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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A Turnê, o Dinheiro, a Magia (Newsweek, Julho 1984)

Newsweek, 16 de julho de 1984
Por Damien Shields

Após meses de espera, a problemática e polêmica turnê de Michael Jackson finalmente começou em Kansas City e o enigmático astro está fazendo jus à sua reputação como o relutante 'Flautista de Hamelin' do pop.

Era a típica plateia de Michael Jackson - mães com crianças, adolescentes com pais, negros e brancos juntos, tímidos, sóbrios e amigáveis. Eles haviam pago caro pelos ingressos e aqui estavam, preenchendo quietamente o estádio Arrowhead em Kansas City na última noite de sexta-feira para a estreia da mais alardeada e debatida turnê dos últimos anos - a turnê Victory de Michael Jackson, sua última com seus irmãos, os Jacksons. Enquanto o sol se punha e as luzes diminuíam, a excitação crescia. Quando os Jacksons finalmente apareceram, em frente a um set de luzes ofuscantes, Michael concedeu a bênção com sua marca-registrada, a luva de lantejoulas, e a plateia de 45.000 pessoas gritou em aprovação. Correndo a todo vapor, a banda começou a tocar Wanna Be Startin' Somethin' - e Michael se lançou a quase duas horas do exibicionismo vertiginoso que o tornou talvez o músico mais popular no mundo hoje.

Após meses de confusão, polêmicas e explosões esporádicas de histeria popular, frequentemente espalhadas pela cobertura frenética da imprensa, a turnê dos Jacksons - anunciada como o show de rock and roll mais lucrativo já montado - estava finalmente a caminho. A turnê está atualmente agendada para visitar cerca de 13 cidades, com mais alguns locais a serem anunciados. A maioria das datas - cerca de 50 ao todo - serão em grandes arenas como o Arrowhead. É esperado que a turnê gere cerca de U$50 milhões - embora estimativas variem - talvez quebrando recordes dos Beatles, Rolling Stones e Who. "Até a minha mãe está falando sobre o show," ri Bob Case da estação de rádio de Seattle, KUBE. "Este vai ser O evento dos próximos 10 anos. É como o Super Bowl - você não se importa com quem está tocando, você só quer assistir."

Em muitas cidades, o show dos Jacksons será o ápice de meses de uma espera febril - e, em alguns casos, de notórias reclamações. Todos presumiram que a turnê apresentaria complicados problemas logísticos e de segurança - particularmente porque a maioria das preparações foi arruinada por tumulto nos bastidores. Antes da última quinta-feira, quando Michael anunciou novos planos para a venda de ingressos e a doação de sua parte para a caridade, relatos de ganância e incompetência ultrajaram alguns fãs e provavelmente contribuíram para as lentas vendas nas bilheterias de Dallas. Mas outros fãs demonstraram seu entusiasmo com lealdade. Em Kansas City, a comoção teve início em junho. Quando os jornais contendo os primeiros formulários oficiais para pedido de ingressos saíram da impressão nas primeiras horas de 19 de junho, os fãs já faziam fila para comprá-los. "É ridículo!" disse o DJ Roy Leonard, que tem acompanhado a mania por Jackson para a estação de rádio WGN em Chicago: "As pessoas estavam roubando jornais dos quintais das outras."

Big Brother: Como cada ladrão de jornal logo se deu conta, o show de Michael não era um alvo fácil. Fãs ansiosos eram instruídos a enviar um vale postal (quatro ingressos por U$120), sem garantia de uma data específica, um bom lugar - ou sequer ingressos. Apesar do preço inflexível e da entrega incomum (os ingressos deveriam ser entregues aleatoriamente), compradores de Kansas City lotaram os correios atrás de vale-postais - 15.000 em um dia. No restante do país, líderes civis e mídia local faziam abaixo-assinados para que Michael visitasse a cidade deles em uma de suas paradas. Na séria Boston, o tablóide local promoveu um cupom que gerou 30.000 assinaturas, e uma estação de rádio organizou um rally de 5.000 fãs, que se amontoaram na Boston Common entre um outdoor gigantesco de Michael - um Mago do Funk de 25 anos, que olhava de forma desconfortável feito o Big Brother. Na cidade nativa de Jackson, Gary, Indiana, cerca de 30.000 cidadãos peticionaram para que Michael, sob a ordem do prefeito Richard Hatcher, voltasse para casa - pelo menos por uma cerimônia. Até o presidente entrou na onda; quando Jackson visitou a Casa Branca em maio, Ronald Reagan pessoalmente insistiu a ele que se apresentasse em Washington. Para não ser ultrapassado, o candidato à presidência Jesse Jackson fez questão de ressaltar que iria encontrá-lo sábado passado em Kansas City.

Tal é a magia do novo 'Flautista de Hamelin' do pop americano. O fenômeno mais explosivo desde os Beatles, ele desafia fácil categorização. Como James Brown, ele é o proeminente músico pop negro de sua era, um mestre do canto soul e da dominação apaixonada do palco, capaz de dançar com uma precisa fúria que é inovadora, mas ainda mergulhada na tradição negra. Como os Beatles em seu início, ele é uma mestre de confecções musicais otimistas, às vezes criadas em colaboração com o mais popular de todos os ex-Beatles, Paul McCartney. Como Pat Boone, o protótipo dos ídolos adolescentes do rock, ele é fofo, saudável e religioso. Ele é um virtuoso dos estúdios modernos; mas como Fred Astaire e Frank Sinatra, ele aspira ser um entertainer dos velhos tempos. Ele é um deslumbrante performer ao vivo, mas também um notório recluso com uma mística de outro mundo - imagine Howard Hughes e E.T. em um só. Como Judy Garland ou Johnny Ray, seu encanto é bizarro - ele é completamente diferente de você e de mim, com um traço de fogo que imprevisivelmente acende seus olhos.

Em Kansas City, a primeira parada da turnê que agora segue para o estádio do Texas fora de Dallas (13-15 de Julho), o Gator Bowl em Jacksonville, Fla. (21-23 de Julho), e o Madison Square Garden em Nova York (2-5 de Agosto), Michael presidiu um dos mais espalhafatosos e grandiosos espetáculos na história da música pop. O show abriu com um curioso aparato envolvendo enormes e pesados monstros à-la Muppets, uma mágica espada incandescente, e um cavaleiro em viseira e armadura brilhante - King Arthur encontra Luke Skywalker. (O cavaleiro era Michael, é claro.) Havia lasers, luzes estroboscópicas e bombas de fumaça. Havia uma aranha controlada eletronicamente que quase comeu Michael. (Ele escapou). Havia mágica, ilusão e fogos de artifício - labaredas e explosões no palco durante o show e no céu, ao final dele.

Mas foi a música, afinal de contas, que levou a plateia ali - e o set inteligentemente bem estruturado incluiu um pouco de todo. Havia algo antigo: o clássico funk-pipoca de I Want You Back, o primeiro hit do Jackson 5 na Motown, há 15 anos atrás. Havia algo novo: quatro canções de Thriller, o álbum-solo arrasa-quarteirões de Michael. Em meio à toda pompa, teve até algo mais "blues": uma versão extendida com toque gospel de I'll Be There, cantada acapella por Michael - uma tocante lembrança de suas raízes no estilo soul de Jackie Wilson. Michael se movia sem esforços de baladas (a luminosa Human Nature) e rock (uma feroz Beat It) para funk nervoso (a salsa-apimentada Lovely One). Em Working Day and Night, o grupo apresentou uma coreografia rodopiante, enquanto no finale do show, Shake Your Body, Michael se transformou num ato livre de rodopios, paradas e body-popping. Não foi apresentado nenhum material do novo álbum dos Jacksons, Victory - talvez porque, lamentavelmente, seja um disco irregular. Jermaine Jackson, como artista solo em seu próprio méito, apresentou três de suas músicas; mas ele não estava com boa voz, e em muitos momentos parecia desafinar.

Do começo ao fim, há apenas um real estrela no show; pode ser apresentada como uma turnê dos Jacksons, mas ela é de Michael o tempo todo. Quando ele canta uma lacrimosa balada como She's Out of My Life, ele faz tolices sentimentais parecem paixão honesta. E quando ele apresenta Billie Jean, ele parece deslizar sem peso algum. Ele dança com a verve de tirar o fôlego de seu predecessor, James Brown, a fragilidade sedutora de Diana Ross, a paixão desajeitada de Charles Chaplin, a alegria nervosa de um homem, assustado por estar vivo. A plateia suspira e grita não pelo espalhafatoso e tecnológico cenário, mas pela graça e beleza de um brilhante entertainer.

Se tudo der certo, a turnê dos Jacksons deve apenas intensificar a tempestade de interesse costa-a-costa no mais famoso Jackson de todos. No Celebrity Look-Alikes de Ron Smith em Los Angeles, o dono Smith relata que a mania - e o número limitado de concertos - significa trabalho dobrado para os seus 20 covers - escolhidos a dedo - de Michael Jackson. "Isto me lembra da época de Elvis Presley," diz Smith. "Só que Jackson é maior. É como Marilyn Monroe, os Beatles." Em Miami, a dona da livraria Downtown, Raquel Roque, cobriu a porta de sua loja com capas de livros sobre Jackson. "A coisa engraçada sobre ele," conta Roque, "é que quanto mais novas as crianças - quatro ou cinco anos de idade - mais elas gostam dele." Por todo o país, crianças podem comprar buttons, posters, bonés de Thriller, chaveiros, mochilas, chicletes, luvas brancas com lantejoulas, e até um boneco de Michael Jackson.

Tais acessórios não são considerados triviais. Quando funcionários da Bound Brook, em Nova Jersey, tentaram banir a luva em março passado, alunos armaram um protesto - e conseguiram uma assembleia para decidirem se poderia continuar a usá-la. (Eles perderam.) Ou considere o caso de Lillie Frierson, 13, de Los Angeles. Michael Jackson não come carne. E tampouco Lillie. Michael dorme em um colchão no chão. Assim fazia Lillie, até sua mãe ordenar para que voltasse à cama. Michael usa jaquetas decoradas. Assim como Lillie, uma vermelha de U$350 que sua mãe, Doris, comprou para o seu aniversário. "Eu devo ser quase tão louca quanto ela," suspira Doris. "Eu espero que nada ruim aconteça com ele um dia, porque se acontecer esta criança vai precisar de ajuda."

Nos dezenove meses desde que a Newsweek (10 de janeiro de 1983) fez o perfil de Michael Jackson pela primeira vez, ele, acima de tudo, se provou um gênio no marketing de alta tecnologia da música - levando sua fortuna pessoal a estimados U$75 milhões. Desde seu lançamento em dezembro de 1982, Thriller, seu mais recente álbum solo para a Epic Records, vendeu cerca de 35 milhões de cópias no mundo todo - fazendo dele o disco mais vendido na história da indústria fonográfica até o momento. Jackson lançou sete singles do álbum, e colocou seu estilo vocal único em quatro duetos que entraram para a lista dos mais vendidos, o mais recente, State of Shock, sendo uma gravação dos "Jacksons" com participação de Michael e Mick Jagger dos Rolling Stones. Um inovador no uso de videoclipes do rock, Jackson se tornou um permanente na MTV, o canal do rock na TV à cabo.

Um documentário de 60 minutos sobre a criação de Thriller, seu grandioso vídeo de rock de U$1.2 milhão, já se tornou um dos videocassetes mais rentáveis já lançados, vendendo 750.000 cópias no mundo todo em menos de sete meses. Criando uma aura de excitação contínua, os clipes de Jackson o ajudaram a conseguir um feito sem precedentes: por cerca de um ano, quase sem novas músicas, poucas aparições públicas e sem nenhuma performance ao vivo que tradicionalmente afetasse a fusão simbiótica entre plateia e artista, o interesse nele não apenas se sustentou, mas intensificou.


(Parte 2) 

Paradoxo: O que isso sugere, é claro, é que não é apenas a habilidade inegável de Jackson como showman que manteve o interesse do público; é também o impressionante ar de mistério e paradoxo que o envolve, mesmo com os seus clipes sendo exibidos em todos os lugares. E, talvez acima de tudo, há também a fascinação pela sua curiosa voz ajuda. Desde o auge de Presley, o público questiona a virilidade de certos astros do rock. Mas nunca antes tais perguntas foram feitas tão abertamente, persistentemente e de forma tão explícita, na face de tantas negações. Até uma revista familiar como a Parade encampou estas perguntas e tentou dissipar os rumores: estaria Jackson tomando hormônios para manter sua voz afeminada? Teria sido castrado? Estaria ele passando por cirurgias de mudança de sexo? (Michael ouviu pela primeira vez este boato em 1977 quando, como ele descreveu em uma entrevista da época, uma fã correu para ele e exclamou, "Não é verdade, não é verdade!" "O que não é verdade?" perguntou Michael. Soltou a fã: "Você não é uma menina!").

Já que Michael se recusou a dar entrevistas no último ano e meio, as histórias recentes tiveram de depender de citações antigas, relatos de segunda mão e, às vezes, aparições surreais do recluso. Um repórter de uma proeminente publicação nacional, reduzido a aceitar uma entrevista com os pais de Michael e uma visita guiada à mansão do cantor em Encino, Califórnia, por acaso flagrou Michael e um colega em seu quarto - "eles estavam próximos" ele escreveu, com insinuações típicas: as luzes estavam diminuídas, o aperto de mão de Michael parecia como "sentir uma nuvem", a mão de seu amigo estava "úmida".

A briga da mídia por historinhas tão lamentáveis é compreensível. Colocar Jackson como manchete se tornou uma forma certa de conseguir atenção. Muitos jornais locais, em cidades como Ornaha e Dallas, na esperança de aumentas as vendas, imprimiram com alegria os formulários oficiais para os pedidos de ingresso para a turnê dos Jacksons - e de graça. Três biografias sobre Michael já venderam mais de 1 milhão de cópias cada. "Para biografias de um rock star, elas têm sido fenomenalmente bem-sucedidas," afirma William Goldstein da Publisher's Weekly. "A única analogia recente são livros ligados a filmes como 'E.T.' ou 'Star Wars'."

Sobriedade: Nestas biografias, libertinagem e fofocas são colocadas de lado. Em lugar destas, após recontar sua saga - da fria Gary, Indiana, para a ensolarada Hollywood, um astro aos 11 anos - cada livro simpaticamente peneira alguns dos tópicos incompreensíveis que tornaram Michael um assunto de conversa nacional. Alguns exemplos: ele fez cirurgia cosmética para dar a seu rosto, "um aspecto europeu." Ele é visto frequentemente com os amigos Brooke Shields e Emanuel Lewis, o astro anão da TV. Ele leva uma vida de notável sobriedade e jejua todo domingo - "muito longe do estereótipo da vida glamurosa de um superastro." Sua vida é retratada com reverências - como um conto de fadas edificante: "Onde termina Michael Jackson e começa Peter Pan? Suas semelhanças são inquietantes!"

Em uma cultura popular onde crescer há muito é considerado uma faca de dois gumes, não é surpreendente que um homem-criança de bom coração ressoe o mesmo acorde. Mas nos últimos meses, uma maré de divergência engoliu Jackson no tipo de polêmica que nenhum pop star experimentou desde que John Lennon declarou que os Beatles eram mais populares que Jesus. Sobetskaya Kultura, o jornal cultural soviético, denunciou "O Thriller" como "um grande vigarista do show-biz", hipnotizando os jovens e mantendo suas mentes fora da política. O colunista "T.R.B." no The New Republic e Boston Globe questionou em um editorial se é saudável endeusar alguém que parece viver em uma bolha de fantasia infantil. "Você disse que quando Thriller entrou no Guinness Book of Records você sentiu que havia conquistado algo," o crítico de rock Dave Marsh escreveu recentemente em "Carta Aberta Para Michael Jackson": "Michael, isto é assustador. Você está tão desligado do prazer e inspiração que você emprestou a todos nós do mundo real? Os números são mais importantes que a alegria?"

Modelo: O fato de Jackson ser o ídolo internacional negro mais famoso desde Muhammad Ali deu ao debate uma reviravolta incomum. Embora o presidente Reagan tenha enaltecido Jackson como um modelo de moderação para a juventude da América e a NAACP tenha homenageado os Jacksons em sua convenção em Kansas City na semana passada, outros ídolos negros são abertamente hostis. Louis Farrakhan, o polêmico muçulmano negro, declarou que Jackson é uma influência "feminina e maricas" para a juventude negra. Em uma conferência nacional em maio sobre a família negra, a sociologista urbana Asa Hilliard perguntou "por que o modelo de Michael Jackson é Peter Pan; por que ele faz as sombrancelhas e fez plásticas no nariz. Então devemos nos perguntar, é este o modelo que queremos para nossos filhos? Michael Jackson com sua luva de lantejoulas? Michael Jackson que não quer crescer?"

"Os intelectuais negros suspeitam de qualquer figura negra abraçada pela América branca," retalia Nelson George, o autor de "The Michael Jackson Story" e provavelmente o melhor autor negro a escrever sobre música popular negra na América. "O que é importante sobre Michael," diz George, "é a sua dedicação. Ele tem um dom natural, mas também é totalmente disciplinado. Além disso, o que é o Super-Homem além de uma fantasia infantil de onipotência? As crianças sempre gostaram desse tipo de coisa. Stephen Spielberg e George Lucas prosperam com isso. Michael é apenas sintomático de uma fase adolescente na cultura popular americana."

Isto é verdade. Mesmo assim, apesar de seu real talento - e sua insistência na perfeição - há algo deprimente sobre o fenômeno Michael Jackson, bem distante das polêmicas da turnê e debates sobre sua adequação como modelo. Apenas compare Jackson com seus antecessores. Elvis Presley e os Beatles em seu auge excitaram seus fãs e os levaram a descobrir neles mesmos novos desejos, novos sonhos, um mundo de novas possibilidades. Com Elvis, era uma questão de se sentir livre. Cortar os cordões das pálidas apirações da Guerra Fria americana, uma geração de crianças suburbanas descobrindo um novo tipo de sensualidade e energia compartilhada. Os Beatles, é claro, levaram outra geração a uma turnê mágica e misteriosa que celebrou a ironia, inteligência, experimentação e abertura para se aventurar a novas experiências.

O quão diferente é o fenômeno Michael Jackson. Nunca antes um ídolo rock and roll pareceu são completamente definido por medo e evasão. Está lá no conteúdo das melhores canções de Jackson: Billie Jean, afinal, é sobre um homem em plena luta contra uma mulher predatória, que o falsamente acusa de engravidá-la. Está lá em seus clipes: no roteiro de Billie Jean, Michael escapa da vigilância de um detetive sinistro com sua habilidade de desaparecer no ar. Está lá, finalmente, na sua complacente atitude de pegar sua música e transformá-la para os propósitos comerciais mais grosseiros: os temas de perseguição e falsas acusações em Billie Jean podem revelar algo dos pesadelos particulares de Michael, mas ao deixá-la se transformar em comercial de vendas da Pepsi-Cola, ele a drenou de todo o seu sentido pessoal para se tornar um jingle vazio.

Desajeitado: O comportamento evasivo de Michael, entretanto, não é meramente uma questão de manipular sua imagem para criar uma mística marqueteira. Em público, especialmente em ocasiões de cerimônias, quando ele veste um de seus figurinos espalhafatosos com lantejoulas e dragonas, ele parece, apesar de sua fachada soturna criada pelos óculos escuros, incrivelmente estranho, desajeitado, oprimido. Quando ele visitou o presidente em maio, Jackson se escondeu brevemente em um banheiro da Casa Branca - a perspectiva de encontrar tantos estranhos aparentemente o enervou. Tal comportamento gera simpatia; se ele pudesse ser comprado, como uma boneca Cabbage Patch, os fãs correriam para adotá-lo. Estas são as mesmas pessoas que são intensamente curiosas sobre sua vida interna: suas esperanças, seus hábitos, sua identidade sexual. Ele escolhe guardar tais coisas para si mesmo, e sua reserva sugere uma fragilidade inacessível. Como uma miragem, ele parece pronto para evaporar diante de nossos olhos.

Não é à toa que a plateia em Kansas City berra em gratidão simplesmente por observá-lo dançar e se aquecer em sua presença corpórea: as pessoas querem uma prova de que ele não é simplesmente um truque de magia - feito de pó de fadas e fogo. Sim, Virginia, há um Michael Jackson. Ele é um incrível cantor, um excelente dançarino, um hipnotizante performer. Ele está no palco agora, deslizando pelo seu palco de Star Wars, transitando em seus passos de dança. Como Michael diria, "É mágico." Em alguns minutos, ele será transportado de volta à segurança e ao casulo no qual ele se sente confortável, esperando para ser levado de helicóptero para a próxima parada desta incrivelmente peculiar odisséia do rock and roll. Talvez a sua cidade seja a próxima.

Uma Turnê com Chefes Demais

De início, havia apenas um flash de uma luva de lantejoulas acenando acima da multidão de seguranças e conselheiros quando o magnificamente vestido Michael Jackson foi trazido para a coletiva de imprensa. Em sua voz sussurrante, com os irmãos Randy, Tito e Marlon em pé atrás dele, ele começou a ler uma declaração. Ingressos para a turnê de shows Victory dos Jacksons não teriam mais de ser pedidos em blocos de quatro a U$30 cada, com reembolsos atrasados se o comprador perdeu na loteria computadorizada por ingressos disponíveis. Este novo procedimento significa que "ninguém irá pagar a não ser que consiga o ingresso." Então ele anunciou que havia sido sua intenção doar seus lucros na turnê para instituições de caridade. Por que? alguém perguntou após Michael rapidamente deixar a coletiva. "Porque ele é um cara legal," disse Frank Dileo, o empresário de Michael. O que ele deixou de acrescentar foi que isto aconteceu apenas um dia antes do primeiro show em Kansas City e, como um candidato que subitamente sofre uma queda nas pesquisas, Michael pareceu sentir a necessidade de consertar alguns erros com seu público.

Na semana passada, quando uma das maiores - e, certamente, mais desorganizadas - turnês na história do rock and roll finalmente arrancou, ela ainda estava atolada em polêmicas. Por meses a história da turnê havia sido pontuada com interrogações. Quando começaria? Onde iriam tocar? Iria mesmo acontecer? Quando os ingressos finalmente começaram a ser vendidos, os fãs reclamaram sobre os preços exorbitantes e sobre não saber se eles iriam conseguí-los ou não até o último minuto. E notícias conflitantes amplamente divulgadas dentre o círculo interno da turnê. Um insider importante disse na semana passada, "Este é potencialmente o maior disastre que já foi enviado para a estrada."

Extravagante: Os problemas começaram antes mesmo do anúncio da turnê feito por Don King, o extravagante promoter do boxe, no último mês de novembro em Nova York. King foi escolhido para coordenar a turnê porque, de acordo com o irmão Jermaine, "ele era o único que queria envolver minha mãe e meu pai [Katherine e Joe Jackson]." A falta de experiência de King com turnês de rock - e as dificuldades esperadas desta - levaram os Jacksons a cogitar ofertas de não menos do que outros seis promoters no começo deste ano. Primeiramente, Russo da Providence, R.U., pareceu ter uma boa proposta; foi dito que ele deslumbrou os irmãos Jackson com uma garantia de U$100 milhões. Mas nenhum contato foi assinado, e ele saiu de cena.

No momento em que Chuck Sullivan, presidente da Stadium Management Corp. de Foxboro, Massachusetts, finalmente se tornou o promoter, garantindo U$38 milhões aos Jacksons com um adiantamento de U$12,5 milhões, a turnê começaria em apenas algumas semanas. Um homem com muita experiência na NFL mas pouca em eventos de rock, Sullivan negociou a turnê como ele provavelmente faria com o Super Bowl. O sistema de ingressos rígido, nacionalmente centralizado que Michael ordenou que fosse terminado, é sem precedentes na história do rock and roll. Sullivan também supostamente pediu por concessões exclusivas de possíveis cidades a serem incluídas na turnê - descontos no aluguel dos estádios, descontos parciais nos impostos locais, descontos em despesas de estacionamento - que algumas cidades, como Nova Orleans, por exemplo, se recusaram a oferecer. Ele havia conseguido, no entanto, agendar a maior parte da turnê em estádios de céu aberto da NFL, embora sem previsões firmes a respeito de chuva.

Gigantes estádios a céu aberto também oferecem riscos de segurança, já que os fãs tendem a empurrar uns aos outros em direção ao palco, especialmente se é um "festival" sem assentos demarcados. Mas na conscientemente segura turnê dos Jacksons, todos os lugares estão reservados. Em Kansas City, aqueles sem ingresso não conseguiram nem entrar no estacionamento do estádio, e todos passaram por um dos 38 detectores de metais. Quinhentos seguranças - cerca do dobro do número comum para um show de rock no estádio Arrowhead - estavam a postos. O pesado palco, que fez os organizadores da turnê pedirem por ajuda técnica na semana passada, também causou problemas. Sem uma pessoa sequer responsável por ele por toda a primavera, ninguém pareceu notar que o cenário monolítico, construído pelos designers do próprio Michael, ameaçava sair do controle. O vasto palco de 27 por 45 metros também requer uma gigantesca superestrutura para suportar o sistema elétrico de 12.000 volts (5.000 volts é o número normal para turnês do gênero) para a luz e efeitos especiais. Cem alto falantes (64 costuma ser o número comum para shows deste porte) estão divididos entre duas torres de 22 metros. A instalação maciça não é apenas tremendamente cara, mas ela também devora um alto número de potenciais assentos. Em Arrowhead, por exemplo, o palco dos Jacksons foi projetado para uma linha de 32 metros, e deixa ainda 42% dos 78,000 assentos fora da linha de visão.

Interesses conflitantes: Na raíz dos problemas da turnê estão não apenas a inexperiência de muitos dos que tomam as principais decisões, mas divisões dentro da própria família Jackson. Joe Jackson e os irmãos querem aproveitar o máximo desta última e lucrativa turnê dos Jacksons como um grupo. Do lado deles está King e Katherine. Michael e, até certo ponto, Jermaine, diferiram de seu pai e dos irmãos em alguns aspectos da turnê. Michael, por exemplo, queria ingressos a U$20 e se opôs à escolha de King. Os aliados de Michael são Frank DiLeo, seu advogado John Branca e Irving Azoff, presidente da MCA Records e ex-empresário dos Eagles, que trabalha como consultor da turnê. "Estamos lidando com várias entidades diferentes aqui," diz Sullivan. "Há Michael Jackson, que é um astro em seu próprio mérito; Jermaine Jackson, que é um astro em seu próprio mérito; os outros irmãos; Don King e Joe e Katherine, e os empresários dos estádios." Com todos os interesses e conselhos conflitantes de baterias de advogados e contadores, cada decisão tem de ser tomada por um comitê. "Todos são chefes e não há índios," relembra um amargo Russo, que está processando os Jacksons.

Muito dinheiro está em jogo. Sullivan tomará 25% dos lucros de estimados U$50 milhões; os irmãos dividem os outros 75%. Após pagarem sua parte dos gastos, os irmãos devem repassar 15% de quaisquer lucros para Don King e seus pais. Em acréscimo, os irmãos foram pagos em U$5.5 milhões pela Pepsi-Cola, a patrocinadora oficial da turnê, e eles devem ganhar ainda mais com os souvenirs dos shows.

Lealdade Familiar: Michael não precisa do dinheiro. Ele arrecadou U$45 milhões sozinho no ano passado, e está agora, de acordo com um amigo, planejando estrelar dois filmes e gravar uma trilha-sonora. Por que então ele está fazendo esta turnê? A razão principal, de acordo com insiders, é de que ele quer ajudar sua família. Dois de seus irmãos estão supostamente em uma má situação financeira, e seu pai declaradamente o pressionou para fazer a turnê acontecer. E apesar de seus irmãos não demonstrarem ressentimento ao sucesso solo fenomenal de Michael - "Estou feliz por ser ele e não outra pessoa," diz Jermaine - nem tudo é harmonia nos círculos familiares. Michael e seu pai, de acordo com uma fonte na turnê, raramente se falam diretamente nas reuniões.

Apesar da lealdade de Michael, sua última turnê com seus irmãos (ele nunca fez uma turnê sem eles) pode acabar o distanciando de sua família. Publicamente, ele tem tentado ser apenas um dos Jacksons. Mas a adoração de seus fãs começou a azedar na polêmica que a turnê gerou. A última gota d'água foi aparentemente a carta aberta para Michael, impressa em um jornal de Dallas, na qual Ladonnia Jones, de 11 anos, dizia que não podia guardar dinheiro para comprar quatro ingressos e perguntou, "Como você, de todas as pessoas, pode ser tão egoísta?" A carta gerou em Jackson uma tomada de atitude - mesmo que isso significasse enfrentar sua família. Se você é Peter Pan, você nunca precisa crescer. Mas se você é um astro e empresário multimilionário, você precisa começar em algum momento.



 Traduzido por Bruno Couto Pórpora

terça-feira, 29 de julho de 2014

O álbum "Victory" ecoa a nova turnê dos Jacksons (NY Times, Julho 1984)

NY Times, 7 de julho de 1984
Por Robert Palmer

A ansiosamente aguardada turnê dos Jacksons finalmente começou em Kansas City, com um verão de shows em auditórios e arenas a vir, incluindo o Madison Square Garden de Nova York, entre 2-5 de agosto. Ainda há poucos dias, contos e rumores de discórdia entre os Jacksons e seu pelotão de assessores levou alguns observadores a ser perguntaram se ia ter mesmo uma turnê. Agora que há, observadores da música pop fazem outras perguntas, e muitas tem a ver com o novo álbum dos Jacksons, Victory (Epic). O disco, que em grande medida reproduz o programa da turnê dos Jacksons, já gerou algumas reações mistas.

Encomendas antecipadas de Victory chegaram a dois milhões de cópias, o maior número antecipado de vendas da história da CBS Records. Os álbuns chegaram nas lojas na segunda-feira, precedidos pela primeira música do álbum, State of Shock, lançada como single. A canção tem arranjos e composição de Michael Jackson e apresenta um dueto entre o mais popular dos irmãos Jackson e Mick Jagger, o vocalista dos Rolling Stones.

Com a ajuda de State of Shock, uma canção de rock orientada à guitarra que vem recebendo airplay extensivo nas rádios dos Estados Unidos, e com mais a ajuda da turnê dos Jacksons, a CBS espera vender pelo menos cinco milhões de álbuns Victory até o final de outubro. Acima de tudo, Victory é uma coleção cativante e bem produzida de pop dançante por irmãos que desenvolveram estilos musicais e de composição individuais e que não parecem ter muito em comum musicalmente como antigamente, a não ser quando se juntam para harmonias vocais. Além disso, os fãs de Michael Jackson podem se sentir meio decepcionados; há menos de seu ídolo no disco do que eles podem esperar.

O álbum Victory dos Jackson tem alguns concorrentes sérios. Um deles é Born in the U.S.A. de Bruce Springsteen, atualmente listado pela Billboard como o disco mais vendido do país. Mas a maioria dos observadores da indústria concordam que um concorrente muito mais agressivo é Prince, cujo novo álbum, Purple Rain, e single, When Doves Cry, superaram o lançamento dos Jacksons em algumas localidades.

When Doves Cry de Prince é atualmente o single No. 1 na parada da Billboard, e a Warner Brothers afirma ter vendido 1.3 milhão de cópias do álbum Purple Rain do cantor-compositor-multi-instrumentista em seu primeiro dia nas lojas. Um filme concebido e estrelado por Prince, também intitulado Purple Rain e baseado no álbum será lançado no final deste mês.

Várias cadeias de lojas de discos e lojas individuais por todo o país têm relatado que, até o momento, Purple Rain do Prince superou Victory dos Jacksons em vendas. Vince Alletti, comprador chefe dos lançamentos de soul e dance-music na gigantesca loja Tower no centro de Manhattan, disse que "nesta loja, Prince está vendendo o dobro que os Jacksons."

Mas grandes quantidades do álbum dos Jacksons continuam a ser vendidas. "Eu acho que vai demorar um pouco para as pessoas se acostumarem com o álbum Victory," disse o Sr. Alletti. "Pra começar, o single, State of Shock, não é uma indicação muito precisa de como é o resto do álbum. De início, eu fiquei decepcionado com Victory, mas me vejo gostando mais e mais quanto mais ouço, e eu acho que quando as pessoas se acostumarem a escutá-lo, o álbum começará a vender muito, muito bem."

Uma pesquisa informal entre alguns dos críticos de música pop da cidade gerou descrições do álbum que variam de "um bom álbum dos Jacksons" a "é realmente muito pobre". A reação dos ouvintes, sem dúvida, dependerá em parte de suas expectativas - e estas podem ter muito mais a ver com o fato deles serem fãs principalmente de Michael Jackson ou fãs de todo o grupo.

Ouvintes que estejam esperando outro Thriller, ou qualquer álbum que apresenta fortemente Michael Jackson, o superstar entre os seis irmãos Jackson, podem não ficam impressionados. Das oito músicas do álbum, Michael Jackson cantou o vocal principal, compôs e criou os arranjos inteiramente em apenas uma canção, Be Not Always, uma balada bonita e muito pessoal, ao contrário da maioria do material do Sr. Jackson em Thriller, que já vendeu quase 35 milhões de cópias no mundo todo.

Michael Jackson também divide o vocal com Mick Jagger no rock pesado de State of Shock, o qual ele compôs e criou os arranjos. Ele divide o vocal principal com seu irmão Jermaine, que tem uma carreira musical mais bem-sucedida do que qualquer de seus irmãos exceto Michael, na composição de Jackie Jackson, Torture. Michael e Randy Jackson compuseram outra canção, The Hurt, com dois membros do grupo de Los Angeles, Toto, mas Randy Jackson leva o vocal principal.

Em outras palavras, o estilo sinuosamente soproso, muitas vezes sonhador do vocal de Michael Jackson é proeminente em apenas duas ou três das oito canções. O som do álbum é dominado pelo estilo mais gritante e soul dos irmãos Jackie, Tito, Marlon e Randy. Jermaine Jackson, que teve sucessos pela Motown e Arista, lançou recentemente um álbum solo por esta gravadora, e sua contribuição em Victory parece ser mínima, limitada ao dueto com Michael Jackson na canção pop-funk Torture.

Imagina-se que teria sido um álbum forte com a ajuda de um único produtor forte, trabalhando em estreita colaboração com os artistas, da forma como o experiente produtor-arranjador Quincy Jones trabalhou em Thriller de Michael Jackson. E a pressão para gravar o álbum em tempo para a turnê pode ter impedido alguns dos participantes de ter segundos pensamentos sobre melhorar determinadas canções, partes instrumentais, ou mixes.

Mas no todo, o álbum parece sólido o suficiente para se manter sozinho. Se a turnê dos Jacksons, com seus caros ingressos, não ofender a legião de fãs do grupo, o álbum será quase certamente o seu maior sucesso enquanto grupo. Mas se a turnê não ir bem e a próxima canção do álbum a ser selecionada como single falhe em suceder, as vendas do disco podem acabar decepcionando. Os únicos Jacksons cujas carreira podem ser prejudicadas por tal descalabro seriam os irmãos não tão bem conhecidos; Michael e Jermaine Jackson já estão trabalhando em músicas para seus próximos álbuns solo.





 Traduzido por Bruno Couto Pórpora

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A Explosão Jackson (People, Julho 1984)

People, 23 de julho de 1984
Por William Plummer, relatado por James McBride

Quatro horas antes do show na sexta-feira, os seis músicos na banda da turnê dos Jacksons andavam nos seus quartos no quinto andar do Alameda Plaza Hotel em Kansas City. Veteranos no estúdio e em concertos ao vivo, eles ensaiaram os 110 minutos de extravaganza multimídia por mais de três meses (mais recentemente durante uma passagem de som que durou até as 4 daquela manhã), mas toda a preparação não conseguiu acalmar o nervosismo da noite de estreia. Enquanto esperavam para embarcar nas vans não-sinalizadas que iriam transportar a equipe e os irmãos Jackson para o lotado estádio Arrowhead, eles fumavam muito, consultavam seus relógios e perambulavam. "Estou com uma borboleta do tamanho do [monstro de sci-fi] Rodan no meu estômago," riu o tecladista Pat Leonard, 28.

O enclave dos Jacksons no sexto andar - onde placas de "Não Perturbe" foram colocadas nas maçanetas - estava em silêncio absoluto. Dentro da suite de Michael, o próprio Homem fazia exercícios vocais. Em um quarto próximo, os irmãos Randy, Tito, Jermaine e Marlon - exceto Jackie, fora por conta de uma operação no joelho - ensaiavam harmonias e se concentravam para o começo da turnê de 13 cidades e U$50 milhões que pode marcar a despedida do grupo familiar que estreou em 1965. O irmão mais novo, Randy, estava se exercitando, tentando superar a dor na sua perna esquerda, causada por um acidente de carro em 1980. "Sabe, como um boxeador se sente antes de uma luta?" ele perguntou. "É assim que eu me sinto. Quero nocauteá-los."

"Analgésicos," acrescentou Marlon. "Nós dizemos à plateia para trazer analgésicos quando vem nos ver. Nós queremos ser tão bons, tão fortes, que os faça doer."

Os Jacksons lotaram o estádio Arrowhead por três noites, e a principal reclamação entre os 135.000 que presenciaram seu espetáculo foi de que os irmãos não os nocautearam o bastante. "Eu queria ver o dobro," disse Donna Slonaker, 19, de Lydon, Kansas, "mas eu pagaria U$30 para ver de novo."

Após meses de polêmicas, suspense e confusão, a Victory Tour dos Jacksons - intitulada em homenagem ao recem lançado álbum que já vendeu quase duas e meio milhão de cópias - estava finalmente na estrada, com próximas paradas em Dallas, Jacksonville, Nova York e além. É esperado que todos os cinco Jacksons toquem em 47 datas em 16 semanas - que geraram entre U$50-60 milhões em bilheteria - e um possível lucro de U$8 milhões.

Quando eles não estavam lidando com as fortes críticas sobre a exorbitante política de compra de ingressos por correio (a qual foi mudada), e as exigências do promotor Chuck Sullivan para taxas mais baratas de hospedagem e espaço grátis para anúncio nos jornais, o unido quinteto passou seus dias anteriores aos shows polindo o ato. Sem sinal das festas ambiciosas que caracterizavam as turnês de rock: refeições preparadas pelas duas cozinheiras dos Jacksons e levadas para os irmãos na privacidade de seus quartos. Momentos de lazer foram devotados a tocar guitarra e (no caso de Michael) autografar fotografias. O Enluvado escapou do hotel (por um elevador que levava à garagem) para assistir 'Os Caça-Fantasmas' e anunciar publicamente que ele iria doar sua parte do lucro dos shows para caridade. Na tarde de sexta-feira, ele acompanhou Tito a um hotel local para receber o prêmio NAACP. Após esta saída, os Jacksons se mantiveram quietos até a noite de sexta, quando figurinistas chegaram para ajudá-los com as roupas do número de abertura. Às 21h, os cinco entraram em uma van para a viagem de 30 minutos até o estádio, onde o frenesi atingia seu ápice.

A plateia que os esperava era uma amostra de Whitman sobre os habitantes do centro dos EUA. Eles chegavam em pick-ups enlamaçadas e vans customizadas - e não apenas adolescentes usavam camisetas com a imagem de Michael, mas idosos também, e mães com crianças pequenas, e uma aliança de paz que apenas os Jacksons conseguem: jovens com seus pais. Disse Andrea Gilliard de Stanley, Kansas, do alto de seus 30 anos, "Você nunca está velha demais para ver Michael Jackson. É o melhor show que já vi, e eu já vi os Stones e os Beatles. Mas por que ele não cantou Thriller?"

Bem, porque provavelmente ele queria deixar seus fãs a par do filme que é exibido diariamente por trás de seus olhos. O roteiro, para o qual o ídolo andrógino desenhou os storyboards, é uma lenda baseada no Rei Arthur como se enfeitada pelo criador de Star Wars, George Lucas, com asistência do Muppeteer Jim Henson. Na abertura do show, monstros gigantescos e animados emergem no palco, para serem desafiados por Randy (aparentemente o herdeiro criativo de Michael), trajando uma armadura brilhante. Randy retira uma espada iluminada por lasers de uma pedra, assassina uma das criaturas e ordena, "veja o reino." Coberto em fumaça e luzes verde, azul e púrpura, o set se eleva e aparecem os irmãos, que fazem uma dramática descida pelas escadas, para uma ensurdeçedora onda de gritos.

Apesar de Jermaine ser o vocalista principal em três de suas próprias canções e dos outros Jacksons terem seus momentos, Michael domina o palco central. Resplandecente em uma jaquela de lantejoulas prata com uma faixa vermelha e branca (um de seus quatro figurinos), ele salta no ar, fica imóvel, cai de joelhos e se lança a uma posição fetal. Ele é arrogante em Beat It, terno em She's Out of My Life, triunfante em Billie Jean. Sua Heartbreak Hotel é também tão cheia de giros, paradas, batidas e estalos que quando ele termina a plateia procura por feridas imaginárias em seus braços.

A turnê dos Jacksons é uma produção espetacular, e vem com um preço também espetacular: na faixa dos U$15 milhões, diz o promotor Sullivan. O palco de 375 toneladas, ele mesmo um elemento caro, tem a altura de um prédio de cinco andares, com 49 metros de largura e 27.5m de profundidade. Ele possui sete computadores e cinco elevadores que precisam de 22 homens para serem operados. O que com as 120 caixas acústicas, 2.200 luzes, suportes e cabos acrescentam mais 29 toneladas na bagagem dos Jacksons. O número de membros da equipe chega a 1.500, incluindo aqueles contratados localmente para organizar o final do concerto - um show de fogos de artifício.

No Arrowhead, mais de 170 policiais dos departamentos da área mantiveram a paz. Eles foram auxiliados por 375 guardas contratados pela gerência do estádio, nove paramédicos, dois médicos e seis enfermeiras. Um helicóptero e quatro ambulâncias estão a postos, e a multidão passou por cerca de 70 seguranças com detectores de metais para entrar no estádio. Na realidade, a segurança estava tão reforçada que o próprio Sullivan teve seu acesso aos bastidores negado quando esqueceu seu passe na noite de estreia.

Felizmente, a equipe da turnê dos Jacksons - que já estava preparada para um desastre do nível do show de 1969 dos Stones em Altamont - foi confrontada com a docilidade de uma reunião social de igreja, uma decente reflexão do próprio Michael Jackson. Apenas nove prisões foram feitas no Arrowhead, disse um porta-voz do estádio, a maior parte por má conduta. O único real problema foi Don King, o czar do box e outrora promotor de turnês. Suplantado por Sullivan em junho, ele todavia continua a falar como se estivesse comandando o show. "Estamos viajando por território virgem," ele anunciou ao dar uma entrevista para a imprensa, no salão do Alameda Plaza. "Não há limites. Se Michael tivesse tempo para trabalhar tão duro quanto Wayne Newton, 150 shows por ano, ele podia fazer U$200 milhões. Mas quem quer trabalhar tanto assim?"

Os Jacksons já trabalharam duro o suficiente. Mas a ameaça de exaustão parecia irrelevante para Randy, que trocava de uma cadeira para a outra no hotel no sábado, enquanto descansava da eletrificante noite de estreia. "Foi ótimo estar de volta aqui," ele disse. "Minha perna estava me matando, mas sabe que foi a melhor abertura que já fizemos. Depois do show, não consegui dormir. Minha mãe me ligou apenas para dizer 'Eu te amo e achei que você estava bem'. Minha mãe é puro amor."

Enquanto isso, em Jacksonville, o prefeito Jake Godbold também se apaixonava. "É hora de alcançarmos as estrelas," ele disse. Godbold calculou que a estadia de três dias dos Jacksons em sua cidade poderia custar U$445.000 em salários e promoções ao governo local - uma insignificante quantia comparado ao que os visitantes devem gastar em alojamentos, refeições, combustível e souvenirs de Michael Jackson. "Setenta milhões de dólares," ele disse para os membros da Câmara Municipal, prolongando a última palavra. "Setenta milhões de dólares"




 Traduzido por Bruno Couto Pórpora

terça-feira, 15 de julho de 2014

Michael Jackson, Fenômeno da Música Pop (Estadão, Julho 1984)

O Estado de São Paulo, 15 de julho de 1984
Por Marco Antonio de Lacerda
Especial para o O Estado

SÃO FRANCISCO - Para a indústria do rock, encalhada na fronteira onde as ruínas do punk se chocam com a parafernália dos sintetizadores pop, o surgimento de Michael Jackson é uma espécie de milagre. Com 35 milhões de cópias vendidas em todo o mundo, Thriller, o segundo LP individual do cantor, não é apenas o maior recorde de vendas da indústria fonográfica. Thriller é algo que nem mesmo os melhores especialistas em marketing conseguem explicar. Um ano e meio depois de ser lançado, o disco continua a ser vendido numa média de um milhão de cópias por semana em todo o mundo.

E quando Michael Jackson pisar, hoje à noite, no palco da cidade de Irving, no Texas, na segunda escala do show Victory, milhares de pessoas assistirão ao espetáculo, que já é apontado como o mais grandioso da história do rock. Mais do que isso, elas terão a oportunidade de ver de perto a mágica e os ingredientes que contam na alquimia da formação de um mito. Embora o show conte com a participação dos outros quatro integrantes do "Jackson Five" (Jermaine, Tito, Randy e Marlon), todas as atenções se concentram, do começo ao fim do espetáculo, na fascinante presença cênica de Michael.

A dança de Michael Jackson mistura a verve de James Brown com a sensualidade de Diana Ross e o charme de Carlitos. A plateia aplaude, grita, contorcendo-se em êxtase diante da graça de um brilhante entertainer. Quando canta She's Out of My Life, ele é capaz de dar a uma canção melodramática o tom de uma paixão séria. Quando interpreta Billie Jean, a plateia se delicia com a cadência precisa de seus movimentos no palco. Em duas horas de espetáculo, Jackson percorre o território das baladas (Human Nature), do rock pesado (Beat It) e até das salsas picantes (Lovely One), sempre com a desenvoltura de um perfeito showman.

Michael Jackson é o maior fenômeno da música pop desde Elvis Presley e os Beatles. Sem dúvida, ele é também o mais popular cantor negro de todos os tempos, que devolveu a música de sua raça - o rhythm and blues - ao topo das paradas de sucesso, de onde tinha sido banida no começo dos anos 70. Jane Fonda, amiga e professora de arte dramática do cantor, explica a razão de tamanho apelo popular:

- A música de Michael é enérgica e sensual. Enquanto se escuta, pode-se dançar, cozinhar e até fazer amor. É impossível ficar quieto quando Michael toca no rádio.

Thriler pode ser um disco provocante e vigoroso, mas está longe de representar, no contexto mais amplo da música pop, o papel que um dia tiveram obras como Sargeant Pepper's Lonely Hearts Club Band (Beatles), Who's Next (Who) ou Born To Run (Bruce Springsteen). Estes são talismãs do rock, discos que mudaram vidas. Thriller tem apenas a mesma qualidade das roupas do gênero "esporte elegante": depois que a moda passa, a gente se sente meio embaraçado de ter gostado tanto.

Na Inglaterra, hoje, o rock explode em eventos esparsos, mas sem nenhum foco ou liderança como o triunvirato Beatles-Rolling Stones-Who, que reinou nos anos 60 com apoio popular incondicional. Nos Estados Unidos existe Michael Jackson, mas sem nenhum movimento de base sustentando o seu estridente solo individual. Ao contrário dos medalhões da música pop dos anos 60, Jackson tem uma vasta audiência, mas um pequeno público eleitoral. Ele é um mundo à parte no atual contexto do rock, um fenômeno que sobrevive na vida real da mesma maneira como detonou: em isolamento.

Faz mais de um ano que Michael Jackson não dá entrevistas. Antes, as poucas vezes em que ele concordou em falar com repórteres foram situações tão difíceis que seus empresários decidiram poupá-lo - e também a imprensa - de tamanho constrangimento. A dificuldade vem da timidez que Jackson, a essa altura já tão popular quanto o disco Thriller. Segundo repórteres das revistas Time e Newsweek, que estiveram na companhia do cantor durante duas ou três horas, a timidez de Michael Jackson não é do tipo comum, que impediria um rapaz de se comunicar com uma moça bonita. Trata-se de um caso patológico de timidez paralisadora, que muitas vezes torna impossível qualquer contato com outro ser humano. Por isso, os poucos contatos pessoais de Michael Jackson são planejados com a cautela de uma manobra militar. Quando certos cuidados e medidas deixar de ser tomados, o resultado pode ser desastroso. Quando visitou o presidente Ronald Reagan, na Casa Branca, em maio, Michael Jackson foi acometido de uma crise súbita de paranóia que o levou a se trancar no banheiro por meia hora, para evitar a multidão de estranhos e curiosos.

Quando não está no palco ou nos estúdios, Jackson certamente se encontra trancado atrás das grades de sua mansão na pequena cidade de Encino, na Califórnia, onde vive na companhia dos pais. Recentemente supervisionou a reforma da casa e o resultado é uma mistura de Disneylândia com a Xanadu do filme Cidadão Kane. O interior é decorado por jogos eletrônicos, manequins de gesso e estátuas de vários estilos, enquanto nos jardins se encontram aves e animais de diversas procedências, entre eles uma lhama e uma jibóia. Michael Jackson dispõe de uma completa coleção de desenhos animados, aos quais ele assiste regularmente. Segundo os amigos, Jackson pode passar várias horas perdido no mundo fantástico do Pato Donald, Mickey, Jumbo e outros personagens de Walt Disney. Em diferentes ocasiões ele revelou que um de seus sonhos é fazer Peter Pan no cinema.

Segundo o cineasta Steven Spielberg, "se E.T. não tivesse aterrissado na casa de uma família de classe média dos EUA, provavelmente teria baixado na mansão de Michael Jackson!" Ele fez a narração, em disco, de "E.T.", e acabou-se tornando amigo íntimo de Spielberg. "Jackson é o último inocente vivo neste planeta," diz o cineasta.

Michael Jackson é vegetariano e, como membro da seita Testemunhas de Jeová, acredita num holocausto que arrasará o mundo, seguido pela segunda vinda de Cristo. A religião ocupa grande espaço na vida do cantor, envolvendo leituras intensivas da Bíblia e três visitas semanais a um templo nos arredores de Encino. Diana Ross, a amiga mais íntima, diz que o "apelo universal de Michael tem mais a ver com o personagem que ele representa do que com sua música."

De fato, Michael Jackson é um produto do show-business norte-americano. Ele passou toda a infância e a vida adulta nos palcos e bastidores do mundo do espetáculo. O jardim da infância frequentado por Jackson, quando menino, foi o porão do Teatro Apollo, no Harlem, bairro negro de Nova York. Na época, o Jackson Five já fazia a abertura dos shows de artistas famosos, como Jackie Wilson, James Brown, Temptations e Etta James. Aos seis anos, Michael Jackson era muito tímido para se aproximar dos monstros sagrados da música negra da época. Em vez disso, ele se escondia atrás das cortinas, nos bastidores do Apollo, e devorava com os olhos da performance de seus ídolos, principalmente as eletrizantes apresentações de James Brown.

Aos 25 anos - e 20 de carreira -, Michael Jackson nunca conheceu outra vida além do show-business. Os grandes sucessos musicais do Jackson Five, muitos deles gravados há 15 anos, hoje são clássicos do rock. Seus ídolos de infância se tornaram colegas de profissão. Aos 10 anos, mudou-se para o apartamento de Diana Ross, em Hollywood. Hoje ele é um dos produtores da cantora. Michael Jackson tinha cinco anos quando os Beatles explodiram no mundo. Hoje, Paul McCartney participa de seus discos como convidado especial.

Nas poucas vezes em que é visto em público, Jackson está sempre acompanhado de atrizes famosas, como Tatum O' Neal ou Brooke Shields. Ele conversa durante horas, por telefone, com Liza Minnelli e faz suas confidências mais íntimas ao veterano Fred Astaire. A atriz Katharine Hepburn, tradicionalmente aversa a estrelas do rock, abriu uma única exceção para Michael Jackson e foi à estreia do cantor no Madison Square Garden, em 1981.

O mundo de sonhos de Michael Jackson está em construção há 25 anos. Tudo começou na pequena cidade de Gary, em Indiana, no dia em que a única televisão da casa da família Jackson parou de funcionar. A única saída do metalúrgico Joseph Jackson, na época sem condições financeiras para comprar uma nova TV, foi ligar o rádio. Desde então, a família Jackson nunca mais parou de dançar.

Não muito depois, lembra Joseph Jackson, hoje empresário dos filhos famosos, Michael confessaria a uma de suas professoras que o sonho de sua vida era se tornar um entertainer rico e famoso. O que ele não podia antever, porém, eram as consequências de sua determinação. A dimensão de sua fama e riqueza tornou-se pública no começo deste ano, quando a CBS recebeu 1.500 convidados no Metropolitan Museum de Nova York para uma festa (avaliada em 1,5 milhão de dólares), em que foi anunciado um novo recorde da história moderna: o disco Thriller, batendo o seu antecessor, Saturday Night Fever (com 25 milhões de cópias vendidas), era o maior recorde fonográfico de todos os tempos. Michael Jackson entrou para o Guinness Book of World Records.

O sucesso de Thriller, porém, não é o único recorde de Michael Jackson. Recentemente ele bateu, também, o cantor Paul Simon, ao arrebatar oito troféus Grammy de música. Jackson foi apontado ainda como o melhor artista e melhor vocalista em 28 países do mundo, da Grécia à Holanda.

Apesar de tímido nos encontros com a imprensa, a reputação profissional de Michael Jackson é a de um perfeccionista. Quando se trata da contratação de um novo empresário, músico ou promotor de shows, ele atua como o mais meticuloso dos repórteres, fazendo detalhada investigação e pedindo conselho aos irmãos e outros profissionais do ramo. Embora acredite piamente que o talento que lhe foi atribuído por Deus, Jackson sabe muito bem o preço desse talento no mercado. A fortuna pessoal do cantor é avaliada hoje em cem milhões de dólares, parte dos quais proveniente dos dois dólares que ele recebe por cada cópia do disco Thriller vendida pelo mundo afora.

Mas, como tudo na vida, a fama também tem seu preço. Desde o dia em que Elvis Presley apareceu em público sacudindo as cadeiras, tornou-se hábito na imprensa mundial questionar a virilidade dos ídolos. Nunca, antes, se atribuiu tanta importância a essa questão como no caso de Michael Jackson. Diariamente aparece na imprensa norte-americana pelo menos uma nova revelação sobre a vida íntima do cantor: "Michael toma hormônios para manter a voz feminina." Ou acusações menos diretas: "Virilidade de Michael preocupa a família." A última revelação foi publicada no ano passado, pelo jornal Rolling Stones, fazendo insinuações diretas sobre a homossexualidade do artista.

Mas nada disso parece afetar o prestígio de Michael Jackson. O presidente Reagan exalta-o como modelo para a juventude norte-americana, enquanto prefeitos e governadores de todas as partes dos EUA suplicam à família Jackson que inclua suas cidades no roteiro de Victory.

Há algo, porém, no fenômeno Michael Jackson que é completamente inédito na história da música pop. No passado, ídolos como Elvis Presley ou os Beatles eram capazes de levar a juventude a novos horizontes de descobertas, experiências e sonhos. Nunca se teve notícia, entretanto, de um ídolo das proporções de Jackson que fosse tão completamente definido pelo medo e pela fuga. O medo e a fuga estão na letra de suas melhores canções. Billie Jean é a história de um homem fugindo de uma mulher que o aculsa falsamente de tê-la engravidado. O medo e a fuga estão também nos vídeo-clips em que Michael escapa das garras de detetives sinistros usando o simples truque de desaparecer no ar. E então finalmente na cumplicidade do cantor ao vender a sua arte para o mais barato fim comercial. Billie Jean certamente revela alguma coisa sobre os pesadelos secretos de Michael Jackson, dizia na semana passada a revista Newsweek. Mas ao usar a canção como locomotiva de vendas da Pepsi Cola, Jackson a destituiu de qualquer sentido, transformando-a num mero jingle de TV.

Máquina e efeitos por trás da excursão

IRVING, TEXAS - Sexta-feira, Michael Jackson e seus quatro irmãos fizeram a primeira das três apresentações programadas para a cidade de Irving, Texas, segunda etapa da excursão do cantor pelos Estados Unidos, que começou esta semana em Kansas City, Missouri. Mais uma vez, o novo ídolo norte-americano do rock mobilizou uma plateia de 45 mil pessoas, foi aplaudido e ovacionado por um público de jovens e adultos tão entusiasmados quanto aqueles que assistiram aos concertos de estreia da turnê. Para a série de três espetáculos, que prosseguiu no sábado e se encerra hoje, 107 mil ingressos foram vendidos. Victory, título do mais recente LP de Jackson, que já vendeu dois milhões de cópias, resgata, depois de muitos anos, o antigo grupo Jackson Five, Michael e seus quatro irmãos. Entre as 17 canções que interpretam uma parte delas é do tempo em que gravavam juntos, como I'll Be There, mas a grande estrela, apesar dos esforços, continua sendo ele.

Os três concertos em Kansas City atraíram 135 mil espectadores e renderam mais de 26 milhões de dólares. Uma semana antes da estreia começaram a chegar os 375 toneladas de equipamentos, trajes e aparelhagem para os efeitos especiais. Primeira escala da excursão por 13 cidades norte-americanas, serviu ao grupo para provar o impacto de seu espetáculo, apesar de parte da crítica ter acusado Jackson de não incluir no repertório nenhuma faixa de seu LP Thriller. Outros reclamaram do preço dos ingressos, 30 dólares por pessoa, muito caro para shows em estádios. Cada apresentação, de montagens sofisticadíssimas, inclui grandes efeitos cênicos, com palco de vários pisos, e especiais que utilizam até o laser. São tantos os equipamentos que faltaram caminhões para transportá-los de Kansas City até Irving, no Texas.

A excursão toda deverá render entre 80 a 100 milhões de dólares - Michael já disse que doará sua parte à instituições de caridade. Mas Victory, até novembro, estará movimentando muito mais do que isso. Russel Cline, promotor dos concertos em Kansas City, informou que os valores gerados a cada hora de atuação de Jackson foram de cerca de um milhão de dólares, entre a comercialização de ingressos, recordações e estacionamento. Um funcionário público da cidade, A. J. Wilson, acrescentou que Kansas City recebeu até 20 milhões de dólares com alojamentos, alimentação e outros tipos de serviços.

Ao lado dos irmãos Jermaine, Marlon, Randy e Tito, Michael Jackson entra em cena com seus trajes extravagantes e, como já é seu hábito, ergue a mão enluvada e saúda o público. Na plateia, depois de passar por um rígido sistema de segurança, estão milhares de adolescentes, verdadeiras réplicas de seu ídolo: cabelos molhados de gomalina, jaquetas, óculos escuros, calças pelo tornozelo e a obrigatória luva branca, na mão direita.

terça-feira, 8 de julho de 2014

'Victory Tour' abre em Kansas (NY Times, Julho 1984)

New York Times, 8 de julho de 1984
Por Robert Palmer

O primeiro show da Victory Tour dos Jacksons, a turnê que está sendo apontada como a mais espetacular e, potencialmente, a mais lucrativa da história da música pop, teve início na noite da última sexta-feira, em Kansas City, Missouri. E os minutos iniciais do show certamente foram espetaculares.

Em meio a fumaça, flashes de luzes e raios laser, uma voz entoando, "Levantem-se, todo o mundo, e segurem-se," e uma tempestade de estrondoso som eletrônico e um bando de criaturas cabeludas - parecidas com algumas das criações do recente filme de fantasia O Cristal Encantado - se arrastaram para o palco e se reuniram em torno de uma espada que parecia estar cravada em uma grande pedra.

Vários dos cinco irmãos Jackson que estão se apresentando nesta turnê tentaram puxar a espada da pedra e não conseguiram. Finalmente, um deles conseguiu, como o Rei Arthur fez. E, é claro, que foi Michael Jackson.

No momento, Michael Jackson é a propriedade mais quente da música popular. Seu mais recente álbum, Thriller, lançado no final de 1982, já vendeu quase 35 milhões de cópias no mundo todo. O novo álbum dos Jacksons, Victory, apresenta Michael Jackson em apenas três músicas; as outras cinco faixas foram compostas, produzidas e cantadas por várias combinações dos outros irmãos Jackson - Jackie, Jermaine, Marlon, Randy e Tito.

Sob Todos os Holofotes

Mas Michael Jackson sempre foi o ponto focal dos concertos do grupo, e ele esteve no centro das atenções durante a maior parte do show de sexta à noite.

Exceto por um breve - e incrivelmente eclético - set de quatro canções de Jermaine Jackson, cuja carreira solo produziu várias músicas de sucesso, Michael foi o cantor, dançarino e front-man principal durante todo o resto do show, o qual não incluiu uma única música do novo álbum Victory.

Na verdade, a maioria das músicas foram de Thriller e do álbum dos Jacksons de 1980, Triumph - hinos alegres e bem-humorados. Mas embora ele faça o papel de sex symbol e entertainer com performances vocais que são finamente trabalhadas e cuidadosamente detalhadas, e com a dança pop mais fluída e original desde James Brown em seu auge, as canções de Michael Jackson também têm seu lado obscuro.

A sensação de Medo


Partes do show dos Jacksons jogaram deliberadamente com a sensação de medo que paira sob a superfície de canções como Heartbreak Hotel, Billie Jean e Thriller. A primeira delas veio logo no início do show de sexta e pareceu saltar para a vida como um canivete sacudindo aberto, com letras para combinar:

As we walked into the room, there were faces staring
Glaring, tearing through me
Someone said welcome to your doom



Apesar dos pedidos do público para escutar ao que Michael Jackson se referiu como "o material antigo", hits do começo e meio dos anos 1970, quando o grupo familiar era conhecido como o Jackson Five, o grupo comprimiu algumas destas canções em uma um tanto apressada medley. Mas ao final de I'll Be There, Michael Jackson parou o show com um solo vocal sem acompanhamento e sem letras, dominando a canção com sua intensidade e carisma.

Ele gemia como um pregador religioso, mostrando seu alcance vocal e mais de suas profundas raízes na música gospel. Então ele mudou abruptamente de estilo para um tom de jazz e levou a próxima música, Lovely One, do álbum Triumph.

A Conclusão Escaldante

Depois de uma curta pausa e tempo para mudanças de figurino, os Jacksons retornaram para a conclusão escaldante do show. Houve mais cenas à base de filmes de terror, que introduziram as poderosas performances de Beat It e Billie Jean, de Thriller, e Shake Your Body, um hit anterior de Michael Jackson que concluiu a performance de 90 minutos da noite.

Ao final da apresentação, Michael Jackson começou a soar rouco e parecia perder o fôlego. Mas ele cantou e dançou magnificamente, com estilo, graça e energia incansável.

Os outros Jacksons cantaram ricas harmonias de apoio, quase irrepreensíveis, mas enquanto a nova "Vitória" é o seu álbum [Victory], o show de sexta foi principalmente um triunfo para o seu irmão mais conhecido,




 Traduzido por Bruno Couto Pórpora

terça-feira, 1 de julho de 2014

Tour de Force: Por trás dos bastidores da 'Victory Tour' (People, Maio 1984)


People, 7 de maio de 1984
Por Peter Carlson

Apesar de rumores contrários, os Jacksons continuam a se preparar para o evento pop do ano em um ritmo - devagar - que está levando os fãs e potenciais sócios de negócios a um frenesi
 
Em 16 de abril, em um estúdio de ensaios ao norte de Hollywood, Tito Jackson, irmão de você-sabe-quem, presidiu o primeiro ensaio dos músicos do que seria o grupo backup para a turnê dos Jacksons de 1984. A banda - que inclui o guitarrista David Williams, que tocou no álbum de Michael Jackson, Thriller, e o baterista Jonathan "Sugarfoot" Moffitt, que já pertenceu à banda de Lionel Richie - se reuniu, riu um pouco, e então começou a tocar, flutuando para um riff familiar de Billie Jean. Logo após a banda começar a esquentar, Tito os chamou para acertar as regras. "Nós começamos às 7," ele disse. "Isso significa 7. Vocês não devem chegar carregando os seus instrumentos às 7 para começar a tocar 15 minutos depois." Muito depois de Tito terminar suas instruções, Nelson Hayes, o assistente coordenador dos Jacksons, estabeleceu outra regra. "Eu sou contratado dos Jacksons desde 1981," ele disse. "Eles não gostam de drogas". Ele pausou para efeito dramático. "Façam qualquer coisa parecida nesta turnê e vocês provavelmente não estarão conosco até o final dela."

Isto são boas notícias não por conta das nobres mensagens comunicadas por Tito e Hayes - embora Deus saiba, a presença de um pouco de pontualidade e sobriedade no mundo da música pop seria uma mudança bem-vinda. Não, as boas notícias aqui são muito mais simples. Já que o álbum dos irmãos, Victory, está quase pronto e agendado para ser lançado em Junho, deve haver apenas um motivo para os ensaios: os Jacksons estão se preparando para cair na estrada.

Isto vem como um choque para os observadores da indústria, que murmuram há meses que a
muitíssimo comentada turnê nunca iria acontecer, que ela havia sido sufocada por advogados, e promotores, contadores e empresários, que as pessoas ao redor de Jackson estavam atoladas. "O talento em questão é um diamante," diz o promotor de São Francisco, Bill Graham, tentando ser discreto - considerando os boatos de que ele seria o diretor nacional da turnê. "Mas se você visse a forma como as coisas estão sendo feitas em torno deste talento, você pensaria que eles estão lidando com petróleo." Jack Beckman é mais um que duvida da turnê. O empresário da Reunion Arena de Dallas (com 19.000 assentos) voou para Los Angeles três vezes para tentar trazer os Jacksons para a sua arena. Ele já participou de reuniões com vários assessores e advogados dos Jacksons. Ele já até se reuniu com o patriarca Joe Jackson. E ele sabe tanto sobre a turnê dos Jackson agora quanto sabia antes. "Eu estou acompanhando isto por meses e estou prestes a desistir," ele diz. "Pode não acontecer. Pode ser tão cara que acabe afundando no próprio peso."

Mas espere um minuto. Estamos nos antecipando um pouco. Para ajudar aqueles leitores que tenham saído recentemente de um coma, vamos voltar um pouco ao passado. Em 1965, Joe Jackson, um estivador de Gary, Indiana, organizou seus cinco filhos - Michael, Jermaine, Marlon, Tito e Jackie - em um grupo musical chamado Jackson 5. Com uma pequena ajuda de Diana Ross, eles assinaram um contrato fonográfico com a Motown e venderam 100 milhões de discos. Em dezembro de 1982, Michael - agora voando solo - lançou seu segundo álbum, Thriller, que vendeu cerca de 33 milhões de cópias (pelo menos até a última contagem) e gerou sete singles no Top 10. Estas estatísticas inéditas pareceram empurrar Michael para algo além do mero super-estrelato; mas para um lugar especial que deixa jornalistas, fãs e empresários famintos com os olhos vidrados. Até o New Republic, dificilmente uma fanzine pop, estava logo proclamando Michael "o performer musical mais bem sucedido de todos os tempos... maior que Sinatra, Elvis, os Beatles, Jesus, Beethoven - todos eles."

No último mês de novembro, Joe Jackson reuniu seus seis filhos - Randy se tornou o sexto membro do Jackson 5 em 1973 - no elegante restaurante Tavern on the Green, em Nova York, e anunciou que havia contratado o czar do boxe, Don King, para produzir uma turnê americana de reunião dos Jacksons. O contrato parecia uma licença para imprimir dinheiro. Houve conversas para uma turnê de 40 cidades, um filme do show, uma transmissão ao vivo via satélite, além de camisetas e dinheiro falso. A Pepsi-Cola apostou pelo menos U$5 milhões pelo privilégio de ajudar a patrocinar o evento. As estimativas do potencial financeiro da turnê escalaram de mesquinhos U$20 milhões para sensacionalistas U$100 milhões. Não só a turnê tornaria a família muito mais rica, mas traria novamente os garotos juntos. "Michael têm tido um sucesso muito grande," diz Tito, "e algumas vezes, o sucesso dos Jacksons foi enfraquecido. Eu acho que a turnê é uma chance para nós mostrarmos o nosso sucesso também."

Na aparência, tudo parecia bem. Por trás, no entanto, rumores de brigas. Por meses, foi dito que Michael - que demitiu sua equipe de dois empresários no ano passado -  ficou desencantado com Don King, cuja obsessão violenta com auto-promoção não esconde o fato dele não ter nenhuma experiência com divulgação musical. Michael supostamente enviou a King uma carta afirmando em termos inequívocos que King não pode falar ou negociar por Michael. King, cuja ideia de um dia perfeito é poder falar 24 horas, ficou estranhamente mudo. "Votaram pelo nosso silêncio," ele disse, em alusão à filosofia de negócios dos irmãos - de decidir por consenso.

Os boatos corriam de que os irmãos contrataram o executivo fonográfico da MCA, Irving Azoff, ou Graham, ou o promotor de L.A. Jerry Weintraub para cuidar da turnê. Então, em março, Frank Russo, um veterano promotor de Nova Inglaterra, anunciou que ele havia conquistado a honra e que King se tornou uma mera pessoa representativa. Russo se entregou ao lirismo ao descrever como os Jacksons o haviam contratado. "Todos os irmãos me abraçaram, eles abriram champanhe," ele contou ao Providence Sunday Journal. "Eu não conseguia acreditar que isso estava realmente acontecendo a um cara de Rhode Island." Três semanas depois, Russo estava demitido.

As idas e vindas de empresários obscuros, periféricos à criação musical de fato, atrairia pouca atenção exceto por isto: na confusão, a turnê em si foi deixada de lado. Empresariado por consenso pode ser um experimento nobre em uma democracia participativa, mas não está funcionando de forma eficiente. Até a semana passada, nenhuma arena havia sido agendada e nenhuma lista de shows divulgada. Promotores locais acabam lidando com um empresário diferente em cada conversa e saem com nada além de um "talvez" balbuciado.

Arny Granat, o principal promotor de Chicago, conta que já aconteceram literalmente centenas de ligações entre seu escritório e os "15 ou 20" representantes dos Jacksons. "É um pesadelo," conta Granat.

Entretanto, a muito esperada extravaganza nacional se tornou uma turnê encolhida. Segundo uma fonte, a odisseia estava marcada para começar em 8 de maio, em Oklahoma City. Agora, deve começar entre 15 e 22 de junho "em algum lugar no meio" do país antes de percorrer 11 ou 12 outras cidades, conta o coordenador da turnê, Jack Nance. "Ninguém sabe quando ou onde eles vão," diz Vernon Williams do Gary Post-Tribune, um observador de longa data da família. "O negócio todo está envolto em mistério. Primeiro eles iam percorrer 40 cidades, então 30, então 15, agora são 12 e logo mais eles vão poder fazer a turnê inteira sem sair de casa."

As mudanças de datas e os boatos colocaram os Jacksonmaníacos em um frenesi. Em Boston, quando um embate entre Russo e os proprietários do Sullivan Stadium ameaçou privar os fãs da oportunidade de ver os Jackson, o Boston Herald, um jornal local, imprimiu cupons permitindo aos leitores a "marcar este quadrado se você quer que Michael Jackson se apresente em Boston." O jornal foi inundado com milhares de cupons, os quais foram entregues para os Jacksons na Califórnia. Em Detroit, o jornal News imprimiu por engano o seu número de telefone em cima de uma foto de Michael Jackson, e recebeu mais de 100 ligações de crianças que queriam falar com ele: "O Michael está aí? Quando ele estará em casa?"

No estado de Iowa, alunos coletaram 25.000 assinaturas em um abaixo-assinado pedindo aos Jacksons que toquem em seu estado. "Nós poderíamos fazer este show às 4 da manhã no Natal e mesmo assim os ingressos esgotariam," afirma Steve Peters, que agenda a parte de entretenimento da universidade. "Nós não poderíamos pedir mais se os bebês do Cabbage Patch abrissem o show."

Em Tacoma, Washington, em 25 de fevereiro, 14.000 fãs de Jackson lotaram o Tacome Dome para assistir clipes de Jackson e covers do cantor e uma Jackson de verdade, a irmã LaToya, que prometeu à plateia, "Nós definitivamente viremos."

Políticos - que conseguem farejar um movimento popular a uma milha de distância - em todo o país se aproveitaram da jacksonmania. Em Boston, o prefeito Raymond Flynn lançou declaração pública convidando os Jacksons a tocarem no salão da prefeitura. Em Detroit, o prefeito Coleman Young convidou um promotor com supostas ligações com Jackson para sua mansão oficial, na esperança de atrair o grupo para a Arena Joe Louis. Em Iowa, o governador Terry Brandstad entrou em contato com King: "Como governador de Iowa, eu estou escrevendo para persuadir Michael Jackson e a família Jackson a incluir Iowa em sua turnê Victory de 1984."

Mas a cidade natal dos Jacksons conseguiu fazer as outras parecerem apáticas. Em Gary, o prefeito Richard Hatcher está circulando um abaixo-assinado, e o presidente da câmara municipal, Dr. Vernon Smith, solicitou 5.000 cartas das crianças da cidade pedindo que o grupo vá se apresentar. Os pais da cidade falam em transformar a casa da família em um ponto de referência. Em 20 de abril, a cidade promoveu um evento chamado "Michael Jackson Venha para Casa", que contou com 27 participantes em três diferentes concursos de covers de Michael Jackson.

"Digam, 'Michael, Gary ama você!'" o mestre de cerimônias, Bobbie Wilson, gritava ao microfone.
"Michael, Gary ama você!" o rugido ressoou.
"Digam de novo!" Wilson gritou.
"Michael, Gary ama você!"
"E de novo!"
"Michael, Gary ama você!"

Até o momento, nem Gary ou qualquer outra cidade sabem se Michael irá corresponder a este amor em pessoa. 




 Traduzido por Bruno Couto Pórpora

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O Susto de Michael Jackson (People, Fevereiro 1984)

People, 13 de fevereiro de 1984
Por Carl Arrington

A sensação do pop, Michael Jackson, sobrevive a acidente com queimaduras sérias e planeja livro de memórias com Jackie Onassis

Atiraram em Michael Jackson. Esta foi a primeira reação daqueles que estavam perto, quando ele segurou as costas de sua cabeça e gritou. Não foi uma ferida de bala que o fez gritar, embora tenha sido quase tão grave quanto: a cabeça de Jackson estava pegando fogo.

Este espetáculo de horror aconteceu na semana passada, perante milhares de fãs chocados no Shrine Auditorium de Los Angeles onde Michael, 25, e seus irmãos estavam filmando um comercial para a Pepsi. Aconteceu durante uma das últimas cenas após quatro dias agitados de filmagens sob a direção do mago do vídeo, Bob Giraldi. Giraldi havia ordenado outro take da iluminada sequência de abertura. Entre a iluminação, Michael aparecia no topo de uma escadaria e começava sua deslumbrante dança até o chão, onde os outros Jacksons estavam alinhados.

No meio de sua descida ele sentiu algo quente, mas imaginou que fossem as luzes dos holofotes. Os efeitos especiais pirotécnicos explodiam ao redor dele enquanto ele dava piruetas ao som de uma versão efervescente de Billie Jean. De repente, ele sentiu uma pontada de dor e gritou. O primeiro a responder foi Miko Brando, 22, filho de Marlon e assessor da segurança de Jackson. "Eu corri, o abracei e passei minhas mãos em seu cabelo," conta Brando, que queimou seus próprios dedos no processo. Em cerca de segundos o fogo foi contido, e Michael foi rodeado por uma multidão de guarda-costas, Jacksons e técnicos. Um fã de pensamento rápido apanhou um pouco de gelo, pegou a camiseta para fazer uma compressa gelada e aplicou no ferimento. Alguns minutos depois, os paramédicos chegaram e levaram Michael rapidamente para a sala de emergência do centro médico Cedars-Sinai.

O acidente ocorreu pouco depois das 6 da noite e os primeiros comunicados à imprensa local diziam que Michael havia sido "severamente queimado e estava em estado grave". Na verdade, graças ao tratamento de emergência com gelo, ele esteve alerta o suficiente para dizer aos paramédicos da ambulância que ele queria colocar sua luva brilhante quando fosse levado para dentro do hospital com a cadeira de rodas. A equipe médica checou seus sinais vitais e inspecionaram o ferimento. O fogo havia causado uma queimadura de segundo grau do tamanho de uma palma em sua cabeça, queimadura esta que cerca outra de terceiro grau, do tamanho do buraco de um disco de 45 rotações. Um creme antisséptico foi aplicado (sulfadiazina de prata) e ofereceram a ele calmantes, o que ele recusou por conta de sua opinião sobre narcóticos. Mais tarde ele aceitou um analgésico leve.

A notícia do acidente chegou logo ao Dr. Steven Hoefflin, o médico pessoal e cirurgião plástico de Jackson, que correu para o Cedars-Sinai. "Foi um grande choque para Michael, e quando eu cheguei lá ele estava entorpecido", conta Hoefflin. "Depois de examiná-lo e dizer a ele que tudo ficaria bem, ele se sentiu muito melhor." Hoefflin, que já remodelou cosmeticamente o nariz de Jackson, decidiu mover seu paciente famoso para ser tratado do outro lado da cidade, no Centro de Queimaduras do Centro Médico Brotman em Culver City. Acompanhado por seus pais, seu irmão Randy, dois guarda-costas e Hoefflin, Michael chegou por volta das 8:15 da noite. Já assentado no quarto 3307, ele virou paciente da enfermeira Kathy McGrath, 29, que se lembra que "ele ainda estava bem abalado e frio, então nós colocamos uns cinco cobertores nele".

Logo os fãs começaram a se juntar no hospital e a ocupar a área de espera da emergência. As linhas de telefone foram inundadas com ligações e seis membros voluntários da equipe do hospital cuidaram dos inesgotáveis telefonemas. A segurança ao longo do hospital foi reforçada e um guarda colocado em cada entrada do centro de queimaduras. "Praticamente todo mundo que trabalha no hospital arranjou uma desculpa para visitar o andar," conta o supervisor do centro de queimaduras, Pat Lavalas.

Michael, enquanto isso, fazia uma recuperação rápida. Em cerca de algumas horas, ele já estava pedindo pelo videocassete. Por conta do pessoal do hospital não ter a chave para o gabinete onde estava o videocassete do hospital, eles acabaram quebrando o cadeado para pegar o eletrônico e encontraram cerca de 10 fitas para Jackson. Ele selecionou Contatos Imediatos do Terceiro Grau, dirigido pelo seu amigo Steven Spielberg, e ficou acordado assistindo até cerca de 1 da manhã. Então, após terem lhe dado um remédio para dormir, ele teve uma noite tranquila.

Michael acordou com um café da manhã com frutas e suco e uma espiral de mensagens de amigos e fãs. Diana Ross ligou. Assim como Liza Minnelli. O telegrama favorito de Jackson dentre milhares foi o de uma garota que disse, "Eu ouvi dizer que você era quente, Michael, mas isto é ridículo."

No momento que Hoefflin chegou no dia seguinte, Jackson havia assistido American Bandstand na TV e, segundo uma enfermeira, "estava cantarolando na cama enquanto os médicos o examinavam."

Ao invés da vestimenta típica de hospital, ele optou por um uniforme de enfermeiro na cor turquesa. As enfermeiras também customizaram uma atadura para a cabeça que podia ser camuflada com o chapéu. "Você vai começar uma nova onda aqui em 1984-o look com redes", disse a enfermeira Jan Virgil para Michael. "Ele riu e disse que queria parecer francês".

Jackson havia visitado o centro de tratamento de queimados anteriormente, visitando pacientes lá em duas ocasiões. Foi ainda no mês passado, de fato, que Jackson ligou para Keith Perry, um mecânico de 23 anos que sofreu queimaduras de terceiro grau em 95% do seu corpo. Perry havia passado por sua décima quarta operação quando Michael chegou e foi colocado em um quarto contíguo. Outra paciente severamente queimada com quem ele esteve em frequente contato foi a costureira de 41 anos, Bessie Henderson. "Bessie havia passado por muitas operações e estava muito deprimida," conta Hoefflin, que também é o cirurgião plástico dela. "Quando Michael começou a ligar, ela mudou e agora está muito melhor."

Alguns dos pacientes não estavam cientes de que havia uma celebridade entre eles, até que Michael, usando meias brancas e apenas uma luva com lantejoulas, apareceu e visitou Keith, Bessie e os outros seis pacientes do centro de tratamento de queimados. Um dos pacientes não conseguia acreditar que havia recebido uma visita de Michael Jackson, então o cantor retornou para provar que não era apenas um sonho. Outro paciente queria saber porque Michael usava a luva. "Desta forma," ele explicou, "eu nunca estou fora do palco." Com a permissão do seu médico, Michael decidiu deixar o hospital depois de uma estadia de menos de um dia, e continuar o tratamento em casa.

Acompanhado por sua comitiva e vestindo um fedora preto, com roupa de hospital por cima de seu traje esportivo, Michael foi levado de cadeira de rodas até um carro particular. No caminho, ele parou para tirar fotos com vários visitantes. "Ele vai ser maior que Elvis Presley," disse uma mulher na casa dos 50 anos. "Maior do que quem?" perguntou um dos pré-adolescentes que se juntaram para ver o ídolo.

Praticamente todo o centro de tratamento de queimados conseguiu um souvenir, com o seu paciente famoso posando para fotos e autografando fitas K7, álbuns Thriller e fotos. E embora Jackson não tenha dançado, Hoefflin sabia que aquilo não duraria muito. "Dizer a Michael para não dançar," falou o cirurgião, "é como dizer a ele para não respirar."

Jackson planeja participar de uma mega-festa que a CBS e a Epic Records irão realizar em sua homenagem no Museu Americano de História Natural, nesta semana em Nova York, e ele deve voltar em plena forma para a premiação do Grammy (ele foi indicado para uma dúzia de prêmios) no dia 28 de fevereiro. "Michael está saudável e em boa forma," conta Hoefflin. "Isto já vai ajudar para que seja uma breve recuperação." É muito cedo para julgar se ele precisará de alguma cirurgia reconstrutora.

A causa exata do acidente no Shrine Auditorium ainda deve ser determinada. Testemunhas dizem que foi uma faísca de um dos efeitos especiais que inflamou o seu cabelo. "Michael estava exausto quando aquilo aconteceu," conta Hoefflin. "Foi no final de uma semana onde ele estava tentando filmar um comercial, fazendo planos para uma megaturnê nacional e terminando um álbum com seus irmãos".

Até o momento não houve processo, embora os executivos de Jackson e da Pepsi estejam revisando as filmagens do incidente cautelosamente para determinar se houve negligência. O patrocínio com a Pepsi para dois comerciais é declaradamente o contrato de negócios mais lucrativo da história a envolver celebridades, garantindo aos Jacksons ao menos $5 milhões. A família teve de ser convencida para fazer negócio porque, de acordo com uma fonte próxima, fazer propaganda de um produto "não é uma decisão que todo artista se sentiria imediatamente confortável em tomar."

Embora seja uma empreitada decididamente menos lucrativa, Michael também planeja uma autobiografia. E para isso, ele terá a ajuda da mais celebrada editora do ramo: Jackie Onassis. A Senhora O. foi apresentada ao Sr. J há muitos anos atrás em um evento dos Kennedy, em Nova York; tanto Caroline e John Jr. são fãs do cantor desde os dias do Jackson Five. Jackie e Michael se encontraram novamente no último Outubro, na Califórnia - desta vez, conta o assessor de Jackson, Steve Manning, "para realmente conhecerem um ao outro."

Duas semanas atrás, a firma de Jackie, Doubleday, anunciou um contrato de mais de $300.000 com Jackson - e nomeou Jackie como editora dele. As memórias de Michael, que deverá conter cerca de 200 fotos de sua coleção particular, deve ser lançada na primavera de 1985. Jackson também deve estrelar em um novo filme de Peter Pan com direção de Spielberg. A turnê, entretanto, está marcada para começar neste Maio, com a estréia possivelmente na cidade de origem dos Jacksons, Gary, Indiana. O show pode ser transmitido internacionalmente.

Não que Jackson precise de exposição extra. O Livro Guinness dos Recordes Mundiais recentemente incluiu em suas novas edições uma citação às 23 milhões de cópias vendidas de Thriller, situando-no como o LP solo mais vendido de todos os tempos. Ele também continua a quebrar recordes de venda com seu sexto single, a faixa-título de Thriller, e seu dueto com Paul McCartney, Say Say Say, continua no topo das paradas. Tudo isto é mera evidência estatística do extraordinário apelo de Michael, uma mística agora aprimorada com uma quase tragédia. "Eu estaria disposto a quebrar o meu braço," disse Tyrone Davis de 14 anos, um dos devotos que ficou em vigília do lado de fora do hospital, "apenas para ficar na ala de emergência com Michael." Para não ficar por baixo, o amigo de David, John Thomas, 13 anos, alardeou, "isto não é nada. Eu quebraria o meu pescoço."



Traduzido por Bruno Couto Pórpora

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Michael Jackson deixa hospital (Folha de S. Paulo, Janeiro 1984)

Folha de São Paulo, 30 de janeiro de 1984

O cantor norte-americano Michael Jackson, de 25 anos, internado na sexta-feira com queimaduras de segundo e terceiro grau na cabeça, deixou sábado o hospital Brotman Memorial, em Los Angeles, e continuará a ser tratado em casa. Seu médico, o cirugião plástico Steve Hoefflin, preferia que o cantor continuasse internado por mais alguns dias mas, em virtude de sua melhora, e de seus insistentes pedidos, acabou concordando com sua saída do hospital. O dr. Hoefflin disse também que ainda é cedo para saber se Michael precisará fazer operações plásticas e de implante de cabelo - tudo dependerá da evolução de seu quadro - mas há possibilidade do cantor ficar parcialmente careca, caso não nasça mais cabelo na região (cerca de um palmo na parte posterior da cabeça) afetada.

O acidente ocorreu na sexta-feira, no auditório Shrine, em Los Angeles, enquanto Michael e seus irmãos, ex integrantes do grupo Jackson Five, gravavam uma propaganda para a Pepsi Cola (pela qual o cantor deveria ganhar cerca de 10 milhões de dólares). De acordo com as pessoas que assistiam à gravação - algumas até acharam que o fogo nos cabelos do cantor "estava no script" - o acidente aconteceu quando Michael, dançando ao som de Billie Jean, chegou muito perto dos fogos de artifício utilizados na filmagem e então uma fagulha pulou em seu cabelo. Segundo essas testemunhas, o cantor continuou a descer por uma escada do palco até perceber o fogo e então, com muito sangue frio, tirou a jaqueta e cobriu a cabeça, na tentativa de apagar o fogo. Ele foi imediatamente ajudado por seus irmãos e outras pessoas presentes. A cena toda, calcula-se, deve ter durado cerca de 10 segundos.

Para o diretor artístico do cantor, o fogo teria sido produzido pela explosão, perto de sua cabeça (os cabelos estavam empastados com uma goma, o que teria intensificado o fogo), de uma caixa metálica com produtos destinados a criar efeitos especiais. Sua versão é contestada pelo oficial de polícia encarregado da investigação, que acredita que o fogo tenha começado com faíscas provocadas por um aparelho pirotécnico em contato com a goma (laca).

Recuperação

 
Seja como for, e apesar de ainda sofrer fortes dores, Michael Jackson - o artista pop de maior sucesso hoje nos Estados Unidos - deverá estar pronto (embora não se saiba se com ou sem cabelo) para aparecer em público nas próximas duas semanas, de acordo com as estimativas de seu médico, pois seu bonito rosto não foi atingido pelas chamas.

O dr. Steven Hoefflin acredita que o cantor possa comparecer à entrega dos prêmios Grammy, o Oscar da música americana, no próximo dia 28, por coincidência no mesmo auditório onde ocorreu o acidente, "desde que encontre ânimo para fazê-lo". Seria bom que estivesse mesmo recuperado. Afinal, ele é o grande ídolo da noite, com um recorde de 13 indicações e sete premiações.

Possivelmente repousando em sua casa de Los Angeles, onde vive com a mãe, Michael Jackson já pediu que o filme do acidente seja transmitido pela TV, para que seus inúmeros fãs possam ver o que realmente aconteceu.

quarta-feira, 20 de março de 2013

O Peter Pan do Pop (Newsweek, Janeiro 1983)

Newsweek, 10 de janeiro de 1983

Michael Jackson, astro infantil que se transformou em superastro, ainda sonha em voar e tem uma lhama de estimação chamada Louis.

É um som vertiginoso e glamuroso. Palmas soam, acordes ressoam. Guitarras elétricas rangem como um corpo de tambores africanos. Uma voz suspira e então se rende ao refrão. E assim são os primeiros segundos de Wanna Be Startin' Somethin', seis minutos de um frenesi musical de um novo álbum da Epic chamado Thriller. O estilo arrasador só poderia vir de um astro - Michael Jackson.

Por quase 14 anos, Jackson têm feito sua própria marca na história do show business. Ele apareceu primeiramente em 1969, como a dinamite dançante de 10 anos de idade que cantava e girava com o Jackson 5, um quinteto de irmãos alegres. Ao longo das décadas seguintes, ele ajudou a vender mais de 90 milhões de discos, tanto com seus irmãos como quanto artista solo. Herdeiro da grande tradição de performers negros, ele também se tornou um grande da gravação moderna. Em 1979, ele ajudou a trazer a música negra aos anos 80 com Off The Wall, uma coleção luminosa de hits dance contemporâneos, incluindo quatro singles Top 10 - o maior número que algum artista solo já conseguiu emplacar em toda a história da indústria fonográfica.

Supereletrizado: Agora, aos 24 anos, Jackson parece pronto para outra onda. Ele compôs e produziu o recente hit Top 10 de Diana Ross, Muscles. Ele narrou e cantou uma canção para o álbum de histórias de E.T., o Extraterrestre. E para Thriller, sua altamente esperada sequência de Off The Wall, ele modelou uma coleção de clássicos pop supereletrizados para os anos 80 - brilhantes, futuristas, com batidas ornamentadas.

Apesar do seu estilo bem característico, Michael Jackson ainda permanece como uma espécie de enigma. No palco, com uma de suas roupas brilhosas, ele é esta extravagante figura cheia de graça, um jaguar elegante pronto para atacar. Em fotografias, ele é uma criatura de doce sensualidade, sedutor, angelical, andrógino. Pessoalmente, no entanto, ele é quieto e reservado, um jovem desengonçado de cautelosa reticência, com uma aura ingênua de encantamento.

Ele mora com sua mãe e suas duas irmãs mais novas em uma mansão de estilo Tudor no Vale de São Fernando. No jardim ele mantém um pequeno alojamento que inclui uma lhama chamada Louis, uma jibóia chamada Muscles e um carneiro chamado Sr. Tibbs. "Eu acho que eles são encantadores," disse Michael, com sua voz sussurrante. "Eu gosto de espiar o mundo deles e observar o modo como eles se mexem. Eu gosto de ficar olhando eles." Ele é igualmente fascinado pelo mundo infantil. "Quando eu estou chateado com alguma sessão de gravação, eu pego minha bicicleta e vou até o jardim da escola infantil, só para poder ficar um pouco com eles. Quando volto ao estúdio, estou pronto para mover montanhas. As crianças fazem isto comigo. É algo mágico."

Magia é a chave. É uma palavra que Jackson usa com uma frequência desarmante, como se conjurasse uma Terra do Nunca de constante encantamento. Beethoven, Rembrandt, Charlie Chaplin - todos eles são mágicos para ele. Certamente foi mágico quando ele conheceu o E.T.: "Ele me abraçou, colocou os braços em volta de mim. Ele parecia tão real que eu conversei com ele. E dei um beijo nele antes de ir embora." E a magia não termina aí: "Eu ainda sonho até hoje em poder voar," ele conta, explicando sobre o seu amor pelo extraterrestre de Steven Spielberg. Ele pausa por um momento e se inclina para a frente: "Nós podemos voar, sabe. Nós apenas não sabemos como usar os pensamentos certos para levitarmos do chão."

Michael Jackson como Peter Pan? A noção soa ridícula - até você considerar o ponto de vista de Michael. Sua saga tem o sabor de um conto de fadas moderno.

Crescendo no gueto sombrio de Gary, Indiana, o quinto filho de uma família de oito, ele praticamente saiu do berço para os palcos. Ele foi instruído por seu pai, um operador de guindaste que havia sido músico num grupo chamado Os Falcons. "Havia uma grande quadra de beisebol atrás da nossa casa," Michael relembra. "Você podia ouvir os gritos e a torcida da multidão. Mas eu nunca tive nenhuma vontade de jogar beisebol. Eu ficava lá dentro trabalhando, ensaiando." Aos cinco anos de idade, ele se apresentou para sua primeira platéia pagante com o Jackson 5. "Quando nós cantamos, as pessoas jogavam dinheiro no chão," conta Michael - "dezenas de dólares, muitas moedas de 10, 20 centavos. Eu me lembro dos meus bolsos ficarem tão cheios de dinheiro que as minhas calças caíam. E eu usava um cinto bem apertado. E comprava um monte de doces."

Recompensado: O grupo começou a vencer vários shows de talentos. De volta à Gary, eles tiraram um tempo para se apresentar num evento beneficente para a Muigwighania, uma organização local do orgulho negro, liderada por um homem chamado Richard Hatcher. Quando Hatcher, mais tarde, se tornou o primeiro prefeito negro da cidade, ele recompensou os Jacksons dando a eles o holofote no "Fim de Semana Soul" de 1968, com a Diana Ross e as Supremes. "Ele me conquistou no momento em que o vi," Ross contou à Newsweek em 1970. "Eu vi tanto de mim mesma quando criança no Michael. Ele se apresentava o tempo todo. Da mesma forma que era comigo. Ele podia ser meu filho." Ela convenceu seu chefe, Berry Gordy, a fazer um teste com o grupo na sua lendária gravadora Motown.

Em 1968, a companhia de Gordy havia se tornado uma das maiores empresas dos Estados Unidos controlada por negros - um império construído em músicas negras adocicadas para ouvidos brancos. O Jackson 5 era o número perfeito para a Motown: um banda de garotos tão fofos e bonitinhos que ninguém se sentiria ameaçado por sua sexualidade ou sua pele negra. Melhor ainda, seu cantor líder havia dominado todas as nuances da arte dos cantores de soul - a sinceridade de Jackie Wilson, o romantismo implorador de Smokey Robinson, a energia cinética de James Brown. Gordy cuidadosamente preparou o grupo e os entregou I Want You Back - uma das maiores faixas rock n roll já criadas. O disco estoura como pipoca. Americanos de todas as idades dançam em resposta, comprando mais de 2 milhões de cópias do single e transformando o Jackson 5 em superastros instantâneos.


Michael tinha agora 11 anos, um jovem veterano e ídolo de fã-clubes quando a maioria dos garotos sonha apenas em se atirar a um monte de areia nos dias de verão. Ele foi sacudido da neve cinza de Gary para o glitter esfumaçado de Hollywood. "Quando chegamos lá, nós fomos à Disneylândia," ele relembra. "Estava congelando em Indiana. Está congelando neste momento em Indiana. O sol, as piscinas, toda uma nova imagem, uma nova vida. Foi mágico."

Na verdade, a "mágica" envolvia muito trabalho duro, martelando hits para a linha soul da Motown. "Nós chamamos de 'soul-chiclete'", declarou Gordy em 1970. "É um estilo que agrada os adolescentes." A fórmula exata era, como sempre, rigorosamente controlada pela companhia. "Nós providenciamos total orientação," explicou o vice-presidente da Motown. "Nós providenciamos o material, criamos o seu som básico e trabalhamos em sua coreografia." Eles também instalaram um toque de recolher às 21h30.

Influências: Por três anos o regime funcionou. O Jackson 5 se tornou o grupo a vender mais rápido na história da Motown, ultrapassando predecessores como as Supremes e os Miracles. Por muitos anos Michael pôde assistir sua própria versão em desenho animado nas manhãs de sábado na televisão, no cartoon The Jackson 5. Apesar de provas tão vivas de sua própria impressionante influência, Michael ao longo destes anos todos se manteve envolto num casulo, rodeado por guarda-costas, tutores e seu círculo familiar - uma criança navegando em um mundo de adultos, obrigada a cantar canções de amor que ele mal podia entender. Crescendo nesta terra de fantasia ou faz-de-conta e de adoração na vida real deixou sua marca. "Eu odeio admitir," diz Michael, "mas eu me sinto estranho ao redor de gente comum. Veja, minha vida toda foi nos palcos. E a impressão que eu tenho das pessoas é de aplauso, veneração, gente correndo atrás de mim. Em uma platéia eu sinto medo, mas no palco eu me sinto seguro. Se eu pudesse, eu dormiria no palco. Sério."


A "Jacksonmania" gradualmente acalmou. Ao amadurecer, a voz soprano de Michael desceu uma oitava. Finalmente, em 1976, o grupo deixou a Motown por uma nova gravadora, Epic. Em 1978, Michael fez sua estréia no cinema, interpretando o Espantalho em The Wiz. Naquele ano, a carreira musical dos Jacksons ganhou ares novos com um álbum chamado Destiny - o primeiro álbum inteiramente composto e produzido pelo próprio grupo. O hit dance Shake Your Body (Down To The Ground) apresentava Michael, com 19 anos e auto-confiança, preenchendo o ar com soluços impacientes. Alguns meses mais tarde, quando o veterano arranjador de jazz e compositor de trilhas-sonoras Quincy Jones produziu Off The Wall, o primeiro álbum solo de Michael em cinco anos, ele acrescentou um verniz de elegância urbana ao estilo nervoso do cantor. O álbum vendeu mais de 5 milhões de cópias - e de repente, Michael Jackson estava de volta ao primeiro plano da música popular americana.

Por mais que ele tente escapar, ele desde sempre esteve sob os holofotes. Boatos rodeiam todos os seus romances. Há três anos atrás, a atenção era voltada para Tatum O' Neal. Este ano, só se fala em Brooke Shields. O próprio Michael indicou que ele gostaria de casar com Diana Ross. Ele mantém amizades com uma brilhante - e incomum - lista de estrelas: Katharine Hepburn, Liza Minnelli, Jane Fonda. Mesmo assim, ele leva uma vida sóbria e disciplinada, jejuando todos os sábados e dançando sozinho por 30 minutos todos os domingos. Ele não bebe, fuma ou fala palavrões: já que até a palavra "funky" deixa ele um pouco vermelho, ele usa a palavra "jelly" no lugar. Ele segue a fé de sua mãe e é um Testemunha de Jeová praticante, convencido, como ele canta em seu hit solo de 1979 - Don't Stop 'Til You Get Enough - da "força" dentro de nós - um instinto divino, puro e cicatrizador de amor, expressado através de seus próprios dons musicais. "O que me toca é muito especial", ele conta. "É uma mensagem que tenho de contar. Eu começo a chorar e a dor é maravilhosa. É fantástica. É como Deus."

Entusiasmo:
"Michael é uma máquina da verdade," conta Quincy Jones. "Ele tem um equilíbrio entre a sabedoria de alguém de 60 anos com o entusiasmo de uma criança." Em uma recente sessão de gravação, Michael passou cinco horas afinando um single inédito, pacientemente fazendo notas para seu engenheiro de som, calibrando cuidadosamente o som. Enfim terminado, ele saltou e gritou: "It's jelly time!" - e começou uma guerra de comida.

Ele continua dolorosamente tímido. Durante uma visita de um repórter a sua casa, a campainha tocou. Michael congelou em seu assento, lembrando que seu guarda-costas e seu assistente não estavam em casa. Cuidadosamente, ele se aproximou da porta e do olho mágico. Ele foi para a janela e olhou entre as persianas. Sua voz tremeu. "Eu nunca faço isto," ele disse, abrindo a porta. Nos degraus, um mensageiro havia deixado um novo pacote de partituras.

Coloque este temeroso homem-criança no palco, no entanto, e ele fará 50.000 pessoas levantarem de suas cadeiras. Dê a ele uma balada que ao fim ele fará todos suspirarem. "Aquela nota tocará toda a platéia," diz Michael. "O que eles jogam para você, você pega. Você segura, toca e joga de volta - é como um Frisbee."

O mesmo endiabrado prazer - e comando musical - brilha ao longo de Thriller, o novo álbum de Michael. A faixa-título dá o tom. Com um "rap" de Vincent Price, o mestre do macabro de Hollywood, e o uso de elaborado efeitos de som - um ranger de porta, um vento assobiando - a música evoca o riso de uma criança dentro de uma mansão mal-assombrada. E esta não é a única faixa com ar de montanha-russa. O álbum inteiro é uma miscelânea de truques surpreendentes: sintetizadores em fase, vozes que rodeiam o background, um bando que soa como um grupo de esquilos cantores.

Estas manobras logo empalidecem - e ficamos para nos maravilhar com as quatro novas composições de Michael. Cada uma é peculiar, estranha, profundamente pessoal, com letras que fazem alusão ao próprio mundo secreto de sonhos e demônios de Michael.

A Megera Malvada:
A sua canção nova mais sedutora, Billie Jean, é sobre um processo de paternidade aberto por uma astuta sedutora. "Billie Jean não é minha amante," lamenta Michael, cantando como se sua vida dependesse disto; "o garoto não é meu filho". A mesma megera - "talkin', squalin', spyin'" - aparece em Wanna Be Startin' Somethin', uma letra agitada cheia de versos à lá comédia screwball. Por exemplo: "Você é um vegetal/E ainda assim eles te odeiam... Você é apenas um buffet... Eles comem de você". Beat It, um incursão tempestuosa no hard rock macho, aconselha o ouvinte a fugir dos valentões - conselho cantando com o acompanhamento de um valente solo de guitarra. E então temos o atual hit Top 10, The Girl Is Mine, um dueto com Paul McCartney. Parece muito bonita e perfeitamente inócua - até você começar a pensar nas letras. As estações de rádio americanas já haviam tocado antes uma música sobre dois homens, um negro e outro branco, lutando pela mesma mulher?

Cada uma dessas letras poderia ser criticada por seus versos elípticos, frases estranhas e até ocasionais malapropismos. Mas como Paul McCartney disse na última primaveira, pouco após a gravação de The Girl Is Mine, tais queixas perdem o sentido. "A canção que eu acabei de gravar com Michael Jackson, você poderia dizer que é superficial," explicou McCartneu. "Tem até uma palavra - 'doggone' - que eu não teria colocado nela. Quando eu conversei com Michael, ele explicou que não estava procurando nada profundo - ele estava indo de acordo com o ritmo, ele estava sentindo. E ele estava certo. Não são as letras que são importante nesta música em particular - é muito mais o barulho, a performance, a minha voz, a voz dele."

E que voz Michael Jackson tem. Em baladas, ele é silencioso, reverente, treme, sua voz de tenor arqueando um falseto puro. Em faixas mais dançantes sua voz é rouca, extática, possuída - seu canto é um incrível repertório de chiados, cliques, gemidos, gritinhos, gemidos, quase qualquer som que pode ser manipulado ritmicamente. A voz de Michael assombra estas músicas, dá a elas coração. Isto transcende toda a parafernália eletrônica. É o que fará estas músicas durarem.

Em sua última turnê juntos, em 1981, os Jacksons abriram cada concerto mostrando um videoclipe feito sob a supervisão de Michael. Com a música Can You Feel It de fundo, um hino à humanidade composto em parte pelo próprio Michael, o vídeo consiste de imagens inspiradas pelo filme Contatos Imediatos de Terceiro Grau e pelos dourados musicais de Busby Berkeley durante a Depressão americana. Em certo momento, vemos os Jacksons aterrisarem na terra, cada um envolto em sua própria bolha. Em outra sequência, os Jacksons, retratados como seres humanos gigantescos, levantam um arco-íris, acendem as luzes do céu e polvilham as cidades com brilho de estrelas, fazendo crianças de todas as cores sorrirem em gratidão, banhadas pelos tons do arco-íris, estendendo as mãos para tocarem e segurarem uns aos outros. Estas imagens, que traem uma megalomania ingênua, têm uma pungência inegável. Aqui está um gigante negro que sacrificou sua infância para se tornar um ídolo pop, um semideus separado de seus companheiros, agora selado em uma bolha transparente - um solitário profeta da salvação, transparente através do milagre de sua própria música ingênua, que traz vida.


Traduzido por Bruno Couto Pórpora