canções com ele. Como era o seu relacionamento com ele?

Cory Rooney: É engraçado, alguém me perguntou isto outro dia e eu disse, 'Eu esperei a minha vida e carreira inteiras para finalmente ter a chance de trabalhar com Michael, ser reconhecido, ter meu talento reconhecido por Michael'. Quando o momento finalmente chegou para nós entrarmos no estúdio, gastamos quase um mês só conversando e ele me educou em tantas coisas diferentes. Nós mal conseguíamos terminar alguma música. Foi uma experiência completamente diferente do que eu acreditei que seria.

CY: Uma completa distração, não trabalhando e conversando sobre um monte de coisas?

CR: Sim. E aí a relação me transformou rapidamente num executivo. Eu acho que minha força por ele no momento se tornou maior do ser um compositor ou produtor, me tornei seu "inside man" na época. Ele sentia na época que ele não tinha aliados ou pessoas que o apoiassem na Sony.

CY: Sério?

CR: Foi maravilhoso! Eu rapidamente me tornei seu aliado número um na companhia.

CY: E o que você aprendeu dele na época em que se tornou seu aliado? Tipo, quem ele era? Parece que haviam sempre pessoas tentando sugá-lo e dizendo a ele para fazer isto ou aquilo. Parecia que ele não tinha controle em um certo ponto de sua vida, estou certo?

CR: Sim. Quero dizer - você acertou no ponto. A primeira coisa que eu comecei a notar nele foi que ele sempre queria tanto agradar. Ele queria tanto agradar que pensava demais em muitas coisas. Tipo, ele teria um álbum gravado e eu o escutaria e diria, "Michael, isto é inacreditável!" [Michael]: 'Sim, mas eu acho que não está pronto ainda'. Porque ele tem um milhão de pessoas ao pé do ouvido dele dizendo a ele diferentes coisas em diferentes direções. Ele era levado a todo tipo de direção pelas pessoas e eu me surpreendi pelo fato de que ele era tão facilmente manipulado.

CY: Chris, eu tenho que dizer que por mais de uma década você foi um grande jogador na Sony Music Entertainment. Qual foram seus negócios com Michael e o que você conheceu dele enquanto ele estava na Sony?

Chris Apostle: Bem, meus negócios, diferente dos de Cory, eram bem limitados. O tempo real que eu passei com ele foram apenas dois dias. Ele estava mixando uma faixa com Jay Z e Jay Z já tinha se tornado um grande jogador na indústria. Eu lembro de entrar no estúdio antes de Michael ter chegado e Jay Z estava trabalhando na letra da música, e eu apenas me lembro que Jay Z estava quase, eu nunca havia o visto tão humilde. Ele estava quase nervosamente excitado por estar trabalhando com Michael Jackson. Aquilo me deixou impressionado.

Eu sou mais velho do que Cory e cresci com Michael desde que ele começou. O que eu aprendi estando dentro da Sony foi que a maioria das pessoas, os executivos como diz Cory diziam, davam direções a ele, todas estas idéias, sobre o que ele deveria fazer ou não, o que eu acho que era mais ignorado sobre Michael e o que ele fazia era que Michael estava sempre trabalhando em sua música. Você escuta sobre todas as outras coisas acontecendo, mas é engraçado quando você assiste a uma entrevista recente, aquela do Martin Bashir e Martin estava dizendo, "Bem, é bom que você está trabalhando em música novamente." E ele foi bem firme quando disse, "Eu estou sempre fazendo música". O que você acha, Cory? Ele provavelmente deve ter duzentas músicas na espera guardadas em algum lugar.

CY: Há algumas notícias, e eu li um artigo outro dia sobre ele ter 200 músicas não publicadas que foram deixadas para suas crianças, para que elas possam comercializar, e são avaliadas em algo em torno de 60 milhões de dólares, Chris.

CR: Certo. Eu acho que este é meio que o método antigo da Motown. Stevie Wonder tem cerca de 2.000 músicas que ele guardou pelo mesmo motivo. Verdade. Michael estava sempre compondo. Sempre... sempre trabalhando com música. Como eu disse, ele nunca se satisfazia consigo mesmo.

CY: Os comentários que ele fez sobre Tommy Mottola há muitos anos atrás, os comentários sobre ele não estar feliz com o álbum que ele lançou em 2001. Foram 30 milhões de dólares gastos nele, mas você se surpreendeu quando ele fez tais comentários, chamando Tommy Mottola de um monte de coisas?

CR: Eu não me surpreendi. Como eu disse, ele sentia que não tinha pessoas ao seu lado na gravadora. Pela maior parte, eu não acho que as pessoas realmente demonstraram o amor e respeito que deveriam ter demonstrado a ele na gravadora. Verdade, podem ter sido gastos 30 milhões de dólares no disco, mas ao mesmo tempo os negócios envolvendo aquele disco foram minados ao ponto de que Michael não poderia vencer mesmo se ele quisesse. Você entende?

CY: Sim.

CR: Eles armaram a situação e colocaram uma marca tão alta no disco, em termos de sua recuperação financeira e coisas assim. Era uma situação de perder ou perder. E eles fizeram isto para poderem dizer ok, nós queremos que você faça o esquema todo. Nós queremos que você venda discos. Nós queremos que você saia em turnê. Eles acharam que ele ia sair correndo e dizer, 'Cara, preciso fazer tudo isto para recuperar o disco'.

CY: Chris, algo a acrescentar?

CA: Um artista poderoso como Michael, ele não é o primeiro artista que decidiu não estar feliz em sua casa, a gravadora que senta lá e decide o que ele deve fazer. Quando artistas do nível dele não estão felizes, eles falam. Alguém como ele, que apenas lidava com o alto nível - Japão e Mottola. Estou certo que o nível de frustração estava fora de controle. Foram muitas circunstâncias que o levaram àquele ponto.

O que me ofende brutalmente e é apenas um rumor, mas é algo que eu realmente acredito, eu realmente acredito que ele foi chantageado em todo aquele escândalo. Eu acho que em algum momento a verdade aparecerá. Este homem deu milhões e milhões para caridade. Nunca falam sobre o que ele fez. Eu acho que sua reação era natural e que ele foi pressionado. Se você olha para a qualidade do trabalho dele, Chris, volte para Off The Wall, que é o meu disco favorito de Michael Jackson. Mas cada disco, não me importa se for Dangerous, cada um, estes discos eram perfeitos, nada além de sucessos.

Cory e eu sentamos num escritório da Sony uma vez e assistimos a um show, um DVD ao vivo. Um colega nossa, Ron Grant, nos chamou e disse, 'Caras, vocês querem assistir uma coisa?' E pensamos bem, meio dia, assistiremos algo por cinco ou dez minutos. Era um show não editado, duas horas e meia em um estádio no Brasil. Ele nunca parou durante as duas horas e meia. O ponto que eu quero destacar é que ele não está tendo seu papel reconhecido pelo que ele contribuiu musicalmente ao mundo. Ele é provavelmente o maior música que conheceremos em nossa geração. Você nunca verá algo assim novamente. Isto tem de ser discutido e levantado.

CY: Como a indústria musical vai ser afetada no futuro agora?

CR: Eu não acho que a indústria musical olhou com profundidade no que Michael Jackson significava para todos, todos nós artistas, produtores, atores, atrizes, todos nós, o entretenimento como um todo. Eu não acho que eles olharam profundo o suficiente, porque todo mundo está ocupado falando *****. Quando Michael foi julgado, ninguém... ninguém parou para ir apoiá-lo no julgamento.

CA: É.

CR: O cara foi absolvido em dez acusações de abuso sexual infantil. Ninguém disse, 'Me desculpe, Michael'. Ninguém disse, 'Michael, sabíamos que você era inocente'. Ninguém fez um tributo na BET para ele então. Ninguém tocou sua música e fez uma maratona então. Ninguém correu e fez um show. Por que Michael deveria sair em turnê para levantar dinheiro? Por que os artistas não se juntaram e disseram, 'Hey! Sabe o que? Vamos fazer uma turnê como Michael fez com We Are The World e vamos levantar dinheiro. Vamos fazer isto logo'. Ninguém fez isto. Tookie Williams é o fundador de uma gangue, você sabe?

CV: Sim.

CR: Eles estavam tentando conseguir um perdão na pena de morte dele e metade de Hollywood apareceu por este homem. O que eu não entendo é tipo, ok, as pessoas não queriam chegar nem perto de Michael Jackson quando ele estava em apuros.

CY: Mas elas apóiam um assassino.

CR: Mas elas apoiam um homem que executou famílias. Uma garotinha implorou por sua vida e ele a executou. Eles alegaram que ele escreveu livros infantis em seu tempo na prisão, que ele tentou mudar sua vida. Ele foi indicado ao Nobel da Paz. Bem, e as milhões de crianças que Michael Jackson ajudou por toda sua carreira? Mesmo assim, duas crianças aparecem com falsas acusações e estas duas crianças se tornam as crianças que o destroem. É loucura. Me faz olhar para o mundo do entretenimento e apenas dizer que estou rodeado por hipócritas.

Quando você me pergunta como irá afetar a indústria, eu acho que eles nem ao menos percebem a grandeza da coisa. Todo mundo vai fazer seus tributos porque agora todo mundo quer ficar um pouco sob os holofotes, querem brilhar um pouco. Agora, do nada, todo mundo quer dizer algo bom sobre ele.

CY: Todo mundo quer ser relevante.

CR: Todo mundo quer ser relevante e isso me aborrece.

CY: Depois de 93, deveria ele ter sido mais sábio ao invés de fazer o documentário com Martin Bashir e dizer que era ok dividir sua cama com uma criança? Você não acha que a maioria das pessoas vão dizer que bem, em certo sentido, ele meio que trilhou seu caminho?

CR: Deixa eu lhe explicar o que foi me dito diretamente por Michael. Michael e eu conversamos sobre isso. Ele disse, 'Cory, quando eu era criança, não me negaram apenas minha infância mas me negaram amor. Quando eu me aproximava para abraçar o meu pai, ele não me abraçava de volta. Quando eu ficava com medo dentro de um avião, ele não colocava seu braço ao me redor e dizia Michael, não se preocupe. Vai ficar tudo bem. Quando eu tinha medo de entrar no palco, ele dizia, 'Coloca essa bunda logo no palco!'. Não apenas ele, mas todo adulto ao seu redor.

Então ele me disse, 'Cory, eu nunca negarei amor a uma criança e se isso significa que eu devo ser crucificado ou ser colocado na cadeia, então é isto que eles terão de fazer'. Quando chegou a hora do julgamento começar, na primeira vez que isto aconteceu, seus conselheiros disseram, 'Michael, isto não é bom. Pague esta criança e vamos continuar'. Na segunda vez ele disse, 'Você sabe o que? Tudo o que aquilo fez foi me fazer parecer culpado como se eu estivesse escondendo alguma coisa. Então desta vez não haverá pagamentos. Eu vou lutar na corte. Você verá. Serei inocente.'

Bem no dia em que ia sair o veredicto, eu falei com sua família porque lembro de assistir as notícias e de que Michael tinha 45 minutos para chegar lá. Então eu conversei com alguns parentes que estavam na casa com Michael. Eu perguntei, 'Bem, que diabos ele está fazendo?' Ele estava lá em cima se vestindo. Ele desceu. Ele rezou com sua família e disse a todos, 'Eu quero que vocês não se preocupem comigo porque eu estarei bem.'

E ele foi até lá, ele estava talvez um pouco nervoso batendo os pé, cantando no carro e tudo, e ele chegou lá com seu irmão e sua irmã. Mas ele não estava preocupado. Vou te dizer uma coisa, eu estaria em frangalhos. Eu não sei se conseguiria enfrentar uma corte como ele.

CY: Chris, algum pensamento sobre isso?

CA: Quando eu assisti o especial do Bashir ontem, eu só queria ver por mim mesmo sobre o que era e refletir sobre ele. Quando Martin perguntou a ele sobre o primeiro incidente em que ele pagou os acusadores, eu achei irônico e incrivelmente sincero a maneira como ele disse, 'Eu apenas decidi que queria deixar aquilo de lado'. E ele deixou aquilo de lado o que, aliás, não é a primeira vez que isto acontece com alguém na história do show business. Ele queria que eles desaparecessem. Da segunda vez, ele lutou.

Mas o que Cory dizia voltando à sua infância e tudo mais, ele estava refletindo sobre o fato dele ter acne quando jovem, o que todos nós passamos em uma fase de nossas vidas, e como seu pai gozava sobre sua acne e sua pele. Você está falando sobre um jovem que nunca teve a chance de crescer e ser normal. O garoto cresceu muito diferentemente da maioria das pessoas. Por isso ele é Michael Jackson, mas há muitos motivos pelas suas inseguranças. E sobre a segunda acusação, eu acredito cem por cento, eu irei ao túmulo acreditando que ele era completamente inocente. Ele foi chantageado pelo homem que queria ser roteirista ou escrever livros ou fazer filmes, que seja. Isso era uma informação de dentro que era bem conhecida.

CR: O documentário de Martin Bashir, eu não acredito que as pessoas lembram que uma semana depois ou talvez algumas semanas depois, o próprio Michael exibiu uma outra versão do programa.

CY: E ele tinha tudo gravado por ter sido esperto o suficiente levando um cameraman.

CR: Ele foi sábio o suficiente para filmar e isto exibiu claramente como o cara manipulou tudo e tornou tudo mentira. Eles perguntam a Michael, 'Você é gay?' E Michael diz, 'Eu não quero responder esta pergunta.' Então, foi a esta pergunta a que ele respondeu isto. Mas foi rapidamente editado por Bashir dizendo, 'Obviamente ele não queria responder por razões claras.'

Então quando Michael exibiu sua versão, ele pergunta, 'Você é gay? Michael diz, 'Eu não quero responder esta pergunta'. Então ele diz, 'Mas se você desligar sua câmera, eu responderei sua pergunta'. Então o cara disse ok, desligou a câmera. Então Michael diz, 'Não. Absolutamente não. Eu não sou gay, mas eu tenho milhões de fãs gays e se eles querem acreditar que eu seja gay, deixe-os acreditar que sou gay.' Ele disse, 'Eu não me importo. Eu não quero ofender ninguém.' Entende?

CA: Eu tenho que dizer algo aqui, eu não acredito que a este ponto este tipo de assunto ainda esteja sendo discutido.

CR: Sim. É loucura.

CA: Não falam sobre o que este homem fez pelo mundo e eu tenho um grande amigo que Cory não sabia que estava trabalhando nesta turnê com ele, alguém que trabalhou com Cory no show de uma diva e ele disse, 'Ele estava melhor do que nunca'. Ele estava lutando porque era um show longo e difícil, mas ia acontecer. Ele cancelou dois shows, tudo bem. Esse cara tinha 50 shows alinhados.

Estava acontecendo. Eles estavam no Staples Center, toda a produção. Você está falando sobre um show multi-multi-milionário. Estava acontecendo. Esse pobre garoto vai para casa à noite e diz que não se sente bem, e no dia seguinte ele é levado de nós. Eu usarei uma palavra que Cory usou, provavelmente a coisa mais devastadora a qual já tive de lidar na minha vida. Eu sinto como se tivessem arrancado meu braço direito de mim. As pessoas tem que prestar um pouco mais de atenção para o que ele contribuiu ao mundo e parar com toda essa porcaria de Wacko Jacko.

CR: Mas não vão parar, porque é isto que eles preferem.

CA: Liza foi muito legal. Eu assisti ela outra noite.

CY: Sim. Eu a vi no Larry King.

CA: Ela estava lá e disse "pára" e ela conversava com Larry King. Ela disse pára, poxa, vamos celebrá-lo um pouco. Tudo vai sair, as pessoas vão entrar no frenesi, você vai começar a ouvir rumores, os livros vão começar a ser lançados. A Sony está fabricando discos. Aposto que eles têm quatro máquinas agora só fabricando discos dele. Me desculpe. Eu vou deixar Cory assumir a liderança agora, estou devastado com tudo isto. Estou triste. Estou muito emocionado e vou para minha fazendo esta semana, Cory, onde eu tenho todos os vinis originais e vou tocá-los. Alguém tem que falar sobre o que este homem contribuiu e parar com toda a merda.

CY: Muitas pessoas dizem que ele não era o mesmo após o julgamento de 2005 e que as coisas chegaram ao fundo do poço, com todos esses problemas pessoais e, é claro, ouvimos boatos nos últimos anos sobre problemas de saúde. Algum pensamento ou conhecimento sobre essa situação?

CR: Eu sei que ele realmente tinha problemas de saúde. Isto é o número um. Michael Jackson tinha outros problemas de saúde que nunca foram discutidos como o que é chamado de pé de dançarino. Pé de dançarino é quando seus pés, após anos de dança, uma dançarino cobre seus pés para dançar. Você os cobre com fita ou algo assim. Mas é claro, porque você não recebe oxigênio o suficiente, a pele resseca. A pele começa a quebrar e cair, quase como pedaços de papel e Michael sofria muito com isto.

O que acontecia é que, às vezes, ele sofria tanto com isso que tinha que enfaixar os pés. Por isso você o veria algumas vezes com os pés engessados. E sim, ele tomava analgésicos por conta disso? Sim. Tenho certeza que sim. Eu nunca o vi tomar uma pílula, mas certamente conversei com ele sobre isso. Agora, o que quer que autópsia revelar, o que quer que o resultado revele sobre como este homem se foi daqui, tudo ainda será o resultado do que o mundo do entretenimento fez com ele, e ponto final.

CY: Seria justo dizer que foi o show business e os negócios, porque ele tinha todos estes problemas financeiros, e por isso ele teria sido pressionado? Ele disse que queria fazer 10 shows, mas então se tornaram 50 para esta coisa em Londres que ia acontecer já no próximo mês. Ele se sentiu pressionado a fazê-los por conta de problemas financeiros?

CA: Escuta, eu tenho certeza que ele quis fazer esta turnê de retorno e conseguir um monte de grana, o que ele honestamente merece. Eu ainda acho, como Cory disse, que ele foi empurrado por gente extremamente poderosa e que ele não foi tratado bem. Nós sempre estivemos neste negócio e alguém que Cory e eu conheço disse muito bem, 'Você não pode fazer nada neste negócio sem o artista, mesmo que o artista seja o que você considera a pior coisa do mundo. Você ainda precisa do artista.' Bem, parece pra mim que os grandões na indústria esqueceram, em algum momento, que ele deveria ser cuidado.

CR: Isto foi há anos atrás. Eu vou voltar a aproximadamente oito anos atrás e Michael me disse, 'Cory, eu não posso mais sair em turnê. Eu não vou mais sair em turnê. Ok?' Eu perguntei, 'por que Mike?' E ele disse, 'Porque isto me matará'. Foi o que ele disse para mim. Ele disse, 'isso me matará'. Por que ele diria algo assim? Ele disse, 'Bem, você se lembra de quando eu estava me preparando para o meu show e desmaiei no estúdio da Sony?' Ele disse, 'Bem, é porque quando eu me preparo para uma turnê, eu me desidrato. Eu não como. Eu não bebo. Eu não durmo. Eu mergulho completamente na preparação da turnê.'

Ele disse, 'Eu não faço isso de propósito. É apenas algo que não penso mais. Entende? Da última vez, eles me fizeram andar com um soro. Ele disse, 'Então eu apenas decidi, e meus médicos decidiram que talvez seja melhor eu não fazer mais isto'. Ele disse que queria fazer o álbum Invincible funcionar comercialmente até onde conseguisse. Ele tinha terminado com as turnês. Ele ia fazer o álbum Invincible e continuar lançando álbuns. Ele disse, 'Eu faço álbuns até não poder mais fazê-los, mas eu não posso sair em turnê.'

CY: Seria justo dizer que a derrocada de Michael Jackson foram as pessoas gananciosas que obviamente queriam os 85 milhões de dólares obtidos com os ingressos para os shows de Londres, por exemplo? Seria justo dizer que foi a ganância que o levou e outras pessoas que foram forçadas dentro da situação?

CR: Eu não chamaria isto de ganância. Eu apenas acredito que ele não teve escolha. Eu acho que financeiramente, às vezes fazemos o que temos de fazer. É o mesmo motivo para um boxeador como Joe Lewis retornar após ter se aposentado há anos. Joe Lewis subiu no ringue e teve de lutar porque não tinha mais dinheiro. Eu não estou dizendo que Michael não tinha dinheiro algum.

CY: Mas ele devia 400 milhões de dólares.

CR:
 Mas ele tinha uma dívida. Ele definitivamente tinha uma dívida. Ok, quando você tem uma dívida e gente te pressionando, ok Michael, mais uma turnê e limparemos esta dívida. Ok, sabe o quê? Conhecendo a pessoa que ele é, o entertainer que ele é, 'bom, vamos ao trabalho'!

CY: É uma surpresa para muitos, mas ao mesmo tempo é uma dessas grandes tragédias a quais lembraremos e diremos que ele teve seus altos mas teve seus baixos também?

CR: Eu diria que minha maior oração é para pedir a Deus que deixem este homem em paz, e esperança para que seu legado viva e não seja sujado por toda estas porcarias que dizem. Mas eu temo que para sempre isso será um problema. Do mesmo modo que você sempre ouve essas coisas loucas sobre sei lá, Elvis Presley.

CY: Sobre como ele morreu.

CR: "Como ele morreu".

CY: As teorias conspiratórias.

CR: Uma teoria conspiratória. Como Bruce Lee morreu? Como Marilyn Monroe morreu? Você sabe o que estou dizendo? Michael não é comparável a essa gente. Eu diria que Elvis Presley é o mais próximo que você pode chegar. Eu não vou descreditar Elvis Presley, mas são duas pessoas diferentes. Michael, até onde eu sei, superou Elvis e tudo o que Elvis foi há muito tempo trás.

E ele se mantinha por algo diferente. Ninguém fala sobre como ele fez a Victory Tour, e eu me lembro quando criança, Michael estava na Victory Tour e toda noite os noticiários anunciavam que Michael Jackson doou sua renda de cada cidade, ele doou para uma nova caridade. Ele doou toda sua renda da Victory Tour para instituições de caridade. Eu achei aquilo fantástico. Este cara doando milhões de dólares cada noite para uma nova caridade! E ele parava em cada cidade e visitava crianças que sofreram queimaduras, estavam doentes ou o que fosse. Ele tinha tempo para fazer tudo isso.

CY: Chris, algum pensamento?

CR: Duas coisas. As comparações entre Elvis e Michael são óbvias considerando o que eles significavam para a cultura americana e mundial. Diferenças, Elvis, eu acredito, morreu aos 42. E Elvis, seu maior faturamento foi quando ele morreu, muito mais do que quando ele estava vivo. Volte aos altos e baixos, todos os artistas têm altos e baixos. A maioria dos baixos geralmente contribuem à falta de criatividade, de treino, o corpo se deteriora, etc... etc. Michael teve o maior dos auges e se você se lembrar do maior dos auges, nunca haverá novamente algo daquele gênero em nossa era.

Em primeiro lugar, os álbuns eram brilhantes. As performances eram brilhantes. Ele era brilhante. Ele era um ícone, provavelmente a pessoa mais famosa no mundo. Eu acredito que os seus baixos não foram totalmente atribuídos a um declínio artístico. Eu acho que os baixos foram forçados a ele pelo que as pessoas fizeram com ele. E eu acho isto muito triste. Artistas envelhecem como atletas. Eles mudam.

Eles fazem turnês diferentes. Eles começam a tocar em cassinos. Eles começam a tocar em festivais, etc. Esse cara foi forçado, ele foi forçado a descer mais baixo do que qualquer artista deve descer. Não foi por falta de talento. Algo sobre Michael que as pessoas não percebem é que eu até o chamava de musicologista. O cara conhecia cada canção, cada gravação, cada estúdio, todo o Sun Studios, Memphis, Motown, Nova York, LA, tudo. Ele conhecia tudo. Os músicos. Os instrumentos. Os microfones. Ninguém fala sobre isso. Ninguém discute isto e é inacreditável. E aliás, diferente de Elvis, este cara estava fazendo isso por 43 anos. 43 anos, Chris. Meu Deus.

CY: Eu acredito que, olhando a indústria como um todo e do modo que as coisas andam, mais vale um nome do que um talento musical. A indústria está quebrando? Certamente há talentos aí fora que sempre irão se dar bem, mas está quebrando no sentido de não termos mais grandes identidades, estas figuras maiores do que a vida. Agora é apenas um artista depois do outro.

CR: Eu acredito que é por conta desta nova independência encontrada pela internet.

CY: Estamos em um momento de transição.

CR: Certamente é um momento de transição. Mas quando eu digo que é um estado de encubação, eu digo porque agora nós vamos presenciar o renascimento da música de verdade. Isto é porque havia uma época onde você tinha um Earth, Wind and Fire ou Michael Jackson com um disco como Off The Wall, onde todos trabalhavam duro pra caramba e soava maravilhoso. Uma gravadora não daria chance a eles se não soassem como Chris Brown ou Rihanna, porque não é o que eles procuram.

Agora, de forma independente, quando se torna a coisa mais tocada da internet e as pessoas não têm escolha além de seguí-la, a gravadora acaba patrocinando.

CA: A indústria em que trabalhamos apareceu com esses grandes artistas como Michael, os U2s, os Bruce Springsteens, os Dylans e de repente decidiu, sabe o quê? Nós vamos dar a vocês Lindsay Lohan. Nós vamos dar a vocês Paris Hilton. Nós vamos dar a vocês Kelly Osbourne. E o público sentou e disse, 'Isto é o que você tem a me oferecer? Eu não vou pagar $17,99 por isto. Ao inferno isto, eu roubo uma música na internet.'

Ah, me repreenderam na Sony uma vez e eu vou contar. Eu sugeri que deveríamos permitir que cada artista novo tivesse seu primeiro single para download de graça na internet. 'Então, você realmente não quer trabalhar aqui por muito tempo'. Eu disse, não, eu quero. Ele disse, 'Bem, nossa divisão de publicação não vai gostar disto, tampouco os artistas'. Eu disse, sabe o quê? Talvez você convença três de cinco pessoas. Talvez você convença duas de três pessoas que amam o artista e que queiram comprar o single, mas isto foi após conversar com minha sobrinha que tinha 13 anos na época. Eu perguntei, 'A que loja de discos você vai?' E ela respondeu, 'Loja de discos?' Bem, tinha uma Coconuts perto de onde ela morava. Uma Sam Goody's também. Ela diz então, 'Eu não vou a uma loja de discos em três anos'. Eu disse, 'Você tem 100 CDs no seu quarto'. E ela, 'Eu os consegui pela internet'.

CV:
 Porque ela compra pela Amazon.com.

CR: É isto o que está acontecendo. Amazon.com, Itunes, o que seja. Estou te dizendo, a música vai melhorar muito. Vai se tornar interessante. Vai ser boa e interessante e todo mundo vai perceber isto, porque eu não sei se você teve a chance de assistir o que a BET tentou fazer na outra noite.

CY: Foi horrível. Foi detestável.

CR: Foi horroroso. Simplesmente não fazia sentido. Foi uma vergonha. A melhor apresentação daquilo foi o The O' Jays e eles são caras velhos mas eles carregam verdade. Todo o restante é puramente lixo.

CY: Os Beatles, as Supremes, estes foram grupos que são parte da história da música. E você olha os grupos de hoje e pergunta si mesmo, quantos destes grupos serão realmente lembrados daqui a 50 anos?

CR: Não há ninguém especial agora. Os O' Jays eram especiais. Os Beatles eram especiais. Por que eles eram especiais? Os Beatles sentavam e trabalhavam para serem especiais. A combinação de John Lennon e Paul McCartney compondo e eu não sei se você já prestou atenção nisto, mas eles eram o oposto um do outro. Era o que tornava tudo isso louco. Era brilhante.

CY: E agora todo mundo só quer gravar um disco, recolher o cheque e ir para casa.

CR: Ah sim. E todo mundo tem a audácia de dizer que Chris Brown é o próximo Michael Jackson.

CY: Você está zoando comigo?

CA: Mas eles falam sério.

CY: Eu sei, mas eu tô perguntando se você tá zoando comigo? Eles podem até falarem sérios mas, cara, você tá zoando comigo?

CR: É como eu me sinto em relação a isso.

CR: É como eu me sinto em relação a isso. E sabe, há momentos em que eu estou no estúdio e digo, nossa, não consigo acreditar que estou trabalhando com esta pessoa e ela é deste modo. E todos eles tem a audácia de serem grosseiros.

E aí você trabalha com um cara como Michael Jackson que quando estava atrasado, quando ele deveria chegar no estúdio ao meio dia e apareceu quinze para às uma, se sentiu tão mal pelo atraso que ficou se desculpando por toda a gravação. No dia seguinte, ele mandou uma cesta gigantesca porque conversamos sobre filmes e sobre o quanto eu amo filmes.

CY: Com todo tipo de filme nela.

CR: Meu Deus, tinha provavelmente 100 DVDs. Tinha pipoca, doces, todos os tipos de livros sobre curiosidades de filmes, todo tipo de coisa. E novamente o cartão dizia, 'Me desculpe por não respeitar o seu tempo.'

CY: E é justamente o pensamento que conta. Absolutamente!

CR: Certo. Eu diria ao Mike, que horas você quer começar amanhã? Ele diria, 'Cory, você é o chefe. Você me diga o horário. Se você quiser que eu apareça às sete da manhã, eu aparecerei.' Ele disse, 'Você é o chefe. O que você me disser.'

CY: O que eu acho interessante nestes comentários é o modo como a mídia o retrata, como um cara que queria sempre fazer as coisas do jeito dele.

CR: De modo algum, de modo algum. É como eu disse. Se simplesmente o mundo parasse e prestasse atenção.

CA: Parando por um minuto e voltando ao presente, eu estou horrorizado em pensar no tipo de tributos a Michael Jackson que vão sair. Fico horrorizado em pensar no que a sua família pode tentar lançar. Horrorizado em pensar que discos as gravadoras vão tentar montar.

CR: A coisa que eu quero ver sair é, bem, Michael estava guardando toda a gravação da Victory Tourporque ele é dono de toda a gravação da turnê. Eu costumava implorar a ele o tempo todo. Na verdade, eu tenho um DVD ineditado dela.

CA:
 Talvez Cory mostre um dia para você.

CY: Ah, ele me emprestará e eu prometo que o devolverei depois.

CR: É maravilhoso. O cara não dublou nada. Sua voz soava fantástica. É incrível. Ele dança o show todo. Ele fazia tudo assim. Ele se condicionou para poder fazer tudo isto.

CA: Naquele show de duas horas e meia que assistimos, no Brasil, ele nunca deixava o palco. Quando Michael deixava o palco, era por um minuto para trocar de roupa e era realmente um minuto. Não eram dez minutos. Por acaso, alguém se preocupou em falar sobre os pés de dançarino, em como ele sofria com isso? Alguém se preocupou em olhar como esse garoto dançava? Quem idolatrava Michael Jackson? Fred Astaire. Ele era o cara.

CA:
 São tantas histórias. São tantas coisas. Michael adorava sentar e contar histórias. Ele adorava falar, falar, falar, sobre tudo. Toda vez que ele ia a uma cidade eu lembro que ele queria ir a uma livraria. Eles fechavam a livraria para ele ir comprar livros. Ele lia muito. Ele me educava sobre a África e o quanto a África era bonita. Ele disse, 'Você sabe, as pessoas não querem que você saiba o quão bonita a África é porque elas estão lá roubando-na de todas suas riquezas.' Mas ele disse, 'É o lugar mais bonito que já estive em toda a minha vida'. Ele me trouxe fotos. É maravilhoso. Lembra-se Chris, do David Blaine se enterrando vivo?

CA: Sim, claro que me lembro. Ele costumava se divertir com a gente em nosso andar na Sony. Você não se lembra, mas ele costumava ficar lá com a gente na época em que o seu amigo 50 Cent nos trazia café.

CY: Esta é uma história bem estranha, mas continue.

CR: Então, David Blaine se enterrou vivo no edifício Trump.

CY: Trump National Towers.

CR: Certo. Quando eu contei ao Michael o que estava acontecendo, ele virou, 'Você só pode estar brincando?' Eu disse, tô te falando. Ele nem sequer sabia quem era David Blaine. Eu comecei a enviar videos para ele porque não tínhamos YouTube na época. Eu mandei filmagens para explicar a ele quem David Blaine era. Ele ficou tão fascinado. Entramos em uma van naquela noite e fomos ver David Blaine.

Nós pulamos fora da van e ele tinha um disfarce e ninguém sabia que era ele. Ele saiu da van, chegamos lá, sentamos e ele ficou fascinado. Foi engraçado. Então rimos porque ele disse, 'Sabe o que? Na maioria das vezes alguém vai achar que é um cover meu e não eu mesmo. Às vezes eu posso sair assim.'

CV:
 Você parece ter tido muitas conversas pessoais com ele, mas você já chegou a conversar com ele sobre cirurgia plástica?

CR: Sim.

CV:
 E o que ele lhe disse?

CR: Ele disse, 'Qual é a diferença entre eu e Sylvester Stallone e qualquer outro em Hollywood?' Ele disse, 'E daí? Minha doença de pele, eu não quero ser branco.' Ele disse, 'Não é o que estou tentando fazer, mas não pude evitar minha doença de pele. Eu tentei fazer uma cirurgia para igualar minha pele e não ficou do jeito que eu queria que ficasse, mas esta não é a razão pela qual eu me tornei um homem negro de pele clara.' E quanto ao nariz ele disse, 'Eu odiava meu nariz assim como Sylvester Stallone odiava o dele.'

CA: Olhe o que o pai dele lhe dizia.

CR: Sim, ele disse, 'Eu detestava meu queixo. Eu detestava meu nariz.' Eu disse, 'E daí?' E ele respondeu, 'Por que implicam só comigo?' Ele disse, 'Eu posso lhe mostrar 20 pessoas em Hollywood que fizeram plásticas no nariz, lábios, botox, todo tipo de coisa.'

CY: Há mais alguma coisa que vocês gostariam de dividir?

CA:
 A única coisa que quero dividir é que meu tio costumava ser muito amigo de Bill Cosby. No final dos anos 60, ele me deu um dos primeiros discos que tive. Eu acho que o primeiro disco que tive foi do The Monkeys. Ele me deu um disco que Michael Jackson fez com Bill Cosby. Eu ainda o tenho. É meio como um submarino amarelo com um encarte lindo dentro. Um dos meus ítens que mais gosto e mal posso esperar para vê-lo no sábado.

Sobre meus pensamentos em relação a Michael Jackson, eu apenas espero que as coisas se resolvam nas próximas semanas. Eu espero que algumas pessoas comecem a discutir todo o bem que ele fez, porque se você for pesar o bom contra o ruim, ele é a pessoa mais famosa do mundo. Está na TV 24 horas por dia há seis dias. É apenas o que eu espero. Deus o abençõe e deixei-o descansar em paz e nós todos o veremos em algum dia no futuro de nossas vidas, e tenho certeza que ele estará cantando e dançando pra cacete.

CR: No sábado eu fui à igreja e conversei com meu pastor porque queria esclarecer uma coisa. Eu queria ter certeza de que não vou ser atacado ou causar problemas por me expressar do modo que me expresso. Eu disse, para não comparar quem quer que fosse a Cristo porque não há comparação. Se você olhar por um segundo para este mundo em que vivemos dentro do mundo de Deus, que é chamado de mundo do entretenimento.

CV:
 Sim, isto é justo.

CR: Michael para mim, não só para mim como com certeza para dezenas e dezenas e centenas de pessoas que se sentem do mesmo modo. Michael Jackson era como a figura de Cristo para nós. Saber que este homem, nos últimos 15 anos, foi atacado, crucificado, difamado, entende, todo mundo preferia falar algo negativo, como ele querer comprar os ossos do homem elefante. E daí? Sabe o quê? Eu os compraria também.

CA:
 Eu também.

CR: Eu acho legal. Eu o faria também. Mas porque era ele, sempre preferiam a negatividade a algo positivo. Meu coração está totalmente quebrado. Minha inspiração, a luz da inspiração que eu tinha desde criança está quase apagada neste momento para mim. Eu não sei, porque eu não fui um dos discípulos que seguiram atrás de Cristo e que tiveram de olhá-lo sendo crucificado.

Mas tenho certeza de que seus corações estavam tão quebrados como o meu está agora. Voltando agora às questões do entretenimento, tudo o que posso dizer é que estou feliz por vivermos em uma época onde podemos fazer as coisas meio independentemente, e não termos que lidar tanto com os hipócritas apesar de estarmos sempre rodeados por hipócritas nesse negócio. É uma tragédia. Eu sempre imaginei como seria se, bate na madeira, algo acontecesse com Michael. Eu não acho que queria sentir isto um dia. Eu sempre pensei, meu Deus, o que aconteceria? E bem, aqui estamos. E até agora, tudo o que aconteceu é praticamente igual ao que imaginei que aconteceria.

CA: Cory e eu nos falamos inúmeras vezes por dia. Isto basicamente pelos últimos 20 anos.

CY: De verdade.

CA: Quando isto aconteceu, eu estava mandando um e-mail para o Cory e, de repente, sua esposa me ligou e me contou. Eu não soube de Cory por três dias. Emails, ligações, sem respostas. Eu sabia que ele estava de luto e eu estava entorpecido com o que aconteceu.

CR: Porque eu chorei por três dias.

CA: Ele me ligou na manhã de segunda e eu acho que esta é uma citação bem apropriada, 'Ok, é segunda. Nós temos de voltar ao trabalho porque Michael teria voltado ao trabalho'.

CR: E esta é a verdade. Michael teria voltado ao trabalho. Como eu disse, ele lidava com os coisas, teve suas feridas. Ele era um dos caras mais durões que eu já conheci, esta é a verdade.

CV: Você me contou uma história completamente diferente da qual a mídia em geral está contando. O que você me diz é que a indústria não está focando no quão importante este cara era como um todo?

CR: Não.

CA: Não. Nem perto disso.

CR: Eles nem riscaram a superfície.

CY: Como você sabe, neste ciclo de notícias 24 horas, o que é importante é o que eu lanço, o quão rápido eu lanço e quem está escutando.

CR: Este tipo de notícia, é a razão pelo qual o National Enquirer existe.

CY: Ainda existe. Eu não sei se você ouviu, mas a revista Vibe fechou hoje. Com os tablóides online agora, não me surpreenderia se o National Enquirer tivesse o mesmo destino. Eu não sei se vocês sabem disso, mas eles têm tido problemas financeiros nos últimos seis meses. Agora, é tudo online.

CR: Sim, eu acredito nisto e foi o que eu disse. Sabe o quê? Isso dá a liberdade para pessoas como você poderem fazer algo certo.

CY:
 Verdade.

CR: Ao invés de seguir o Enquirer, Star Magazine, que eles posicionam bem ao lado dos caixas pra quando você passar ler alguma manchete de merda na capa. Michael Jackson dorme numa câmara hiperbárica.

CA:
 Não. É "Obama é gay" na semana passada.

CR: Disto que estou falando, chega disto. Eles sempre vão optar pela baixeza maior ao invés de dizer "vamos começar a contar quantas crianças tiveram suas vidas mudadas por Michael Jackson" ou algo assim. Aqui está algo que nunca foi discutido. Mas os garotos que alegadamente acusaram Michael eram crianças que se envolveram ou cujos pais se envolveram em extorsões antes.

CY: Eu lembro do recente, ela tentou fazer os filhos se machucarem na JCPenney e processá-los por danos físicos ou algo assim.

CR: Sim e então eles tentaram fazer algo com George Lopez. Tentaram dizer que ele roubou o dinheiro deles no show de comédia quando eles estavam lá. Ele disse que eles roubaram uma de suas carteiras.

CY: Pensando bem, lembro que isso foi mencionado por 10 segundos e apenas uma vez.

CR: Porque não é importante para o público.

CA: A mídia começou com esse frenesi com o caso OJ Simpson. E mantiveram com Bill Clinton. Eles bateram muito em Bill Clinton. Foram atrás de George Bush a quem eu não gosto e não apóio, mas eles fizeram um bom trabalho nele também. Agora eles vão atrás de Michael Jackson e não se iluda, em um ano ou dois vão atrás do meu presidente também.

CR: Bem, eles foram atrás de Michael Jordan e suas apostas.

CY: É, ele jogava e era infiel e nada disso é surpreendente no nosso meio. Isso é problema dele.