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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Michael Jackson "horrorizado" com assassinato de garoto japonês (TMS, Setembro 1987)

The Milwaukee Sentinel, 28 de setembro de 1987

Michael Jackson, o astro do pop, doou $20,000 para a família de uma garoto japonês de 5 anos que foi sequestrado e assassinado no começo desde mês, disse a porta-voz de Jackson no domingo, em Tóquio.

Yoshiaki Ogiwara foi sequestrado em 14 de setembro enquanto brincava perto de sua casa em Takasski. Seu corpo foi encontrado dois dias depois entre uma ponte. Nenhuma prisão foi feita até o momento.

Jackson "ficou horrorizado e triste com toda a história," a porta-voz Ginny Buckley contou. "Michael ama as crianças. Qualquer maldade ou maus-tratos a uma criança realmente o deixam triste."

Jackson, 29, que chegou no Japão no dia 9 de setembro para uma série de shows de um mês que dá início à sua primeira turnê solo, ficou sabendo sobre o sequestro-assassinato pelos jornais e e notícias na televisão.



Traduzido por Bruno Couto Pórpora

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Um disco repleto de influências e com novos ares (Folha de S. Paulo, Setembro 1987)

Folha de São Paulo, 2 de setembro de 1987
Por José Emílio Rondeau

BAD - LP de Michael Jackson. Lançamento CBS. Preço médio: Cr$250,00.

Durante cinco anos, o mundo prendeu a respiração à espera de uma revelação - algo que indicasse um mínimo que fosse sobre os caminhos que o "megastar" supremo tomaria após o disco mais comprado de toda a história da indústria fonográfica. Tanto guardou o ar que quase feneceu de falta de fôlego e tédio. Quando o "megastar", enfim, saiu do casulo auto-imposto, para anunciar o sucessor do milionário Thriller, ninguém mais sabia o que esperar de Michael Jackson - se é que ainda esperava.

O que Michael Jackson fez para lançar Bad foi bastante semelhante ao que fizera para arremessar Thriller, em 1982. Ele escolheu a pior faixa para iniciar a carreira do álbum, a chatíssima The Girl Is Mine, um dueto sem graça e inócuo com Paul McCartney. Para apresentar Bad ao mundo, Michael escolheu, mais uma vez, a pior faixa do disco, no caso, mais um dueto, I Just Can't Stop Loving You, com a estreante Siedah Garrett. Logicamente todo mundo caiu de pau o máximo que pôde. Não perdíamos por esperar...

Bad, lançado segunda-feira nos Estados Unidos, traz Jackson no melhor de sua forma. Na "baladagem" - descontada e irremedivalmente tola I Just Can't Stop Loving You -, Michael reclama sua supremacia, assinando a doce Liberian Girl. Mas o mais importante de Bad é que, nele, Michael Jackson deixou para trás a adolescência eterna para assumir-se maduro. Quando ele lança a bravata inicial de Bad, algo como "quem manda aqui sou eu", Michael não está apenas desafiando seu antagonista na música: está impondo seu "come back" com a atitude de um campeão convicto.

Se Bad não fosse visto como o sucessor do impossivelmente bem-sucedido Thriller, seria recebido como a obra-prima de pop negro que realmente é. E qualquer suspeita de encasulamento de Michael - o que o tornaria incólume a influências externas, vindas do mundo real - provam-se infundadas no disco. Michael ouviu tudo, se abasteceu de novos ares e retornou refrescado e pronto para tudo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Clipe Mais MALVADO do Mundo (Focus, Setembro 1987)

Focus, Setembro de 1987

A indústria musical tem muitas incríveis histórias de sucesso, mas poucos artistas atingem o status de superastros e um número ainda menor é capaz de manter o nível de histeria em suas platéias. Ganhar uma platéia e segurar o interesse dela por um período de anos não é tarefa fácil. Esse tipo de talento, de excitar constantemente, com firme fervor, pode ser atribuído a Michael Jackson.

A magia de Jackson tocou muitas pessoas. Quando chegou a hora de filmar o clipe para seu novo disco, alguns jovens atores muito sortudos, um em particular, foram tocados pela magia de Michael. "Eu não vou mentir. Foi o momento mais feliz da minha vida. Aqui estava eu, Sam Bono, trabalhando com Michael Jackson. Foi realmente um sonho se tornando realidade," contou Sam para nós em uma entrevista exclusiva.

O ator/modelo de Nova York Sam Bono cresceu escutando a música dos Jacksons. Sam confessou que ele havia sonhado várias vezes em dividir o palco com o seu grupo favorito e conseguir um pequeno papel no clipe de Jackson foi um presente de Natal perfeito. "Foi difícil de acreditar," ele disse, dividindo suas primeiras impressões. "Eu recebi uma ligação de um produtor de elenco. Ele me perguntou se eu estaria disponível nas próximas duas semanas. Sendo o ator desempregado que eu sou na maior parte do tempo, naturalmente, eu disse 'sim'. Então ele me falou, 'Michael Jackson está na cidade fazendo um clipe, você estaria disponível para trabalhar nele? Eu brincando falei, 'Me deixa olhar o meu calendário.' Então gritei 'Sim!'"

Sam nos contou sobre o teste. "Eu fui fazer o teste com a pessoa do elenco. Ele gostou de mim e me pediu para retornar no dia seguinte. Foi aí que fiz o teste com Martin Scorcese. Ele gostou de mim. Em poucos dias eu recebi uma ligação dizendo que eu tinha conseguido o papel. Eu enlouqueci."

O clipe para a música de Bad é livremente baseado em uma história verdadeira das páginas dos jornais. Michael interpreta um jovem chamado Daryl. Ele é uma criança do subúrbio que frequenta uma escola preparatória cujos alunos, em sua maioria, são brancos. Eles filmaram estas cenas na escola Master's em Dobbs Ferry, Nova York. Bono tem memórias vivas dos seus dias de filmagem, "Eu acordei, olhei no espelho e disse, 'Bono e Jackson. Bem, este é o dia. Eu estava tão feliz.'"

Sam disse que ele correu para pegar o ônibus que o levou ao set. Ele disse que passou o caminho olhando pela janela até chegar na escola. Ele estava pensando em como seria o dia. Ele disse que quando eles finalmente chegaram, haviam câmeras, caminhões e equipe o suficiente para um longa-metragem. Sam e um número de outros atores foram levados para uma sala de aula onde eles esperaram a chegada de Jackson. Bono relembra, "Nós esperamos cerca de uma hora até a limusine de Michael chegar. Eu o vi sair com sua máscara no rosto. Mas este foi o único momento em que ele a usou, e eu acho que foi porque haviam fotógrafos lá. Ele entrou na sala com seu segurança e dois policiais locais. A sala toda ficou em silêncio. Dava pra escutar um alfinete cair. Michael não falou muito, ele olhou em volta e então sentou."

Sam disse que Michael pareceu ser muito tímido e que evitava contato visual com qualquer um exceto a sua equipe. Sam disse que Michael foi gentil e amigável, mas quieto. O produtor, Quincy Jones, havia alugado um trem para filmar algumas cenas. Foi quando Sam disse que conseguiu conhecer o verdadeiro Michael. "Na sala de aula Michael fazia suas cenas e depois voltava pro seu trailer. No entanto, quando fomos fazer as cenas do trem, não havia trailer para ele ficar. E ninguém da sua segurança ou outra parte da equipe podia ficar por perto, o que eu gostei. Eles não eram permitidos no trem, porque nós estávamos filmando e eles seriam vistos no filme.

"Foi quando eu realmente pude conhecê-lo," Sam contou. "Era apenas nós, o câmera e o diretor. Foi aí quando ele se abriu. Nós falamos sobre tudo, desde o tempo até o seu clipe de Thriller. Ele parecia um cara normal e muito profissional." Sam disse que depois de ver Michael sufocado por sua equipe e segurança, foi bom ver Michael sozinho e podendo ser ele mesmo. Mike disse a Sam que o clipe de Thriller o deu muita energia. Parece que os monstros realmente o animaram!

Bono disse que ele e Michael falaram sobre garotas e família. Sam teve uma reação de surpresa sobre o livro de Mary Wilson. Ele relembra, "Considerando que ficamos no trem por cinco horas, e passamos muita parte do tempo esperando, eu tirei um livro da minha mochila. Era o novo livro de Mary Wilson, Dreamgirl. Eu perguntei a Michael se ele poderia escrever algo no livro para mim. Quando eu dei o livro a ele, ele parecia quase chocado. Michael disse, 'Você está lendo esse livro?' Eu disse, 'Sim, você leu?' Ele disse, 'Eu não vou ler este livro. Mary tem tanto ciúmes de Diana. Você devia ver ela no especial de 25 anos da Motown...' "Ele começou a falar e a relembrar, me senti como se estivesse lá," Sam diz. "Então eu de brincadeira disse que sabia sobre o que ele estava falando, eu falei com Diana na noite passada. Ela me mandou te dizer Oi... e nós dois rimos."

Ele contou que Michael falou com orgulho sobre o novo álbum. Sam disse que não há dúvida em sua mente de que Michael é um gênio. Ele disse que Michael passou a maior parte do seu tempo livre compondo canções em sua cabeça. Bono relembra, "Entre takes, você conseguia escutar esse murmuro e canto maravilhoso. Michael criava essas músicas de cabeça. Eram boas o suficiente para serem gravadas. Tudo o que sai da boca daquele garoto é ouro."

O elenco e a equipe ficaram no trem por cinco horas, gravando e re-filmando cenas. Quando o diretor finalmente disse que estava encerrado, o trem retornou para a escola. Michael avisou o condutor. Sam continua, 'Michael perguntou a ele, 'Você poderia me mostrar como o trem funciona? O condutor ficou mais do que feliz em levá-lo pela mão até a frente do trem. Ele levou Michael até a cabine e mostrou a ele os controles. Michael parecia fascinado. O cara deixou Michael tomar controle do trem. Nós começamos a andar devagar, então brincamos. Eu gritei para os outros, 'Michael está dirigindo o trem'. Uma senhora gritou, 'Oh meu Deus', mas todo mundo ficou encantado. Eu disse ao Michael, 'Vai, Mike, com mais força'. O condutor mostrou a Michael a buzina e ele começou a apertar sem parar."

A notícia de que Michael Jackson estava por perto vazou e fãs estavam por todo o canto na estação de trem. Quando Michael saiu do trem para a estação, você podia ver todos os fãs com as suas fotos, posters, bottoms e discos. Você não consegue imaginar o encantamento nos olhos de um menino enquanto ele pulava pra cima e pra baixo gritando, "Mamãe, Mamãe, olhe, Michael Jackson está dirigindo o trem!"

Michael havia tornado aquele dia inesquecível para um número de pessoas. Incluindo Sam. Com todos os seus trabalhos de modelo e aparições na TV em séries como All My Children, Sam está longe de ser um novato no ramo. Mesmo assim, este foi um dia especial para Sam. Michael tem uma forma de tocar a vida das pessoas de maneira maravilhosa, e elas não o esquecem tão facilmente. Com um produtor como Quincy Jones e um diretor como Martin Scorcese e um dos maiores orçamentos para videoclipe na história, Bad estava destinado a ser maravilhoso. Mas apenas um elemento poderia tornar este projeto mágico, e ele é Michael Jackson.



Traduzido por Bruno Couto Pórpora

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Jackson começa turnê mundial com platéia de fãs frenéticos (AP, Setembro 1987)

Associated Press, 13 de setembro de 1987

Tokyo (AP) - Michael Jackson fez o moonwalk, girou e requebrou ao longo de 16 canções perante uma audiência esgotada de 38,000 fãs frenéticos em um estádio de baseball no sábado à noite, fazendo sua primeira aparição em concerto em mais de quatro anos.

O cantor causou gritos de "Mai-ke-ru," a pronúncia japonesa de Michael, enquanto ele percorria seu acervo de poses estilizadas, chutes de karatê e seu moonwalk.

"Pessoas normais não conseguem se mover assim. É superhumano. Ninguém tem tanto talento assim," disse Atsuko Nogi, 22.

O superastro americano de 29 anos encantou a platéia de maioria japonesa no estádio Korakuen com uma série de efeitos especiais durante a extravaganza de quase duas horas. Mas os passos de dança e todas as canções, exceto por duas, foram altamente recicladas do repertório de Jackson.

Painéis gigantes de luzes que piscavam devagar iluminavam o palco, diminuíam de repente e Jackson aparecia no palco para os gritos da platéia.

Feixes de luz verde banhavam Jackson, às vezes envolvendo-o na forma de um furacão. Entre os truques estava um ato de desaparecer, em que Jackson, vestindo um figurino apertado de metal preto, aparecia do outro lado do palco.

Cerca de 700 luzes, 100 alto-falantes, dois telões de 24-por-18 pés e três lasers usando 40 espelhos criaram um cenário que às vezes lembrava um filme de Steven Spielberg. O empresário de Michael se recusou a revelar o custo da produção.

Quatro dançarinos, quatro cantores e sete músicos dividiam o palco com Jackson, trocando uma dúzia de vezes de figurinos.

Demorou um pouco para Jackson aquecer a platéia. Tentativas iniciais de fazer a platéia cantar junto não deram certo. Mas a maior parte dela estava de pé e cantando a canção final.

"Foi sensacional. Assim como a Madonna," disse Eriko Ameko, 19, que viajou 1,000 milhas de Okinawa para assistir ao show.

Foi o primeiro dos 13 shows da turnê japonesa de Jackson e o primeiro da turnê solo mundial que o levará para Austrália, Nova Zelândia, Europa e os Estados Unidos. Jackson não se apresenta ao vivo desde que sua Victory Tour tocou em estádios não-lotados há 4 anos e meio atrás.

Todos os 367,500 ingressos para os shows em Tokyo e outras três cidades esgotaram horas após entrarem em venda. "Nenhum outro artista esgotou mais do que cinco. Nós esgotamos 13," o empresário de Jackson, Frank Dileo, contou para a Associated Press.

A chegada de Jackson aqui coincidiu com o seu novo single I Just Can't Stop Loving You ter atingido o No. 1 na parada pop americana.

Esta, junto com a faixa-título do seu novo álbum Bad, foi o único material novo do show.

Os outros 14 números foram de discos passados, incluindo um medley da Motown.

A chegada de Jackson no Japão na quarta-feira desencadeou uma fúria da Michaelmania, com o rock star estampando ítens desde toalhas de mão a imãs de geladeira e cartões de telefone.

A Nihon Television, patrocinadora da turnê, montou um shop especial em sua sede de Tokyo para vender lembranças incluindo camisetas, caps de baseball, o chapéu de Michael (como aqueles que ele usa no palco), posters e cartões de telefone, usados em alguns telefones públicos.



Traduzido por Bruno Couto Pórpora

domingo, 2 de setembro de 2012

Só Scorsese salva especial de 'Bad' (Folha de S. Paulo, Setembro 1987)

Folha de São Paulo, 3 de setembro de 1987
Por Angela Marsiaj

MICHAEL JACKSON ESPECIAL - Anteontem, às 21h25, na Rede Globo. Lançamento do LP Bad com trechos sobre a vida do cantor e um curta (18 minutos) de Martin Scorsese sobre a faixa-título.

A televisão torturou os espectadores na primeira parte de "Michael Jackson Especial" - programa de lançamento do LP Bad - à espera de algo novo. O que valeu à pena, o curta de Martin Scorsese sobre a faixa-título, só foi transmitido nos 18 minutos finais. No Brasil, houve ainda um agravante: o programa chegou com um dia de atraso em relação à data mundial por opção da Rede Globo em respeitar artistas e público do Viva o Gordo, segundo fontes da emissora.

Do lançamento em si, na primeira parte, nada. Só velhos clips, cenas repetidas e a mesma lenga-lenga superficial sobre a história do cantor e compositor que qualquer fã conhece. Nada realmente informativo e, infelizmente, nada de palavras do próprio Michael Jackson. Claro, faz parte do seu mito o fato de ele ser recluso. Mas que não fosse isso. Qualquer coisa um pouco mais jornalística, em cima do fato, já teria servido de alimento mais rico ao espectador, que ficou sem conhecer a maioria das faixas do novo disco. Marketing. O remédio é comprar.

A Rede Globo, que havia anunciado uma parte de produção brasileira, restringiu-se a incluir a apresentação do ator Miguel Falabella. A medida que o programa avançava, o ator ia se travestindo de Michael Jackson nas diversas fases e ganhava ares de palhaço patético ao narrar. O texto dito por ele chegava a comparar Jackson - com sua vida de isolamento - ao cidadão Kane do filme de Orson Welles ou ironizava dúvidas sobre ele ser gay ou não.

Dos longos minutos de espera pelo clip da faixa título Bad, só uma coisa se salvou: os comerciais da Pepsi-Cola. Um mostrou um garotinho louro que entra no camarim de Jackson aproveitando sua ausência, veste seu casaco e óculos, e no final ouve a pergunta do cantor em "off": "Está procurando por mim?", dita em inglês. Outro colou Evandro Mesquita - por incrível que pareça - numa parceria com Tina Turner, cantando o refrigerante. Afinal, os comerciais terminavam com Pepsi Cola Music.

Filme de Scorsese

Mas o tédio da espera teve a recompensa dos 18 minutos finais: um curta de ficção de Martin Scorsese (diretor de Taxi Driver). Curioso é que a trama do filme parece repetir a história de Michael Jackson. Parece mesmo uma resposta aos detratores do cantor. O menino negro que, após operação plástica e tratamento com cremes, embranqueceu e efeminou-se, encontra seu espelho no aluno Daryl, o único negro numa escola para rapazes grã-finos, interpretado por Michael Jackson.

No filme, Daryl volta da escola interna - onde tinha amigos que se orgulhavam dele - para casa. Chega após viagens de trem e metrô ao bairro negro e pobre de onde veio, encontrando-se com a rapaziada barra pesada do lugar. É obrigado a enfrentrar a cobrança dos antigos companheiros: "Você é 'bad'?" ("bad" aí não é apenas mau, na negativa, mas um valor, o valor). Testado, Daryl não consegue roubar e agredir um homem nos corredores do metrô e faz com que ele fuja da gangue.

Toda a historinha é filmada com a sobriedade do preto e branco. Após o fracasso, Daryl/Jackson não desiste e aí sim mostra a que veio. Na sequência vem o videoclip da faixa-título Bad. O filme ganha cores, edição veloz. A coreografia, dele, Gregg Burge e Jeffrey Daniel, junta dançarinos homens com aspecto agressivo, à la Thriller, movendo-se em bloco (aliás, sobre semelhanças, experimente cantar o refrão "I'm bad, I'm bad" sobre o baixo básico de Thriller).

A alta-voltagem do clip e de Michael Jackson só diz uma coisa: Quer ver o que é "bad"? Tome "bad". A música é a resposta e Jackson pergunta: "Quem é 'bad'?" Após a demonstração de força de Daryl/Jackson, com o que ele sabe fazer de melhor, vem a reconciliação com sua antiga comunidade: ele e o líder da gangue trocam um cumprimento de mãos característico negro. Volta o preto e branco do filme.

Apesar do curta de Scorsese, o conjunto da apresentação é comparável àqueles jantares de cardápio fraco em que se avisa: "Poupe-se para a sobremesa, é o melhor". O doce é bom. Mas todo mundo sai da mesa com fome.

sábado, 1 de setembro de 2012

Michael Jackson Retorna! (Ebony, Setembro 1987)

Ebony, Setembro 1987

Michael Jackson, agora com 28 anos e quatro anos mais velho desde o lançamento de Thriller, está de volta! Ele está de volta - negro, mau, criativo e polêmico.

Após compor 62 músicas das quais ele e seu empresário selecionaram 20 para levar ao produtor Quincy Jones para escolherem as faixas de seu primeiro álbum e CD desde Thriller ter se tornado o disco mais vendido de todos os tempos, Michael retornou à cena. Ele tem um novo álbum, Bad; dois vídeos, dois curta-metragens and uma turnê mundial agendada que o manterá ocupado por 18 meses.

Pela primeira vez desde que ele (aos 5 anos) e seus irmãos tocaram em sua primeira festa há 23 anos atrás na boate do Sr. Lucky em sua casa natal em Gary, Ind., Michael está por conta próprio como performer. Ele cortou seus laços profissionais com seus irmãos cantantes - Sigmund Esco (Jackie), 36; Toriano Adaryll (Tito), 33; Jermaine Lajuan, 32; Marlon David, 30; e Steven Randall (Randy), 24.

Michael também terminou sua ligação com as Testemunhas de Jeová. Seus antes constantes companheiros, a atriz Brooke Shields e o ator Emmanuel Lewis, foram trocados por atrizes como Elizabeth Taylor e Sean Lennon, o filho de 11 anos do falecido cantor/compostiro John Lennon, que compôs muitas das populares canções do catálogo dos Beatles - que Michael comprou há dois anos atrás por $47 milhões.

Assim que ele planejava fazer sua estréia solo no Japão com uma banda e cantores de apoio, o multi-talentoso Michael foi lembrado de que ele ainda é o músico No. 1 no mundo, uma menção feita pelo Guinness Book of Records. "Eu sempre quis fazer coisas grandes e conquistar muitas coisas, mas pela primeira vez em toda a minha carreira eu sinto que conquistei algo porque eu estou no Guinness Book of Records," reflete Michael, ao se deparar com novas montanhas musicais para escalar.

O performer perfeccionista e perspicaz homem de negócios delegou a seu empresário, Frank Dileo, a tarefa de agendá-lo em lugares onde os fãs o possam ver perto, ao invés de parques de baseball e estádios de futebol com capacidade acima de 40,000 pessoas.

Michael, que se descreve como um "viciado no palco", diz, "Meu principal amor pelo que faço são os fãs. Eu amo os fãs. Quando eu estou fazendo um show e eu vejo os fãs lá dançando e gritando, animados... é o que eu amo mais. Eu realmente amo. E é simplesmente o melhor sentimento do mundo. Você está lá em cima e está dando a eles aquela energia e aquele amor e eles devolvem ele de volta pra você. E é ótimo."

Muitos dos seus devotados fãs ao redor do mundo que estão entre aqueles que compraram 40 milhões de cópias do álbum Thriller irão assistí-lo tomar o comando do palco como artista solo pela primeira vez.

"Michael trabalhou com sua família em torno de 22 anos," disse Dileo, que assinou um contrato exclusivo para empresariar o cantor após supervisionar a promoção e a equipe de vídeo da Epic que vendeu o LP de Thriller. "Seguir em frente e fazer uma turnê solo foi uma decisão difícil para ele fazer [mas] é o que ele quer fazer e eu acredito que seja a coisa certa para ele fazer. Ele merece a chance de sair a fazer uma turnê sozinho."

Das 11 músicas no álbum Bad e no CD, Michael compôs nove. O que tem impressionado tantos profissionais sobre Michael é o fato de que ele acabou se tornando um grande e versátil compostiro. Ele escreveu algumas letras que arranham o coração. Algumas de suas baladas são páreas para o topo das paradas. Ele escreveu algumas canções de rock 'n' roll e funk que são sensacionais em seu gênero. Para alguém que nunca teve uma aula de música em sua vida, a musicalidade de Michael é impressionante. O gênio de Michael Jackson, alguns observadores do show business dizem, é a versalidade que ele exibe como um cantor/compositor sensacional, como um deslumbrante dançarino, como um ator realizado e um brilhante empresário.

Em seu videoclipe, Bad, um maduro Michael manda uma mensagem social com um elenco de atores e dançarinos negros. Motivado pelo seu orgulho de raça e incitado pela sua preocupação com a violência das gangues, Michael filmou seu clipe no Harlem. Bad é sobre pressão de iguais. Ele faz o papel de um estudante que se vê entre ir na onda de seus amigos ou fazer o que é certo. Bad é destinado a ser um sucesso porque ele segue a fórmula de fazer-sucesso de Michael. Ele invariavelmente combina três elementos em seus sucessos: cabeça, coração e pés. A música tem que fazer você pensar, sentir no seu coração e fazer você dançar.

Com o lançamento do seu novo álbum e dois vídeos das canções Bad e Smooth Criminal, Michael está levando consigo para todo canto pilhas de roteiros de cinema. Ele diz que quando terminar a turnê, daqui há um ano e meio, ele planeja se preparar para fazer pelo menos dois longa-metragens.

O último longa-metragem de Michael foi The Wiz (em que ele interpretou o Espantalho), sob a direção musical de Quincy Jones. O jovem entertainer impressionou tanto Jones que ele decidiu produzir o primeiro LP solo de Michael, Off The Wall, que vendeu 10 milhões de cópias e venceu um Grammy Award.

Os roteiros de cinema que Michael está lendo são cuidadosamente examinados por ele porque ele não pretende aceitar o primeiro papel oferecido a ele. "Qualquer papel que você faça, as pessoas vão ligar à sua personalidade," ele diz. "Mas é atuação. Você está retratando outra pessoa... você é aquela pessoa. E quando a platéia que foi ao cinema te conhece, eles sentem que o que você retratava na tela é a sua vida real. Eu sou chamado de 'Espantalho' o tempo todo."

Ler roteiros de cinema não irá distraí-lo de fazer a turnê mundial. Ele está especialmente ansioso pela parte européia da turnê porque ele também é o campeão absoluto de vendas lá, assim como é na América do Norte, África, Ásia, Austrália e América do Sul.

Michael vendeu 40 milhões de cópias de Thriller no mundo todo e 18 milhões destes álbuns foram vendidos na Europa. Enquanto vendas de 200,000 álbuns tornam um cantor um superastro no Japão, Michael vendeu 1,5 milhão lá.

Com uma rigorosa rotina, o superastro irá contar com sua rígida dieta vegetariana e a paz natural que ele consegue em sua crença em Deus para sustentar sua energia. Drogas e groupies não o acharão uma presa fácil porque ele simplesmente não os permitirá.

Para trazer Michael de volta à cena após três anos, Dileo, que colocou em movimento o marketing de Thriller, que ele revela ter gerado um rendimento de $180 milhões para a CBS/Epic, diz que Michael arrasará em seus shows apesar dos críticos que estão empenhados em atacar o álbum. O entertainer e todos os associados com o novo álbum não tiveram como meta fazer um álbum que irá vender mais do que Thriller. Sua meta foi a de fazer o melhor álbum que eles poderiam fazer. "Eu vou compor as melhores canções que posso compor. Eu vou cantar as melhores notas que posso cantar," disse Michael. Quincy assegurou: "Eu vou juntar os melhores músicos e mixar a música da forma certa e ter certeza de que é produzido corretamente."

Eles irão deixar ao público para decidir se o álbum é maior ou melhor e deixar os críticos o atacarem como fizeram com Thriller. Michael pode continuar a evitar entrevistas como faz durante a última turnê.

Michael disse para a Ebony que um dos motivos para ele não dar mais entrevistas é que não importa o que ele diz, a história sempe parece inferir que ele está brigando com sua família, que ele é gay e que fez cirurgia cosmética.

Ele negou tudo menos o último ítem. Dileo explica: "Michael Jackson não é gay e se alguém sabe disto, este alguém sou eu. Eu estive junto a ele mais tempo do que qualquer outra pessoa no mundo e se ele fosse eu saberia. Ele não é. Acontece que ele é uma pessoa tímida que está mais interessada em seu trabalho do que em namorar."

Dileo encolhe os ombros ao falar sobre as mudanças cosméticas que Michael fez. "Cirurgia plástica. Qual é o grande problema?," ele pergunta: "Não existe uma pessoa em Hollywood que não tenha feito plástica no nariz... Sabe, quando você consegue um empresário, a primeira coisa que eles dizem é, 'Você tem que arrumar o seu nariz'. Digo, é antes mesmo de você assinar algum contrato.

"Ele não está brigando com sua família. Ele apenas quer fazer uma carreira sozinho," diz o empresário de Michael. "Michael tem muita energia e quer se manter ocupado." A maioria dos membros da família de Michael são casados, têm suas próprias famílias e outros interesses além da música. Michael tem apenas a música como seu interesse, como diz o compositor Duke Ellington.

Em relação à sua família, Michael diz, "Eu sou agradecido por ter uma família grande porque, Deus, eu acho que é uma coisa maravilhosa. Tantas pessoas são filhas únicas... Mas eu acho que um irmão e uma irmã são presentes de Deus. Eu realmente acho. É uma benção ter irmãos e irmãs." Ele acrescenta: "... Eu os amo muito e eu acho que a mídia procura por coisas para vender jornais e inventam assuntos e os distorcem."

Talvez a maior expressão do amor de Michael pela sua família seja os milhões que ele gastou no lar que ele deu para sua mãe. Ele explica: "Bem, eu sempre quis fazer isso para a minha mãe. Ela ama lares e tudo, e eu faço as coisas pelo sentimento." Ele vive na mansão com ela. O solteiro multi-milionário diz, "Eu não acho que seja o momento para mim mudar ainda. E há tantas coisas que eu quero fazer aqui. Se eu me mudasse agora, morreria de solidão." Ele diz que a maioria dos jovens que se mudam de casa para a cidade frequentam muitas festas. "E eu não faço nada disso," ele diz.

Enquanto os empresários de Michael procuram protegê-lo de um ataque da imprensa, a polêmica é sua constante companheira. Sua decisão de se desligar das Testemunhas de Jeová, por quem ele usou muitos disfarces em sua missão para conseguir convertidos para o seu grupo religioso, provocou as manchetes dos jornais. "Ele tomou a iniciativa. Nós não tomamos iniciativa alguma. Nós fomos informados do desejo dele," diz William Van de Wall, um porta-voz da sede do Brooklyn da organização de três milhões de membros cristãos.

O altamente religioso entertainer e seu empresário se recusaram a discutir os motivos para seu desligamento do grupo religioso cujas críticas ao seu clipe de Thriller o fizeram tirá-lo do mercado mesmo sendo um dos vídeos mais vendidos daquela época. As Testemunhas não gostaram de vê-lo dançando com os mortos.

Embora ele tenha se desligado do ministério religioso que se devota exclusivamente à Jeová, Michael diz que não deixou sua crença em Deus. Ele diz que Deus é o compositor de suas canções de sucesso. Ele acredita em oração. "Eu não rezo apenas à noite," ele diz. "Eu rezo em momentos diferentes do dia. Quando eu vejo algo belo, quando vejo uma paisagem bela - quando estou no avião ou algo assim - e eu digo, 'Oh, Deus, isso é lindo' E eu faço pequenas orações assim, o dia inteiro..."

Outra polêmica envolve sua compra do catálogo dos Beatles. Ele venceu do Beatle Paul McCartney o leilão - eles cantaram juntos o hit The Girl Is Mine do seu álbum Thriller. Agora que Michael é dono das canções dos Beatles, sua relação com Paul está delicada.

O cantor causou estresse em muitos relacionamentos quando ofereceu a um hospital de Londres $1 milhão pelos esqueletos de John Merrick, cujo corpo grotescamente deformado foi imortalizado no filme O Homem Elefante. Tendo lendo muito sobre a vida de Merrick, que de aberração de circo se transformou em celebridade até sua morte em 1890, Michael disse que adquirir os restos do Homem Elefante para a sua coleção esquisitices seria um "privilégio e uma honra."

Quem é próximo de Jackson vê alguns paralelos religiosos e de show business nas vidas de Michael e Merrick e não se surpreenderiam se o entertainer algum dia resolvesse interpretar o papel principal em um remake do Homem Elefante e ganhar o Oscar por sua atuação.

Quando o empresário baixinho, fumando charutos, foi perguntado sobre como era trabalhar com Quincy e Michael, ele respondeu do seu modo mais sério: "Sem dúvida alguma, Quincy é um homem tão esperto e tão talentoso que não há forma de uma pessoa normal poder reconhecer e apreciar. Ele trouxe tremendo calor e conhecimento para o álbum Bad de Michael. Quanto ao Michael, não há dúvida que esse homem é o gênio dos anos 80 e 90. Pode soar sentimental, mas eu sou o empresário mais sortudo do show business."



Traduzido por Bruno Couto Pórpora

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

"Bad", a Sequência do Arrasa-Quarteirões de Michael Jackson (NY Times, Agosto 1987)

New York Times, 31 de agosto de 1987
Por Jon Pareles

O que Michael Jackson poderia fazer em sequência ao álbum mais vendido até o momento? Esta tem sido a pergunta desde 1983, quando as vendas de Thriller explodiram - e as respostas nos últimos anos foram um pouco peculiares. Ao invés de gravar, o sr. Jackson fez um filme para a Disneylândia; mandou implantar um furinho no queixo; ofereceu a um hospital britânico um milhão de dólares para comprar os restos do Homem Elefante. A espera entre os álbuns chegou a quatro anos e meio. Hoje, dois dias após o aniversário de 29 anos do Sr. Jackson, o altamente esperado Bad (Epic EK 40600) chegou às lojas de música e é um reluzente disco de dance music high-tech que é apenas um pouquinho excêntrico em suas bordas.

A máquina promocional que ajudou Thriller a vender 38.5 milhões de cópias no mundo todo já foi acionada. I Just Can't Stop Loving You, uma doce balada, foi lançada como single em julho. As estações de rádio já começaram a tocar outras músicas do álbum desde a última quinta-feira.

O novo look de Michael Jackson também está em destaque. Hoje, às 20h, a CBS, que é dona da Epic Records, exibirá um especial de 30 minutos, "Michael Jackson - The Magic Returns", que irá apresentar o videoclipe de Bad, dirigido por Martin Scorcese. As fitas não foram disponibilizadas para os críticos antes da estréia. Um sinal de todo o merchandise a vir é "Michael's Pets", uma coleção de bichos de pelúcia baseada no zoológico particular do Sr. Jackson. E ele começa uma turnê mundial em 12 de setembro, em Tóquio; a turnê deve chegar aos Estados Unidos no ano que vem.

O frenesi e a antecipação deve levar Bad ao Top 10. Bad soa extremamente atual. O Sr. Jackson e seu produtor de longa data, Quincy Jones, idealizaram arranjos orientados pelos sintetizadores que são claros, mas que carregam um chute sólido. Em meio a eletrônica moderna, há um gosto de música soul mais antiga, com o groove e a harmonia de blues de The Way You Make Me Feel e a elevação gospel de Man In The Mirror; apesar do Sr. Jackson parecer estar clareando sua pele, ele não se afastou da música negra.

Há também, é claro, ecos de Thriller. Uma linha melódica de Billie Jean reaparece em Liberian Girl, enquanto Dirty Diana, uma música sobre uma groupie que agarra o narrador, mistura os medos sexuais de Billie Jean com a guitarra principal de hard-rock de Beat It. O longo riff de Bad relembra o da canção Thriller. E onde Paul McCartney e o Sr. Jackson discutiam sobre um romance em The Girl Is Mine em Thriller, em Bad Stevie Wonder e o Sr. Jackson fazem o mesmo em Just Good Friends.

Pela primeira vez, o Sr. Jackson escreveu a maioria das músicas de um álbum - 8 de 10 canções no LP e cassete de Bad, 9 de 11 no CD. (Ele escreveu quatro das nove canções em Thriller.) Mas Bad é um álbum ainda menos revelador.

As letras do Sr. Jackson em Thriller testemunhavam um medo e paranóia opressivos. "Eles vão te pegar, melhor dar o fora enquanto o pode," ele avisava em Beat It. Em Bad, há ainda alguns sinais daquele medo. Dirty Diana reduz o cantor a soluços amedrontados; em Smooth Criminal, o cantor encontra um tapete com marcas de sangue e um corpo inconsciente e pergunta, obsessivamente, 'Annie, você está OK?" quando, claramente, ela não está. Mas o Sr. Jackson geralmente fica longe das perigosas zonas psicológicas. Ele se retrata em termos convencionais do pop, como um amante ao invés de um fora-da-lei; quando ele insiste que é "muito, muito mau" em Bad, não consegue ser muito convincente.

Além destas poses, ele parece isolado e feliz com isso. Man In The Mirror, composta por Siedah Garrett e Glen Ballard, declara que a forma de "tornar o mundo um lugar melhor" é "olhar para si mesmo e fazer a mudança"; é ativismo para os heremitas. A versão em CD de Bad tem um extra, uma faixa que termina o álbum com uma mensagem que não deixa dúvidas: Leave Me Alone (Me Deixem em Paz). As letras mais estranhas aparecem em Another Part Of Me, mensagens cósmicas entregues por um messiânico "nós".

Enquanto as letras de Bad são impessoais, a música gira em torno da voz singular do Sr. Jackson. Ele levou seus maneirismos vocais ainda mais longe - a longa respiração, as hesitações, os gritos - e eles apimentam o vocal principal, que encontra a percussão em cada consoante e atravessa ritmos com cada "hoo hoo!" e "aaow!" Apesar de que o Sr. Jackson nunca será um cantor do tipo que grita, ele consegue juntar os timbres da exortação de um cantor de soul com sua voz de "alto" andrógino.

E enquanto o Sr. Jackson sussurra e canta, o groove da dança o leva junto. Nada em Bad se compara a Wanna Be Startin' Somethin' de Thriller, mas as batidas são nítidas e irresistíveis.

Álbuns multi-platinados captam um momento da cultura. Para Thriller, aquele momento envolvia não apenas as mensagens misturadas de suas canções - exuberante música conectada a suspeita e paranóia - mas também a simbiose dos videoclipes e a presença de tela do Sr. Jackson como cantor, dançarino e ícone. Agora, o videoclipe não é mais uma novidade; Bad não tem a meta de ultrapassar os extremos emocionais de Thriller. É um disco de pop dançante e bem feito por um popstar enigmático.


 Traduzido por Bruno Couto Pórpora

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A nova turnê de Michael Jackson terá início no Japão (Reuters, Julho 1987)

Reuters, 2 de julho de 1987

TOKYO - O superstar Michael Jackson dará início a sua primeira turnê mundial no mês de setembro, começando no Japão, disseram hoje os organizadores.

O rock star de 28 anos irá para a Austrália, Estados Unidos, Canadá e Europa, contou o empresário de Jackson Frank Dileo em uma conferência para a imprensa cheia com centenas de repórteres.

"Eu estou animado por começar a minha turnê mundial no Japão. Eu prometo shows animados e divertidos no Japão," disse Jackson em uma mensagem escrita para os seus fãs japoneses.

Dileo disse que Jackson, atualmente em Los Angeles, estava se preparando para a turnê e mixando seu novo álbum que deve ser lançado mundialmente em 31 de agosto.

O novo single de Jackson será lançado dia 27 de julho, ele disse.

Os organizadores da turnê disseram que Jackson dará início a sua turnê com três shows, um em Tokyo, outro em Yokohama e o terceiro em Osaka, entre 12 e 21 de setembro.

Será sua primeira turnê desde que os Jackson se apresentaram durante a turnê de cinco meses "Victory" nos Estados Unidos e Canadá em 1984, assistida por mais de dois milhões de fãs.

Jackson recebeu o recorde de oito prêmios Grammy em um ano em 1984 e gravou o disco mais vendido de todos os tempos, Thriller. Ele já atingiu vendas globais de 38.5 milhões de cópias até agosto de 1985, segundo a última edição do Guinness Book of Records.

Será a primeira aparição de Jackson em terras japonesas desde que ele se apresentou lá como membro do Jackson Five em 1973.

Os organizadores estimam que os nove shows de Jackson marcados para o Japão trarão uma platéia de mais de 250.000 fãs.



Traduzido por Bruno Couto Pórpora

domingo, 26 de agosto de 2012

Um Encontro com Michael Jackson (Folha de S. Paulo, Agosto 1987)

Folha de São Paulo, 12 de agosto de 1987
Por José Emílio Rondeau

O cantor, que cultiva hábitos surpreendentes, como usar máscara cirúrgica e passear em cadeira de rodas, volta ao centro das atenções com o anúncio de seu novo álbum

Um encontro com Michael Jackson no restaurante Spago, em Los Angeles - nada mal para um sonho. Quando o "chef" alemão Wolfgand Puck idealizou o restaurante Spago, em 1982, tinha em mente uma casa de massas simples e simpática, "daquelas com serragem espalhada pelo chão". Porém, incrustado em área nobre do ultrafashionable Sunset Strip - e equidistante de Hollywood e Beverly Hills - o "simples" Spago tornou-se uma espécie de Olimpo gastronômico, point obrigatório da mui louvada arte do power lunch - discutir negócios de milhões de dólares entre uma e outra garfada de comida light. Celebridades, magnatas e socialites de passagem pela cidade não terão realmente visitado Los Angeles sem pelo menos uma ida ao Spago.

Fazer reservas no Spago, contudo, já é outra história. Se o seu nome não tiver sido publicado recentemente na Variety ou na Billboard... esqueça. A única alternativa é ser convidado de algum habitué. Tive sorte. E sorte dupla: o habitué que me convidou para repartir com ele a mesa durante um brunch de verão vem sendo caçado, literalmente, com a mesma dedicação com que vem se escondendo da mídia em geral. Ele é um recluso convicto, juramentado, uma testemunha de Jeová que se revigora diariamente numa câmara de óxigênio. Mesmo assim, está aqui na minha frente, saboreando meticulosamente uma leve salada preparada por Puck em pessoa. Ele está sem as indefectíveis luvas e veste jeans e camisa de seda branca. Fala baixo. Evita me olhar nos olhos. Ele se chama Michael Jackson.

"O que você quer saber?" Sussurra, fitando o prato. O que eu quero saber? Que tal começarmos por... tudo? "OK", Michael responde, tocando meu antebraço esquerdo com uma mão trêmula e que sua frio. Involuntariamente, deixo cair meu cigarro no chão. Peço licença para ligar o gravador. Ele consente, com um suspiro e um movimento de cabeça quase imperceptível. "Vamos lá".

- Pai, já são quase nove horas. Assim vou perder minha colônia de férias. Vamos lá, pai. Acorda.

É Bernardo, meu filho, me arrancando das únicas oportunidades que terei de ir de graça ao Spago e de entrevistar Michael Jackson: um sonho.

"Nem Insistam"


Na real, Michael Jackson não dá entrevistas. E ponto final. E não sou eu quem diz. É a gravadora dele, a Epic, num press-release que anuncia o primeiro disco do artista em cinco anos, o álbum Bad (ou I'm Bad, ainda não se sabe ao certo) - nas lojas do mundo a partir de 31 deste mês. "Nem insistam," o release alerta os teimosos. O primeiro single do álbum, I Just Can't Stop Loving You, um dueto com a estreante Siedah Garrett (artista do selo Qwest, de Quincy Jones, produtor de Michael), estreou nas rádios americanas no dia 22 de julho, uma quarta-feira, sem clips (o único de que se tem notícia é o da faixa-título, um curta de dezoito minutos dirigido por Martin Scorcese). Sem coletivas. Sem uma palavra sequer de Michael.

Ele só abrirá a boca em 12 de setembro, quando iniciar a turnê de Bad em Tóquio, Japão. Mas só vai cantar: The Way You Make Me Feel, Speed Demon, Man In The Mirror, Smooth Criminal ou algumas das outras músicas novas. Todas as dúvidas que o sobrevoam desde 83, quando deu a derradeira entrevista - a Gerry Hirshey, de Rolling Stone - continuam sem respostas: ele propôs casamento mesmo a Diana Ross e a Elizabeth Taylor (para ser recusado, por ambas, conforme os rumores)? Para que ele quis comprar os restos mortais do legendário Homem Elefante? Valeu a pena passar horas diárias na câmara hiperbárica que mantém em sua mansão em Encino, para prolongar a vida? Quais os planos que tem para o catálogo de músicas dos Beatles que adquiriu por 40 milhões de dólares? Ele vem sendo acusado de exploração voraz das músicas dos Beatles - recentemente, cedeu à Nike os direitos de uso de Revolution, numa campanha agressiva que gerou urros e processos, apesar do aparente consentimento de Yoko Ono.

E há uma série de indagações novas: é verdade que ele gravou todo um álbum, que não agradou Quincy Jones e, por causa disso, foi levado a refazer o disco inteiro? O que era insatisfatório? Dizem que ao ouvir o disco de Prince resolveu mudar tudo. As músicas, a forma de cantar, os músicos convidados (Barbra Streisand, que estava programada, não pinta em Bad; Stevie Wonder, por outro lado, está lá, em Just Good Friends). E o constrangimento que se comenta ter acontecido na festa que Michael deu na mansão em Encino, para lojistas e executivos da Epic, para apresentar Bad? Ao que se diz, não havia um só convidado negro.

"Soft opening"

Por que Michael optou por lançar Bad com I Just Can't Stop Loving You, uma balada fraca que - pelo menos se espera - não parece ser a faixa mais forte do álbum? "Soft opening" (jargão usado para estréias discretas, antes do verdadeiro e bombástico lançamento)? Ou o quê?

Se você já estiver farto de ver pontos de interrogação, trate de se acostumar, pois as perguntas são muitas. Todas sem respostas. Michael fica a maior parte do tempo enclausurado em Encino e quando aparece em público - para uma visita ou outra à Disneylândia, onde prossegue em exibição Captain EO, o clip em terceira dimensão que fez com Francis Ford Coppola e George Lucas, usa, invariavelmente, uma máscara cirúrgica e às vezes uma inacreditável cadeira de rodas, como a que foi mostrado pela revista francesa Le Nouvel Observateur, no mês passado. Que tipo de contaminação ele teme? E qual a razão da cadeira de rodas? Chega de perguntas. Vamos aos fatos. Poucos, mas fatos.

Michael não é um mero superstar arredio. Com quase quarenta milhões de cópias vendidas de Thriller - o álbum de 82 que cruzou todas as barreiras raciais, musicais e mercadológicas e rendeu ao artista sete prêmios Grammy e igual número de compactos no Top Ten da Billboard - Michael é o recheio típico daquilo que costuma-se chamar de fenômeno: um produto pop que domina a mídia de maneira quase ditatorial, um rosto e uma voz que costuram o dia-a-dia de todo o planeta, um artista de quem o mundo fala como se conhecesse desde o berço. No caso de Jackson, isso é quase verdadeiro: afinal, antes de se tornar o Michael Jackson, ele era um dos meninos-prodígio do quinteto Jackson Five, um dos grupos vocais que fizeram a fama e a fortuna da gravadora Motown durante os anos 60. Ele cresceu, maturou, na frente do público. E público ele é desde os cinco anos de idade, um fato raro no pop, apesar de Judy Garland e Mickey Rooney já terem feito algo parecido no cinema.

Total desapontamento

E como fenômeno Michael é tratado: I Just Can't Stop Loving You foi um evento disputadíssimo pelas rádios. Todas lutavam pelo privilégio de ser a primeira a tocar o disco. Algumas - mais afoitas? Mais sortudas? - chegaram a tocar a faixa 24 horas antes do lançamento planejado, como a Power 102, de Los Angeles. A Epic, nada satisfeita com a vitória das rádios sobre o cronograma rígido do departamento de marketing da gravadora, moveu processo contra as emissoas. A crítica encomendou agulhas novas e um sortimento polpudo de cotonetes para receber o novo disco de Michael Jackson apenas para demonstrar total desapontamento três minutos mais tarde. "Foi por isso que esperamos cinco anos" tornou-se a frase mais lida nos jornais. E toda uma cantilena de considerações a respeito do resto do álbum começou a ser declamada: "O disco é ruim, mesmo"; "ele está blefando, apenas"; "o melhor está por vir."

Acho necessário dizer que as expectativas levantadas por Thriller - as de pop-funk transcultural, "state-of-the-art", impecável e de uma proposta visual em clip sucessivamente revolucionária e magnética - ainda estão para ser preenchidas. Através de um julgamento feito exclusivamente a partir do primeiro compacto de 87, Michael Jackson está escondendo o jogo ou desaprendeu as regras. Bom, não deve ser prazeiroso dormir e acordar todos os 365 dias do ano sabendo que seu nome está no Livro Guiness de Records como o artista que mais vendeu discos de todos os tempos. É pressão demais. Como um artista conseguirá trabalhar assim? Por outro lado, já que Michael alegadamente não lê jornais e vive envolto em seu próprio mundo pessoal, talvez as pressões não o afetem tanto assim. Se é que chegam a afetá-lo.

Por que, então, satisfazer a sede de todo um público cativo com uma canção tão morna, tão média? Mais uma pergunta que Michael Jackson não responderá.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Jackson deixa as Testemunhas de Jeová (AP, Junho 1987)

Associated Press, 9 de junho de 1987

LOS ANGELES (AP) - Michael Jackson, que certa vez alegou ter suavizado sua música porque ela teria ofendido as Testemunhas de Jeová, deixou a religião, de acordo com um comunicado publicado.

A denominação "não mais considera que Michael Jackson é uma das Testemunhas de Jeová," de acordo com uma carta de 18 de maio da sua sede no Brooklyn, o LA Times noticiou no último domingo.

O empresário de Jackson, Frank Dileo, se recusa a comentar ou pedir que o recluso cantor comente. Mas um membro da congregação de Woodland Hills, onde Jackson louvava, diz que o comunicado é verdadeiro.

"Michael Jackson se desassociou da congregação Cristã e não quer mais ser conhecido como uma Testemunha de Jeová," o membro, que não foi identificado pelo nome, disse ao jornal. "Foi anunciado formalmente há um mês ou mais."

Ele se recusou a explicar ou descrever o quão ativo Jackson era na congregação, localizado no vale de San Fernando, não muito longe da mansão do cantor em Encino.

O álbum e clipe de Thriller do cantor causou tensão entre as Testemunhas porque, segundo elas, encorajava crenças no oculto. No clipe, Jackson aparece transformado em um monstro que dança com cadáveres.

O entertainer foi citado na edição de Maio de 1984 de AWAKE!, uma revista das Testemunhas, dizendo que ele nunca faria uma música ou clipe como tal novamente.

As Testemunhas de Jeová, com 500.000 membros nos Estados Unidos, são mais conhecidas por seu proselitismo de porta-em-porta.

Elas consideram a obediência civil um mal necessário e a obedecem contanto que ela não entre em conflito com sua interpretação da lei de Deus. As Testemunhas se recusam a portar armas, saudar a bandeira ou participar de um governo secular.

No último verão, a Pepsi anunciou em uma elaborada conferência de imprensa que ela havia renovado com Jackson para ele aparecer em dois novos comerciais para a TV. Ele iria escrever as canções, uma das quais iria aparecer em seu novo álbum e, se ele entrasse em turnê, a Pepsi seria sua patrocinadora.




Traduzido por Bruno Couto Pórpora

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Pepsi espera pelo retorno de Jackson (NY Daily News, Abril 1987)

New York Daily News, 4 de abril de 1987
Por David Hinckley

A Epic Records e 20 milhões de fãs de Thriller não são os únicos esperando o novo álbum de Michael Jackson. Há também a Pepsi-Cola.

No último verão, a Pepsi anunciou em uma elaborada conferência de imprensa que ela havia renovado com Jackson para ele aparecer em dois novos comerciais para a TV. Ele iria escrever as canções, uma das quais iria aparecer em seu novo álbum e, se ele entrasse em turnê, a Pepsi seria sua patrocinadora.

Pepsi, que credita seus comerciais com Jackson em 1984 por causar pânico na rival Coca-Cola e seu fiasco "New Coke", pagou dinheiro o suficiente para este privilégio - as estimativas estão na faixa dos $10-$15 milhões - que tanto Jackson e o presidente da Pepsi, Roger Enrico, apareceram pessoalmente na conferência.

Isto é tão comum quanto cones de sorvete de 10 centavos e ressalta que quando a Pepsi gasta esta quantia de dinheiro, ela espera um retorno estrondoso.

Pepsi então anunciou, com fanfarra, que os novos comerciais de Michael iriam estrear no Grammy Awards no fim de fevereiro - logo quando, assim se pensava, o álbum seria lançado.

Bem, o Grammy chegava perto, o álbum não foi lançado, e a Pepsi anunciou que o seu comercial do Grammy seria apenas um trecho dos comerciais de verdade. E foi assim que passou, com uma mensagem dizendo: "Estréia nesta primavera."

Isto acabou não sendo verdade e com o álbum em nenhum lugar à vista, a Pepsi segura os comerciais de Michael por tempo indeterminado e contratou David Bowie pra fazer um dueto com Tina Turner como parte de sua campanha de verão.

O porta-voz da Pepsi Ken Ross conta que, no entanto, o contrato com Bowie não tem relação alguma - e que a Pepsi não está irritada com o atraso de Jackson.

"Nem um pouco," ele diz. "O disco pode sair na semana que vem, ou em seis meses ou em um ano, os comerciais serão espetaculares."

Na verdade, conta Ross, o adiamento da campanha foi decidido "em conjunto tanto com a empresa do comercial como com Michael," cujas vendas dos discos, Ross diz, também se beneficiarão dos comerciais.

"Ajuda dos dois lados. Os comerciais também deixarão as pessoas mais cientes do disco. Como Michael, estamos interessados em qualidade, não preocupados com o tempo."

Então a Pepsi tem alguma idéia de quando a campanha deve ser lançada? "Estamos esperando tão ansiosos quanto o público," conta Ross.

E o contrato com Bowie? "Foi feito relativamente rápido. Mas foi o simples caso de tomar uma oportunidade em um negócio que muda muito rápido. Roger Enrico sempre teve a idéia de um comercial com Bowie, Tina Turner e Mick Jagger. Agora estamos a dois terços disto."



Traduzido por Bruno Couto Pórpora

domingo, 15 de julho de 2012

A Princesa Diana apenas sorri ao som de "Dirty Diana" de Jackson (ERG, Julho 1988)

Eugene Register-Guard, 17 de Julho de 1988

A Princesa Diana estava na platéia, mas o cantor Michael Jackson seguiu em frente mesmo assim e cantou seu sucesso Dirty Diana, sobre uma mulher de moral frouxa.

A princesa de 27 anos sorriu.

Era esperado que Jackson tirasse a música de seu show no estádio de Wembley em Londres por conta da presença da princesa na noite de sábado, mas uma fonte próxima disse que o cantor "sentiu que os fãs ficariam decepcionados."

Diana, uma ávida fã de música pop, e o Príncipe Charles conheceram Jackson nos bastidores antes do início de seu terceiro show esgotado.

"Eu fiquei muito animado em conhecer o casal real," disse Jackson. "Eu estou muito, muito feliz por eles terem vindo para me assistir. Eu achei a princesa simplesmente maravilhosa."

Charles, que prefere musica clássica e ópera, perguntou a Jackson como ele aprendeu a dançar tão bem, e brincou, "Você poderia me ensinar a dançar?"

Jackson, que irá faturar $26.6 milhões em seus 13 shows da turnê britânica, doou $240.000 para um programa organizado por Charles para criação de empregos para jovens da periferia e $166.000 para um hospital infantil.

O cantor também presenteou o casal real com quatro jaquetas pretas com a palavra "Bad" - o nome de seu álbum número um - para eles e seus filhos, William, 6, e Harry, 3.



Traduzido por Bruno Couto Pórpora

sábado, 14 de julho de 2012

"Bad" Chega ao Reino Unido (Newspaper, Julho 1988)

Newspaper, 15 de Julho de 1988
Por David Wigg

£700,000 por hora! O preço que eles estão pagando é o maior preço do pop! O homem, o mito e a mágica de Michael Jackson conquistam Wembley

O Michael Jackson é mau, triste ou simplesmente maluco? Na verdade, ele não é nada disso - ele é apenas brilhante. Na última noite, ele emocionou 72,000 pessoas quando abriu sua primeira - e última - turnê solo de shows no Reino Unido, no nosso maior estádio, o Wembley.

Centenas de jovens desmaiaram em êxtase quando seu ídolo fez sua entrada.

Alguns fãs haviam pago até £250 a cambistas para assistirem ao show e na noite passada, um irritado Jackson implorou aos seus seguidores: "Não façam negócios com essas pessoas. Elas me deixam tão bravo."

A dramática chegada do mega-astro no palco foi mais como o retorno de um jovem messias, com seus súditos levantando e apertando para chegarem mais perto e descobrir se o homem mais misterioso do pop não era mesmo uma miragem.

Através do gelo seco, ele subitamente apareceu, um jovem cavaleiro vestido da cabeça aos pés em couro preto e incontáveis fivelas prateadas e cinto para o grande número coreografado para abrir o show, com oito dançarinos e cantores, Wanna Be Startin' Somethin' do álbum Thriller.

Couro


Ele pode ser tão magro e flexível como um limpador de cachimbo, mas Jackson é mais do que um garoto do País das Maravilhas.

Mesmo que pareça que ele aterrisou como algum ser extra-terrestre de outra galáxia, rodeado por efeitos de luz Spielberguianos que mantiveram o que parecia um brilho eterno no palco, com 3.000 luzes coloridas, 72 alto-falantes e quatro telões.

Jackson, aos 29 anos, não é um popstar comum. Ele pode ser tímido e gentil em particular com uma mística de Howard Hughes, mas no palco ele se transforma em um performer elétrico que tomou ajuda de alguns dos truques da antiga Hollywood.

Ele é E.T. e Peter Pan juntos na mesma pessoa.

Sua voz atinge notas que poderiam ter vindo de sua mãe substituta, Diana Ross, e mesmo seu misterioso e meticuloso look poderia ter vindo do mesmo molde, exceto pelo seu novo nariz, talhado como o de Pinóquio.

Suas incríveis técnicas de dança, às vezes robóticas, de balé, definindo a gravidade são claramente influenciadas por Fred Astaire, com quem ele costumava tomar chá. Seus tornozelos parecem estar grudados com um elástico quando ele se lança ao famoso 'moonwalking' para sua explosiva Billie Jean, deixando seus pés brilhantes fazerem o discurso.

O que nós temos de lembrar é que ele nunca esteve fora dos palcos desde que gravou sua primeira música com o Jackson Five, em 1968. Ele cresceu e saiu da pobreza de Gary, Indiana, tornando-se um astro da Motown com seu grande afro, e de astro mirim acabou virando o artista que mais vendeu discos na história da indústria fonográfica.

Ao todo ele irá lucrar £16 milhões em sua visita ao Reino Unido e incríveis £700,000 por hora no palco.

Como uma pantera brincalhona, Jackson deixou sua platéia boquiaberta, girando na ponta de seus dedões, agarrando sua virilha enquanto este virgem do pop brinca de ser doidão em um de seus grandes números, BAD.

Jackson não poupa um membro de seu corpo ao ritmo e batida dos seus hits, incluindo Beat It, Billie Jean, The Way You Make Me Feel e Smooth Criminal, com todo o cenário profissional de um musical da Broadway, as raízes do R&B de James Brown e Sly Stone e do grande falecido Jackie Wilson; assim como o tremendo estilo dos astros da Tamla Motown pré-Jackson Five.

Gesto

Para seu último número, a emocionante Man In The Mirror, o estádio se transforma em um mar com milhares de luzes quando o público acende seus isqueiros e fósforos na escuridão como gesto de aprovação.

Michael grita: "Eu amo você, Londres" e então após abraçar todos os músicos, ele desaparece tão repentinamente como sua chegada.

Amigos famosos apareceram em peso para ver Jackson.

Boy George, dançando durante todo o show, e a cantora Diana Ross estavam lá. Também estavam o ator Jack Nicholson, o boxeador Frank Bruno e os comediantes Russ Abbott, Pamela Stephenson e Billy Connoly.



Traduzido por Bruno Couto Pórpora

segunda-feira, 4 de junho de 2012

São Boas as Vendas do Novo Single de Jackson (BRNews, Julho 1987)

Boca Raton News, 29 de Julho de 1987
Por Skip Sheffield

Os fãs não estão exatamente arrombando portas para comprar o novo compacto de Michael Jackson em cinco anos, mas a resposta local para I Just Can't Stop Loving You, o primeiro single de Bad, tem sido boa.

A indústria musical mudou muito desde Thriller, o álbum de Jackson lançado em dezembro de 1982 que vendeu mais de 38 milhões de cópias.

Houve um declínio na venda de compactos de 45 rpm e, por ora, I Just Can't Stop Loving You está disponível apenas neste formato.

"Recebemos nossa primeira caixa de 25 singles na quinta e tivemos de pedir mais," conta Linda Wheat, co-proprietária da Record Breaker no Shopping Delray Beach. "Não é comum vender tantos 45s. Nós nem estocamos mais nossos 45s de músicas antigas ou country. Vendemos três vezes mais fitas k7 do que vendemos discos agora."

A Peaches Records and Tapes de Boca Raton previu uma grande demanda e pediu 150 cópias do single de Jackson, uma balada com a presença da novata Siedah Garrett. Até segunda-feira, apenas uma dúzia havia sido vendida.

"Estamos esperando que eles lançam em 12'' (33 rpm)," diz o vendedor Ray Dawson, 21. "Nós não vendemos mais tantos 45s. Todo tipo de gente tem vindo comprar o single de Jackson, mas a maioria tem sido jovens."

Jovens que agora têm 16 a 19 anos foram a platéia frontal de Jackson em 1984, quando ele e seus irmãos se apresentaram na Victory Tour. Os donos de lojas de discos estão esperando que uma nova geração de fãs surja.

"Meu filho, que tem agora 16 anos, era louco por Jackson há três anos atrás," conta Linda Wheat, que levou seu filho para ver a Victory Tour em Jacksonville. "Ele usava aquela luva e tudo. Hoje você nunca o pegaria com um disco de Michael Jackson. Nós estamos esperando que uma nova geração de crianças entre 15 e 19 anos tome este lugar."

Profissionais da indústria falam sobre sua expectativas para o muito adiado LP de Jackson, com lançamento marcado para 31 de agosto.

"Com tanta expectativa para o álbum, eu me sinto meio decepcionado com o single," diz John Miller, um DJ de 24 anos em uma boate para adolescentes em Boca Raton. "Eu achei que seria tipo 'Wow!', mas não é tão excitante. Já tá sendo muito tocada, e eu vou tocar como uma canção para dançar junto. Eu gosto do trabalho do Quincy Jones, mas vai ser difícil para Jackson superar seus álbums Thriller ou Off The Wall. Eu poderia tocar qualquer música desses álbuns que todo mundo iria se levantar pra dançar."

Lorrie Herman trabalha na Spec's Music no centro da cidade. Ela é também uma fã número 1 de Jackson. Para ela, ele não conseguiria errar.

"Eu amei e continuo amando Michael Jackson," exclama a fã de 28 anos. "Eu amo ele desde antes dele mudar o rosto (cirurgias plásticas) e ainda o amo. Eu já sei a música nova de cor."

A Spec's já havia esgotado duas dúzias de singles pela segunda-feira, para consumidores variando de crianças para idosos.

"Eu vendi o disco para um homem entre 55 e 60 anos, e eu também vendi para crianças com seus pais'," conta Herman, que diz que seu quarto é decorado com posters de Michael Jackson. "Eu mal posso esperar pelo álbum. Eu acho que ele vai decolar e ser ainda maior do que Thriller."



Traduzido por Bruno Couto Pórpora

terça-feira, 29 de maio de 2012

Jackson Grava Novo Videoclipe (AP, Março 1987)

Associated Press, 14 de março de 1987

LOS ANGELES (AP) - Michael Jackson e sua equipe estão enfurnados em uma suíte de hotel para trabalhar em um videoclipe do álbum que dará sequência ao seu monstruoso sucesso Thriller, conta sua porta-voz.

Jackson, raramente visto fora de sua mansão em Encino, há 20 milhas de Los Angeles, estará trabalhando no clipe por vários dias, disse a porta-voz Lee Solters.

Solters não falou sobre o conteúdo do clipe.

Jackson alugou a suíte no hotel San Fernando Valley na sexta-feira, logo após Dolly Parton, Linda Ronstadt e Emmylou Harris alugarem quartos para uma maratona de dois dias de entrevistas para promoverem seu álbum Trio.

Uma porta-voz da Epic Records disse que o novo álbum de Jackson provavelmente não será lançado até o final do ano.



 Traduzido por Bruno Couto Pórpora

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Um Novo Álbum Terminará o Mistério? (USA Today, Março 1987)

USA Today, Março de 1987
Por Gregory Katz e Darcy Reid Trick

Ninguém sabe o que faz ele vibrar - ou se ele ainda conseguirá impressionar

Se lembra do Michael Jackson? Usava uma luva com jóias e dançava feito um demônio? Gravou o álbum mais popular da história, então deu uma de Howard Hughes e sumiu das vistas do público?

Ele está saindo do esconderijo.

Neste fim de semana, ele deixará sua bem-protegida mansão em Encino, Calif., para filmar o clipe que acompanhará a há muito tempo esperada - e muito adiada - sequência de Thriller. O lançamento do álbum nesta primavera ou início do verão será acompanhado por dois novos comerciais para a Pepsi - e possivelmente uma turnê solo.

Jackson está mantendo o conteúdo do álbum em segredo absoluto. "Neste momento, ninguém tem certeza de quais músicas estarão no álbum," diz o cantor/compositor James Ingram, que está trabalhando no disco. "Michael é um perfeccionista. Sua visão para o álbum é totalmente diferente da do último."

O retorno do Jackson responderá perguntas criadas por sua decisão de largar sua carreira quando ela atingiu o ápice em 1984: os fãs ainda estão prontos para lotar estádios? Ou sua popularidade caiu assim que ele se tornou mais recluso e bizarro?

O álbum ainda sem título enfrenta a enorme tarefa de ser a sequência de Thriller, que vendeu 38.5 milhões de LPs. "Assim que Thriller se tornou um mega-sucesso, a pressão imediatamente caiu sob todos nós," conta o produtor Quincy Jones. "A coisa chave em se fazer um disco com Michael é não pensar em vendas, mas concentrar em colaborar com ele e com sua visão. Musicalmente, o homem sempre sabe o que ele quer fazer."

Se os patrocinadores de Jackson estão irritados, eles não estão contando.

"Estamos apostando que a criatividade de Michael irá permití-lo retornar e ser mais excitante do que nunca," diz Roger Enrico, presidente da Pepsi, que está pagando milhões a Jackson por três comerciais e irá patrociná-lo se ele resolver entrar em turnê. "Eu acho que Michael será a coisa mais excitante no país em 1987. Ponto final." O problema: Jackson tem agido de forma estranha ultimamente.

O cantor de 28 anos foi visto usando uma máscara cirúrgica. Ele passa tempo em uma câmara hiperbárica, que banha o usuário em oxigênio puro. Pode ajudar vítimas de acidentes de mergulho, mas Jackson acredita que pode desacelerar o processo de envelhecimento. Ele levou seu chimpanzé Bubbles - de patins - ao cinema. E ele suplicou a autoridades da cidade que o deixem ter uma girafa no quintal de sua casa. Estes são apenas os fatos. Os boatos ficam cada vez mais estranhos. Teria Jackson danificado sua pele com repetidas cirurgias pláticas? E aquelas notícias do Reino Unido de que ele estaria tentando comprar os restos do Homem Elefante?

Sua única performance recente foi em Captain Eo, um curta exibido na Disneylândia e na Disney World. Sua relutância em aparecer em público gerou tantos boatos que Warren Hirsh, presidente da Entertainment Properties, que está promovendo uma linha de roupas de Michael Jackson, recentemente se sentiu obrigado a negar - simplesmente do nada - que Jackson e sua irmã LaToya seriam a mesma pessoa. "Esses boatos são insanos. Eu vi os dois juntos," diz Hirsh.

O irmão de Jackson, Marlon, admite preocupação sobre a câmara de oxigênio. "Ele não fala com ninguém sobre isso. Eu li sobre isso em uma revista. É claro que eu me preocuparia com ele, ele é o meu irmãozinho. Você sempre se preocupa quando as pessoas podem se machucar, mas você não pode impedí-las."

O pai de Jackson, Joe, brinca sobre as excentricidades do filho. "Eu apenas digo a ele que é melhor ele não trazer nenhuma dessas coisas para a mesa de jantar."

Conta Roger Enrico da Pepsi: "Por mais bizarro que ele possa parecer às vezes, você tem um cara imensamente talentoso. Eu não tenho que ficar acordado até tarde me preocupando sobre o que ele está fazendo."

Há notícias de que a Pepsi pagou a Jackson $15 milhões para fazer os novos comerciais; a Pepsi diz que foi menos, mas ainda assim um dos maiores contratos já feitos - e Jackson (um viciado em comida saudável que abomina açúcar) nem precisará tocar uma lata de refrigerante nos comerciais.

Hirsh admite que sua primeira linha de roupas de Jackson não vendeu bem, acrescentando, "Eu gostaria que o álbum fosse lançado hoje para dar credibilidade às minhas roupas." Ele diz que escutou Bad e Smooth Criminal, duas faixas do misterioso álbum, e assistiu a um clipe. "As músicas são sensacionais," ele exclama.

Os fãs de Jackson estão desanimados com seu comportamento estranho?

"Há uma diferença entre ser rebelde e ser estranho," diz Diane Umansky, editora da revista Tiger Beat. "Ele parece ter cruzado esta linha."

Mesmo se o álbum não corresponder ao sucesso de Thriller, Jackson não precisa se preocupar com o seu futuro. Ele deve ser o entertainer mais rico de sua geração. Há três anos atrás, a revista Forbes estimulou sua fortuna pessoal em quase $70 milhões "ou mais". Ele gastou $47.5 milhões pelos direitos de publicação de muitas das músicas dos Beatles, e acabou de vender os direitos de Revolution para um comercial de TV da Nike.

A mansão de Jackson inclui uma série de animais exóticos e um brinquedo da Disneylândia. Mas sua fama criou uma espécie de confronto com um mundo real. Marlon diz que o público não entende a timidez de Michael - e a dor que ele sofre pela fama.

Para a Playboy o amigo de Jackson, Lionel Ritchie, disse: "Ele era uma criancinha isolada, porque ele largou os brinquedos logo cedo - 9 anos e ele já tinha uma música de sucesso. Então ele perdeu tudo, porque tudo o que ele já havia escutado eram avisos: aqui vem as garotas, cuidado, aqui vem os fãs, cuidado, aqui vem os repórteres, cuidado. Então ele tem tomado cuidado por 20 anos... e eu vi a fama bater a porta na existência dele."

Kit Willis, que trabalha em Ojai, Califórnia, numa biblioteca, lembra-se de um pedido especial para manter a biblioteca aberta para que Jackson pudesse visitar quando todos já tivessem ido embora. "Nós todos nos sentimentos mal por ele. Nos fez perceber que o pobre homem é perseguido."

Jackson folheou livros sobre grandes compositores e sobre o artista Michelangelo. No dia seguinte, os bibliotecários estudaram o cartão temporário que ele preencheu como se tentando encontrar uma mensagem secreta. Jackson nunca aparece em público sem um guarda-costas. E ele parece ter um medo crescente do mundo exterior.

Os médicos alertam que o seu flerte com a câmara hiperbárica pode ser perigoso. "Como médico, eu não gostaria de ter algo a ver com um paciente que usa uma câmara para desacelerar o envelhecimento," diz o Dr. Joseph Farmer, presidente da Undersea and Hyperbaric Medical Society. "Eu não poderia levar a responsabilidade."

O esforços de Peter Pan de Jackson para diminuir a marcha do tempo podem não dar certo.

Mas seu retorno aos palcos pode: se a música os fizer mexer, os fãs esquecerão suas excentricidades.



Traduzido por Bruno Couto Pórpora

sexta-feira, 25 de maio de 2012

O Alto Preço do Sorriso de Michael Jackson (NOTW, Março 1987)

News Of The World, Março de 1987

Sem máscara depois de um bom tempo - o novo look milionário de Michael Jackson que não iremos ver na televisão até o verão. Colocou doces £10 milhões na conta bancária do jovem de 28 anos, já avaliado em £200 milhões. Esqueça o Wacko Jacko, porque este aqui é um jovem empresário tão afiado quanto os novos moldes de suas maçãs do rosto. Inclua na lista o novo furinho no queixo, também. Mas aquele novo estilo de penteado, o wet-look longo parece ser bem natural. Outro choque é aquele doce e alegre sorriso! Pode ser o resultado de seu primeiro romance, com a maquiadora Karen Faye. Porque claro, um cara que tem o lápis já tatuado em torno dos olhos não precisa de tanta maquiagem assim.

Michael continua tão reservado quanto antes, no entanto. O comercial foi filmado em um set fechado em um bairro calmo do subúrbio de Los Angeles, com fãs e fotógrafos mantidos à distância. Michael pode ter tirado sua máscara cirúrgica, os óculos escuros e o disfarce de cadeira de rodas que manteve sua imagem pós-Thriller tão distante dos olhos do público que ele quase desapareceu. Mas ele ainda é cercado por um grupo forte de guarda-costas, que inclui o filho de Marlon Brando, Miko. E a temática do filme de mais de um minuto tem o toque certo de paranóia para o nosso herói assombrado. Sim, nós veremos Michael Jackson sendo perseguido por fotógrafos - escondidos atrás de um enorme caminhão. Veja só o dublê. Mas é o próprio Michael que dança em cima do caminhão.

Por que seu passo é tão leve? Ele come apenas amendoim, algumas frutas e vegetais leves. E porque ele está rindo? Porque ele é um Testemunha de Jeová que rejeita estimulantes gasosos. Ele pode até pensar que Pepsi é maravilhosa - mas certamente ele mesmo não a irá beber.


Traduzido por Bruno Couto Pórpora 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Scorcese Fala Sobre "Bad" (Magazine, 1987)

Publicação desconhecida, Janeiro de 1987

Falando sobre o seu próximo projeto, um videoclipe para Michael Jackson, Scorcese admite que não faz um musical há 10 anos - New York, New York e The Last Waltz foram feitos juntos em 1977 - mas na realidade, todos os seus filmes foram musicais de um modo ou de outro.

"Eu sempre fui fascinado pela performance de Michael Jackson como dançarino," ele explica. "Todos esses anos eu havia assistido a filmes de Minnelli e não fazia um musical há 10 anos. Então quando eu descobri que a maior parte do clipe de Michael seria ele dançando e que eu poderia mover a câmera e me divertir com ele, eu concordei em fazer."

Desde The Last Waltz, que captou o clima de um concerto de um modo que nenhum outro filme conseguiu, antes ou depois, Scorcese recebeu - e rejeitou - diversas propostas de videoclipe. "Ele apenas me pegou na hora certa," ele encolhe os ombros.

O clipe de Bad durará 18 minutos. Quem ouviu a música disse que ela é bad, no sentido James Brown da palavra. Scorcese jurou segredo ao exato conteúdo do clipe, mas eu pude descobrir o seguinte: ele é baseado no incidente real acontecido recentemente no Harlem, quando um jovem negro retornou para casa da escola Ivy League e foi morto pela polícia por supostamente ter tomado parte em um crime violento; o clipe é dividido em uma peça dramática de 10 minutos, filmada em preto-e-branco, e um segmento musical de 8 minutos, filmado em cores e ambientado no metrô. Depois que a maior parte do corpo da música termina, começa um refrão acapella enquanto Jackson, vestido de preto, dá um sermão aos bad boys do vídeo.

"Tudo o que eu sei é que tivemos que correr para filmar e agora não vai sair," brinca Scorcese. É uma escolha entre Bad e um dueto com Barbra Streisand para ser o novo single de Jackson; de todo modo, não será lançado até o fim de março.


Traduzido por Bruno Couto Pórpora

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A Pressão Para Superar Thriller (Spin, Julho 1987)

Spin, Julho de 1987
Por Quincy Troupe

Michael Jackson enfrenta o desafio monumental de superar Thriller. Já um ano atrasado nas gravações de seu disco, cercado por sua família e sua religião, o maior popstar do mundo está com medo

É outubro de 1986 e Michael Jackson está enfurnado em um estúdio de música em West Hollywood, tentando finalizar a sequência de Thriller, o disco mais vendido de todos os tempos. O novo álbum está em produção há já mais de um ano e está atrasado. Alguns problemas aconteceram.

Os últimos quatro anos não foram tão bons para Michael Jackson. Desde Thriller e a desastrosa Victory Tour dos Jacksons, ele conseguiu desencadear a maior repercussão da história do entretenimento. Aconteceram amargas brigas em família, um cisma com as Testemunhas de Jeová, amizades interrompidas com Diana Ross e Paul McCartney e a sina de celebridade maior do que a vida que o levou a se isolar. Até na solidão notícias de suas cirurgias plásticas e sua câmara hiperbárica conspiram para torná-lo uma piada nacional - uma piada repetida sempre que outro ítem irrelevante de merchandise de Michael Jackson chega às lojas. Em tempo recorde, ele passou de ser uma das celebridades mais admiradas para uma das mais absurdas. E a pressão para se restaurar aos olhos do público está paralisando-o.

"Ele tem medo de terminar o disco," diz um sócio de Jackson. "Quanto mais perto chega de terminá-lo, mais aterrorizado ele fica em relação à confrontação com o público. Quincy Jones só pôde protegê-lo até uma certa altura, mas quando ele deixa o estúdio está tudo lá. Ele é lembrado de que todos estão esperando por este disco e ele volta de novo para a concha. Ele está com medo."

A primeira coisa que as pessoas que o conhecem contam para você é que existe o Michael e existe a entidade corporativa chamada "Michael Jackson". "Ele tem uma personalidade dupla," conta um membro de sua equipe. "Ele é muito esperto e brilhante de forma auto-destrutiva. Ele tem um Q.I. extremamente alto e algumas manias e transtornos de personalidade. Ele pode ter seis ou sete lados dentro de si e todos eles estão competindo um contra o outro."

Ao longo do último ano, Quincy Jones devotou seu tempo para salvar Michael Jackson de Michael Jackson. Desde o último inverno, no entanto, Jones tem perdido a batalha. Michael Jackson faz mais e mais contratos - filmes, comerciais, refrigerantes, roupas, brinquedos, perfumes. Tudo isso o distrai de fazer o álbum; ao mesmo tempo, tudo isso depende do lançamento do álbum. Encontrar um caminho dentro desde impasse para fazer um álbum que poderia possivelmente superar Thriller é o maior desafio que Michael já enfrentou.

É um dia claro e ensolarado em West Hollywood. Para o norte, as montanhas de Hollywood parecem majestosas diante de tantos outdoors, palmeiras, lava-rápidos, lanchonetes e mini-mercados que dominam o sedento distrito. De noite, a área se transforma num local para prostitutas, michês e travestis. É o perfeito lugar para quem procura pelo anonimato.

O Westlake Studio é um segredo bem guardado, um prédio de tijolos vermelhos com janelas pintadas. Nenhuma placa sinaliza sua locação; ele se une perfeitamente à arquitetura dos prédios vizinhos. Mas no beco apertado atrás do Westlake estão Mercedes, Rolls-Royces, Ferraris e limusines com vidros escurecidos.

Dentro do estúdio, Michael Jackson anda enquanto o tocador de órgão Jimmy Smith grava faixas para uma canção chamada Bad. É uma canção forte e arrogante sobre o que um jovem pode fazer na cama, aparentemente feita para o estilo de swing marcante de Smith. Ele fez um take maravilhoso após o outro, improvisando solos com um sorriso enorme.

Mas Michael quer algo mais. Depois do playback, ele ouve Lola Smith perguntar se todo mundo percebeu os grunhidos de Smith enquanto ele tocava. Agora Michael quer esses grunhidos gravados, diz que ele precisa tê-los em fita. Smith volta para a cabine de gravação para tocar novamente, desta vez com grunhidos funky. Durante estes takes, Michael sai de sua toca, se remexendo e batendo o pé. Ele não fala muito, exceto com Jones ou Frank DiLeo, seu empresário baixinho e gordo, que acaba de chegar ao estúdio em meio à fumaça de seu charuto.

Enquanto Michael mordisca uma româ e sussurra ao ouvido de DiLeo, Smith começa outro solo, este ainda mais surpreendente que os outros. Ele termina o take e retorna para a cabine, suando e cambaleando como um homem que transou a noite toda. Michael o abraça calorosamente.

Este é o Michael que é um prazer de se trabalhar, um abençoado compositor e brincalhão. Quincy Jones o assiste com óbvia satisfação. Os problemas do ano passado parecem terem ficado no passado. Os muitos Michaels se uniram a um e ele está no estúdio trabalhando bem.

As coisas não foram sempre tão fáceis. Michael demanda constante estimulação. Ele é infantil mas dominador, perspicaz mas distraído. Ele é rico e poderoso, mas também uma criança insegura. Ele pode ser doce de forma angelical ou cortantemente frio. Todo capricho seu é realizado. Ele consegue o que quer, mas apenas enquanto ele vive na sua concha de isolamento.

A intimação de que ele está escondendo algo é vital para o mistério de Michael, o que o torna uma estrela. E sua fiel relação com as Testemunhas de Jeová é o seu segredo mais ilusório. O que os outros suspeitam ser uma forma de sexualidade subterrânea ou sombria pode ser justamente apenas o oposto: uma reflexão sobre as severas proibições das Testemunhas contra sexo e fantasias sexuais. Se proliferam histórias de que ele não permite nem brincadeiras com conotação sexual na sua presença. As pessoas que trabalham com ele têm de aprender a viver com isso.

Algumas vezes a tensão até atinge Michael. Entre as crenças das Testemunhas de Jeová estão - um apocalipse em que apenas as Testemunhas sobreviverão, duras sanções contra o sexo antes do casamento e a homossexualidade e avisos contra o contato com este mundo secular. Michael se rebelou em sua música, especialmente em Thriller, que era muito sobre o que as Testemunhas abominam - sexo adolescente, sexo fora do casamento, mães não casadas, gangues, vampiros. Foi apenas uma revolta simbólica, mas uma revolta potente que tocou milhões de vidas.

E enviou ondas de choque para as Testemunhas. No Kingdom Hall que Michael frequenta em Encino, houve uma divisão entre seus jovens fãs das Testemunhas e os anciãos, que já haviam comunicado avisos velados sobre seu sucesso, pregando para ele contra o pecado do orgulho. O video de Thriller, com suas sugestões de vampirismo e estranhos rituais sexuais, trouxe tudo de novo à tona. Logo aconteceram reuniões fechadas entre Michael e os anciãos, discussões sobre o estado da sua alma e os efeitos catastróficos de seu video.

Quando Thriller se tornou um sucesso sem precedentes na MTV, a central das Testemunhas de Jeová em Nova York lançou um comunicado oficial o condenando. Em Los Angeles, Michael foi chamado para ainda mais reuniões com os líderes da religião. Rapidamente após estas reuniões, Michael deu sua própria declaração repudiando o video, prometendo nunca mais apresentar tais imagens ou idéias novamente. A humilhação pública o deixou abalado.

Também haviam problemas em casa, especialmente em torno do patriarca Joe Jackson - se intensificando com o sucesso de Michael. Michael terminou o contrato do seu pai pela primeira vez em 1981. Assim que sua carreira solo decolou, o rancor cresceu entre seus irmãos, estimulados pelas maquinações do pai. Um por um, cada um dos irmãos Jackson lançou álbuns solo - e um por um foi um fracasso. Então, em 1979, Michael lançou Off The Wall, que vendeu o número impressionante de 7 milhões de cópias. Depois disso, alguns dos Jacksons pararam de se falar e culparam Michael pelo fracasso do grupo.

Quando Joe Jackson reapareceu na vida do filho após Thriller, gerou uma intensa luta entre Michael, Joe e uma horda oportunista de produtores, promotores e amigos. Usando do medo de Michael de ter traído e abandonado os seus irmãos, Joe conseguiu abrir o seu caminho pelo menos parcialmente de volta para a vida do filho. Logo ele estava novamente fazendo negócios no nome de Michael. Ele se juntou a um grupo de produtores em Hollywood para fazer um filme baseado em Beat It, que o próprio Michael estrelaria. Michael não sabia nada sobre isso e eventualmente repudiu qualquer envolvimento com o filme.

Mas nenhum dos projetos ligados ao nome de Michael - que se tornava a cada dia mais rentável - era tão grande quanto o que o promotor de boxe Don King sonhou: uma turnê de reunião do Jackson 5. King contornou Michael e foi falar diretamente com seus pais, oferecendo a Joe e sua esposa, Katherine, milhões para serem seus parceiros na turnê. Enquanto King manipulava Joe, Joe manipulava Michael. Os planos de Michael envolviam uma turnê solo gigantesca para apoiar Thriller, assim como vários projetos cinematográficos, mas a pressão de seu pai e seus irmãos finalmente se tornou grande demais e ele sucumbiu aos seus desejos. A turnê e o álbum que seria montado para justificar sua existência foram chamados de Victory.

Foi um desastre. Michael foi hospitalizado quando seu cabelo pegou fogo durante as filmagens de um comercial para a patrocinadora da turnê, a Pepsi; ameaças de boicote de grupos da comunidade negra por conta dos preços exorbitantes dos ingressos; King foi reduzido a pessoa representativa e trocado pelo dono dos New England Patriots, Chuck Sullivan, que perdeu milhões na turnê e teve de vender seu estádio para cobrir as perdas.

Embora Michael tente preservar a imagem pública de uma família harmoniosa, era impossível disfarçar a crescente inveja. Terminados os shows, com suas obrigações cumpridas, ele queria seu passe. "Foi devastador," disse Joyce McCrae, um amigo de longa data da família e também empregado. "Culminou na pior experiência que Michael já viveu com sua família. O sucesso tremendo dele afetou cada membro da família. Alguns estão com inveja. Jackie é o mais amargo, o mais machucado pelo sucesso de Michael, porque ele acha que deu espaço ao Michael no Jackson 5 em primeiro lugar. Ele também é o mais velho. Há essa presunção de que ele criou o Michael."


(parte 2) 

Michael Jackson entra no quieto estúdio em West Hollywood vestido com uma camisa vermelha, calças pretas (adornadas por um cinto marrom com uma águia dourada na fivela), meias brancas e alpercatas pretas. Ele usa óculos escuros ao estilo dos anos 50, um fedora marrom e seu longo cabelo encaracolado está preso em um rabo de cavalo. Um chimpanzé também vestido senta em seu ombro por um minuto, em seu colo por outro.

Em um lado do estúdio, uma mesa repleta de frango frito, salada de batata e vegetais foi arrumada. Os homens-chave estão presentes: Quincy Jones, que está sentado no chão, tomando notas entre garfadas; Bruce, o engenheiro de bigode; e Frank DiLeo, sentado perto da mesa de controle e enviando longas cortinas de fumaça para o teto. Eles estão fazendo uma pausa antes do grupo Run D.M.C. entrar para colaborar em uma faixa anti-crack. Michael está sentado ao lado de um piano e fala pouco.

Aos 29, Michael Jackson mal parece ter 19 anos: com sua pancake branca no rosto, ele parece um fantasma. Assimilação tradicionalmente é um fenômeno social - negros, hispânicos e asiáticos se moverem para a cultura branca assim que prosperam - mas Jackson o redefiniu. Através de cirurgias plásticas e cosméticas, ele assimilou a si mesmo biologicamente, se recriando caucasiano.

O Run D.M.C. entra cambaleando no estúdio vestidos de preto - chapéu preto, camisa preta, calça preta - exceto pelos casacos brancos da Adidas e suas longas e grossas correntes de ouro em volta do pescoço. "Yo, e aí?" eles gritam para Quincy ao invadirem o estúdio.

Jones os abraça e os apresenta a Michael. Eles parecem surpreendidos com esta presença quieta e tímida, como se eles pensassem que o Michael Jackson verdadeiro seria diferente. Segundos passam, pontuados pelo silêncio. Os rappers então se viram e começam a fazer barulhos uns com os outros. E Michael flutua em sua calma, de volta para algum lugar sereno onde ele vive a maior parte do tempo.

O encontro perturba o Run D.M.C. Eles parecem não dar certo com o rap anti-crack - alguma coisa, de acordo com Jones, está faltando nas letras. Ele diz a eles para tentarem seu rap com mais sofisticação - metaforicamente, simbolicamente. Eles trabalham nele novamente mas não conseguem apresentar nada novo até o momento de irem embora. Michael coloca seus fones de ouvido e quietamente se dirige até a cabine de gravação. Ele ficará ali até tudo estar pronto.

Até no exílio, Michael não encontrou paz. "O ataque da mídia começou novamente," diz Joyce McCrae. "Então ele se isolou ainda mais para se proteger, e fica na companhia de pessoas como Elizabeth Taylor e outros que o aceitam como ele é, porque eles também foram atacados pela mídia e entendiam o que ele estava passando. Michael obviamente encontrou modos de lidar com a dor causada pela mídia. Você constrói um muro em torno de você e tenta fazer coisas para se tornar imune a dor sem perder sua humanidade. Esta é a parte difícil, se manter humano."

Muitos dos ataques vêm de críticos brancos de rock que de repente parecem se ressentir do sucesso sem paralelos dele. Jackson não se encaixa no modelo de idolatria dos críticos de rock. Alguém como Bruce Springsteeen toca a guitarra, compõe canções que são objeto de estudo literário e dança como um cara branco. Enquanto Michael Jackson representa uma herança cultural negra que os críticos brancos de rock não conhecem ou prefeririam apreciar nostalgicamente de alguém que já morreu.

Cada vez mais Michael se enclausurou em sua mansão em Encino, Califórnia. A mansão está atrás de um portão preto enorme, que é vigiado o tempo todo. A única coisa que os fãs que se amontoam em torno dela verão será os vidros escurecidos das limusines que entram e saem.

Dentro da mansão, Michael criou seu próprio mundo de fantasia, inspirado pela imaginação de Walt Disney. "Eu fui vê-lo a respeito de uma música," conta um compositor, "e enquanto eu estava sentado na sala de estar esperando por ele, eu tive essa sensação de que ele estava no cômodo, me vigiando. Então ele entrou, nós conversamos e ele simplesmente desapareceu. Eu olhei para o jardim e ele estava entre os arbustos e as árvores, perseguindo uns animais. Ele era como um deles."

É possível que o seu recuo a um mundo infantil tenha salvo a sua vida. "Você tem de entender que ele foi assediado," diz McCrae. "Ele já foi empurrado, já teve sua jaqueta rasgada de suas costas, já teve gente tentando cortar o seu cabelo pra guardar de recordação. Você já pensou como é assustador ter alguém vindo até você e te pegando pelo pescoço!"

"Ele não é realmente feliz," conta Dennis Hunt, crítico musical dos Los Angeles Times, que conhece Michael há muitos anos. "Ele foi afetado pela pressão de não ter privacidade. E as pessoas que o conhecem dizem que isso finalmente o atingiu, e ele está se afastando das pessoas. Ele não lida mais com as pressões como lidava antes. De forma alguma ele vai voltar a viver no mundo real novamente. As pessoas achavam que em algum ponto ele iria superar isso e se abrir, mas agora é impossível. Por causa do nível de estrelato que ele atingiu, ele está sozinho a maior parte do tempo, exceto por ter de lidar com membros de sua família, alguns amigos e seus animais."

Mas se o exílio de Michael parece ser um refúgio do mundo, foi sem dúvida uma cobertura esperta para o seu próximo passo. No último mês de março, ele embarcou numa longa e complexa campanha para comprar o catálogo de 4,000 músicas ATV Music, que continha todas as músicas dos Beatles. Com um time de advogados, ele executou um brilhante passe em seu amigo Paul McCartney, que também estava tentando comprar o catálogo, e pagou $47.5 milhões para fechar o negócio. Foi um golpe que causou tensão na sua amizade com McCartney.

Sua relação com Diana Ross está em declínio há muito tempo, o que sugere que ele finalmente se livrou da forte influência que ela tinha sobre ele desde os primeiros dias da Motown, quando ela o fez se mudar de sua casa para morar com ela. "Ela era a superestrela da Motown e ela estava no nível que Michael buscava conquistar," diz McCrae. "Diana certamente foi a sua primeira impressão de celebridade. Ele gostava do modo como ela lidava com as coisas, seu estilo e tentava imitá-la. Eu acho que Michael mudou de opinião sobre Diana desde que ele começou a andar com Elizabeth Taylor, Jane Fonda, Sophia Loren, Liza Minnelli e Katharine Hepburn." No último verão, quando Ross casou com um banqueiro noruegano, Michael se recusou a ir ao casamento.

Enclausurado em sua mansão em Encino, alienado da maior parte de sua família, Michael novamente se concentra na sequência de Thriller, mas ele se viu cheio de dúvidas e insegurança. Era o tempo do reinado púrpura de Prince, e um novo símbolo erótico que capturou a imaginação popular, um tão misterioso mas muito mais visível que Michael.

Cedo em 1986, Quincy Jones marcou um encontro em Los Angeles entre Michael e Prince. De acordo com um observador, foi um momento estranho. "Eles são tão competitivos um contra o outro que nenhum dos dois desistia. Eles meio que se sentaram lá, um olhando para o outro, mas falaram bem pouco. Foi um momento fascinante de observação entre dois caras muito poderosos."

Depois do encontro, Michael ficou sério em relação ao álbum. Ao fim da primavera, ele estava compondo em ritmo frenético. Quincy Jones também estava juntando músicos para o disco, montando arranjos e mapeando idéias. Em março de 1986, ele foi para Nova York em busca de rappers negros. "Ele e Miles Davis são os únicos músicos de sua geração que de alguma forma conseguem se conectar com as gerações mais novas," fala o escritor e biógrafo de Michael Jackson Nelson George. Muito do tempo de Jones também foi gasto com Michael em uma espécie de terapia, tentando aliviar seus ombros da tensão de ter de reproduzir o brilho inovador de Thriller. Era um problema, Jones descobriria logo, que não poderia ser resolvido.

"Michael Jackson não é um experimentador," George continua. "Ele faz algumas canções, mas não é um artista criativo como Prince. Ele é mais Cab Calloway do que Duke Ellington. Ele também fica muito confortável na área de Noviça Rebelde e toda aquela coisa Broadway-Hollywood. Digo, ele é meio que o Bing Crosby atualizado. Exceto por algumas canções, como Billie Jean, Wanna Be Startin' Something e Push Me Away, ele não é um compositor muito rico."

É o trabalho de Quincy Jones torná-lo rico. Muitos pensam que Michael não teria conseguido sem o toque de Jones. Em junho, a tensão de trabalhar num álbum logo após produzir o filme A Cor Púrpura atingiu Quincy. Ele estava exausto: seus médicos o ordenaram que parasse de trabalhar. Ele viajou para o Taiti, deixando o álbum em estado de limbo.

Quando ele retornou em julho, novos problemas o esperavam. Michael de repente parou de trabalhar do disco para estrelar Captain EO, uma aventura sci-fi de $20 milhões que Francis Coppola iria dirigir para a Disneylândia.

Em Nova York, o presidente da CBS Records Walter Yetnikoff estava furioso. Os lucros da gravadora caíam desde Thriller e ela contava que o disco seria lançado em janeiro de 1987. Quando ele descobriu que Michael havia composto músicas para o filme, Yetnikoff teria ameaçado processá-lo. Eventualmente eles chegaram a um acordo de que nenhuma das músicas de Captain EO seriam lançadas, e Michael voltaria em breve a trabalhar em seu álbum.

Michael retorno ao estúdio no inverno. Ao fim de outubro, Jackson e Jones haviam finalizado várias canções, incluindo Bad, que não era a faixa-título do álbum. Martin Scorcese concordou em dirigir o clipe e contratou o escritor Richard Price para fazer um roteiro de 10 minutos sobre um garoto de escola particular que é assassinado em um beco do Harlem. Em novembro, Michael e sua equipe viajaram para filmar em Nova York.

Desde o começo, aconteceram problemas no set. Os temperamentos flamejavam de ambos os lados quando Michael começou a dizer a Scorcese como dirigir o clipe. A paz foi finalmente restaurada, mas a produção perdeu o controle financeiro, com gastos adicionais de mais de $1.5 milhão.

Janeiro chegou e acabou sem um álbum finalizado. Até os mais otimistas perderam a esperança de um novo disco de Michael Jackson antes do verão.

Em março, Michael largou o projeto novamente e, sem o conhecimento da CBS, começou a trabalhar em um novo filme - filmado de forma extraordinariamente secreta. Os visitantes do set tinham de concordar em assinar um termo para não revelarem nada do assistido; a equipe também era submetida a termos rígidos para prevenir notícias das filmagens de vazarem. Em Westlake, Jones continuava sem ele.

Mas todos esses atrasos começaram a prejudicar Michael. Sua extensa máquina de merchandise já estava funcionando; sem um disco para reacender o mito, ela não fazia sentido algum. Seu perfume Magic Beat foi um fracasso no último inverno. A linha Michael Jackson de roupas e bonecos, estimadas em $20 milhões, também fracassou. A Pepsi, que planejava inundar o Grammy Awards de 1987 com comerciais de Michael Jackson, como fez em anos anteriores, cancelou sua campanha. Como parte do contrato de $10 milhões com Jackson, a empresa já detém um dos singles do álbum ainda não lançado.

É março de 1987 e está ficando tarde. O estúdio de Westlake está deserto, exceto por Michael, Quincy e Bubbles, o chimpanzé, e alguns técnicos. "Smelly", como Jones chama Michael (possivelmente porque o cantor tem obsessão com limpeza) ainda quer gravar mais uns takes. No console de gravação em frente a Quincy está uma tira cômica de jornal que diz, "Michael Jackson tem 30 anos e nunca teve um encontro." Michael a pega e lê. Então ele a coloca de volta, gentilmente, e vira de costas. Ele parece machucado pelas palavras. Então ele ri como um estudante e entra na cabine de gravação.

Sozinho na semiescuridão, iluminado apenas por um spot de luz, ele começa a cantar. Isso, finalmente, é o que importa. Em algum lugar, Prince está terminando seu novo álbum e o Run D.M.C. está pensando no deles e Walter Yetnikoff está aprendendo a viver com o balanço financeiro da CBS. Mas isto é um outro lugar. Aqui, por enquanto, nada disse existe; não existem problemas, nem contratos de merchandise, nem prazos de entrega, nem rivalidades familiares. Existe apenas Michael e a canção.

De repente, ele não é mais o recluso sonhador. Ele não é mais delicado. Ele ataca a música, dançando, balançando as mãos, se movendo com poder inesperado. Ele está em seu próprio mundo mas, desta vez, é um mundo que os outros além dele podem acreditar. Por estes poucos momentos, pelo menos, ele não é mais uma piada e nem um ícone, apenas um cantor muito, muito talentoso.

Mas então a canção termina. Quincy olha com aprovação; é um take. Michael anda até o console e o abraça. Então ele tira uma máscara cirúrgica de seu bolso e cobre o rosto - e se despede pela noite de Los Angeles.


Traduzido por Bruno Couto Pórpora