(parte 2)
Michael Jackson entra no quieto estúdio em West Hollywood vestido com uma camisa vermelha, calças pretas (adornadas por um cinto marrom com uma águia dourada na fivela), meias brancas e alpercatas pretas. Ele usa óculos escuros ao estilo dos anos 50, um fedora marrom e seu longo cabelo encaracolado está preso em um rabo de cavalo. Um chimpanzé também vestido senta em seu ombro por um minuto, em seu colo por outro.
Em um lado do estúdio, uma mesa repleta de frango frito, salada de batata e vegetais foi arrumada. Os homens-chave estão presentes: Quincy Jones, que está sentado no chão, tomando notas entre garfadas; Bruce, o engenheiro de bigode; e Frank DiLeo, sentado perto da mesa de controle e enviando longas cortinas de fumaça para o teto. Eles estão fazendo uma pausa antes do grupo Run D.M.C. entrar para colaborar em uma faixa anti-crack. Michael está sentado ao lado de um piano e fala pouco.
Aos 29, Michael Jackson mal parece ter 19 anos: com sua pancake branca no rosto, ele parece um fantasma. Assimilação tradicionalmente é um fenômeno social - negros, hispânicos e asiáticos se moverem para a cultura branca assim que prosperam - mas Jackson o redefiniu. Através de cirurgias plásticas e cosméticas, ele assimilou a si mesmo biologicamente, se recriando caucasiano.
O Run D.M.C. entra cambaleando no estúdio vestidos de preto - chapéu preto, camisa preta, calça preta - exceto pelos casacos brancos da Adidas e suas longas e grossas correntes de ouro em volta do pescoço. "Yo, e aí?" eles gritam para Quincy ao invadirem o estúdio.
Jones os abraça e os apresenta a Michael. Eles parecem surpreendidos com esta presença quieta e tímida, como se eles pensassem que o Michael Jackson verdadeiro seria diferente. Segundos passam, pontuados pelo silêncio. Os rappers então se viram e começam a fazer barulhos uns com os outros. E Michael flutua em sua calma, de volta para algum lugar sereno onde ele vive a maior parte do tempo.
O encontro perturba o Run D.M.C. Eles parecem não dar certo com o rap anti-crack - alguma coisa, de acordo com Jones, está faltando nas letras. Ele diz a eles para tentarem seu rap com mais sofisticação - metaforicamente, simbolicamente. Eles trabalham nele novamente mas não conseguem apresentar nada novo até o momento de irem embora. Michael coloca seus fones de ouvido e quietamente se dirige até a cabine de gravação. Ele ficará ali até tudo estar pronto.
Até no exílio, Michael não encontrou paz. "O ataque da mídia começou novamente," diz Joyce McCrae. "Então ele se isolou ainda mais para se proteger, e fica na companhia de pessoas como Elizabeth Taylor e outros que o aceitam como ele é, porque eles também foram atacados pela mídia e entendiam o que ele estava passando. Michael obviamente encontrou modos de lidar com a dor causada pela mídia. Você constrói um muro em torno de você e tenta fazer coisas para se tornar imune a dor sem perder sua humanidade. Esta é a parte difícil, se manter humano."
Muitos dos ataques vêm de críticos brancos de rock que de repente parecem se ressentir do sucesso sem paralelos dele. Jackson não se encaixa no modelo de idolatria dos críticos de rock. Alguém como Bruce Springsteeen toca a guitarra, compõe canções que são objeto de estudo literário e dança como um cara branco. Enquanto Michael Jackson representa uma herança cultural negra que os críticos brancos de rock não conhecem ou prefeririam apreciar nostalgicamente de alguém que já morreu.
Cada vez mais Michael se enclausurou em sua mansão em Encino, Califórnia. A mansão está atrás de um portão preto enorme, que é vigiado o tempo todo. A única coisa que os fãs que se amontoam em torno dela verão será os vidros escurecidos das limusines que entram e saem.
Dentro da mansão, Michael criou seu próprio mundo de fantasia, inspirado pela imaginação de Walt Disney. "Eu fui vê-lo a respeito de uma música," conta um compositor, "e enquanto eu estava sentado na sala de estar esperando por ele, eu tive essa sensação de que ele estava no cômodo, me vigiando. Então ele entrou, nós conversamos e ele simplesmente desapareceu. Eu olhei para o jardim e ele estava entre os arbustos e as árvores, perseguindo uns animais. Ele era como um deles."
É possível que o seu recuo a um mundo infantil tenha salvo a sua vida. "Você tem de entender que ele foi assediado," diz McCrae. "Ele já foi empurrado, já teve sua jaqueta rasgada de suas costas, já teve gente tentando cortar o seu cabelo pra guardar de recordação. Você já pensou como é assustador ter alguém vindo até você e te pegando pelo pescoço!"
"Ele não é realmente feliz," conta Dennis Hunt, crítico musical dos Los Angeles Times, que conhece Michael há muitos anos. "Ele foi afetado pela pressão de não ter privacidade. E as pessoas que o conhecem dizem que isso finalmente o atingiu, e ele está se afastando das pessoas. Ele não lida mais com as pressões como lidava antes. De forma alguma ele vai voltar a viver no mundo real novamente. As pessoas achavam que em algum ponto ele iria superar isso e se abrir, mas agora é impossível. Por causa do nível de estrelato que ele atingiu, ele está sozinho a maior parte do tempo, exceto por ter de lidar com membros de sua família, alguns amigos e seus animais."
Mas se o exílio de Michael parece ser um refúgio do mundo, foi sem dúvida uma cobertura esperta para o seu próximo passo. No último mês de março, ele embarcou numa longa e complexa campanha para comprar o catálogo de 4,000 músicas ATV Music, que continha todas as músicas dos Beatles. Com um time de advogados, ele executou um brilhante passe em seu amigo Paul McCartney, que também estava tentando comprar o catálogo, e pagou $47.5 milhões para fechar o negócio. Foi um golpe que causou tensão na sua amizade com McCartney.
Sua relação com Diana Ross está em declínio há muito tempo, o que sugere que ele finalmente se livrou da forte influência que ela tinha sobre ele desde os primeiros dias da Motown, quando ela o fez se mudar de sua casa para morar com ela. "Ela era a superestrela da Motown e ela estava no nível que Michael buscava conquistar," diz McCrae. "Diana certamente foi a sua primeira impressão de celebridade. Ele gostava do modo como ela lidava com as coisas, seu estilo e tentava imitá-la. Eu acho que Michael mudou de opinião sobre Diana desde que ele começou a andar com Elizabeth Taylor, Jane Fonda, Sophia Loren, Liza Minnelli e Katharine Hepburn." No último verão, quando Ross casou com um banqueiro noruegano, Michael se recusou a ir ao casamento.
Enclausurado em sua mansão em Encino, alienado da maior parte de sua família, Michael novamente se concentra na sequência de Thriller, mas ele se viu cheio de dúvidas e insegurança. Era o tempo do reinado púrpura de Prince, e um novo símbolo erótico que capturou a imaginação popular, um tão misterioso mas muito mais visível que Michael.
Cedo em 1986, Quincy Jones marcou um encontro em Los Angeles entre Michael e Prince. De acordo com um observador, foi um momento estranho. "Eles são tão competitivos um contra o outro que nenhum dos dois desistia. Eles meio que se sentaram lá, um olhando para o outro, mas falaram bem pouco. Foi um momento fascinante de observação entre dois caras muito poderosos."
Depois do encontro, Michael ficou sério em relação ao álbum. Ao fim da primavera, ele estava compondo em ritmo frenético. Quincy Jones também estava juntando músicos para o disco, montando arranjos e mapeando idéias. Em março de 1986, ele foi para Nova York em busca de rappers negros. "Ele e Miles Davis são os únicos músicos de sua geração que de alguma forma conseguem se conectar com as gerações mais novas," fala o escritor e biógrafo de Michael Jackson Nelson George. Muito do tempo de Jones também foi gasto com Michael em uma espécie de terapia, tentando aliviar seus ombros da tensão de ter de reproduzir o brilho inovador de Thriller. Era um problema, Jones descobriria logo, que não poderia ser resolvido.
"Michael Jackson não é um experimentador," George continua. "Ele faz algumas canções, mas não é um artista criativo como Prince. Ele é mais Cab Calloway do que Duke Ellington. Ele também fica muito confortável na área de Noviça Rebelde e toda aquela coisa Broadway-Hollywood. Digo, ele é meio que o Bing Crosby atualizado. Exceto por algumas canções, como Billie Jean, Wanna Be Startin' Something e Push Me Away, ele não é um compositor muito rico."
É o trabalho de Quincy Jones torná-lo rico. Muitos pensam que Michael não teria conseguido sem o toque de Jones. Em junho, a tensão de trabalhar num álbum logo após produzir o filme A Cor Púrpura atingiu Quincy. Ele estava exausto: seus médicos o ordenaram que parasse de trabalhar. Ele viajou para o Taiti, deixando o álbum em estado de limbo.
Quando ele retornou em julho, novos problemas o esperavam. Michael de repente parou de trabalhar do disco para estrelar Captain EO, uma aventura sci-fi de $20 milhões que Francis Coppola iria dirigir para a Disneylândia.
Em Nova York, o presidente da CBS Records Walter Yetnikoff estava furioso. Os lucros da gravadora caíam desde Thriller e ela contava que o disco seria lançado em janeiro de 1987. Quando ele descobriu que Michael havia composto músicas para o filme, Yetnikoff teria ameaçado processá-lo. Eventualmente eles chegaram a um acordo de que nenhuma das músicas de Captain EO seriam lançadas, e Michael voltaria em breve a trabalhar em seu álbum.
Michael retorno ao estúdio no inverno. Ao fim de outubro, Jackson e Jones haviam finalizado várias canções, incluindo Bad, que não era a faixa-título do álbum. Martin Scorcese concordou em dirigir o clipe e contratou o escritor Richard Price para fazer um roteiro de 10 minutos sobre um garoto de escola particular que é assassinado em um beco do Harlem. Em novembro, Michael e sua equipe viajaram para filmar em Nova York.
Desde o começo, aconteceram problemas no set. Os temperamentos flamejavam de ambos os lados quando Michael começou a dizer a Scorcese como dirigir o clipe. A paz foi finalmente restaurada, mas a produção perdeu o controle financeiro, com gastos adicionais de mais de $1.5 milhão.
Janeiro chegou e acabou sem um álbum finalizado. Até os mais otimistas perderam a esperança de um novo disco de Michael Jackson antes do verão.
Em março, Michael largou o projeto novamente e, sem o conhecimento da CBS, começou a trabalhar em um novo filme - filmado de forma extraordinariamente secreta. Os visitantes do set tinham de concordar em assinar um termo para não revelarem nada do assistido; a equipe também era submetida a termos rígidos para prevenir notícias das filmagens de vazarem. Em Westlake, Jones continuava sem ele.
Mas todos esses atrasos começaram a prejudicar Michael. Sua extensa máquina de merchandise já estava funcionando; sem um disco para reacender o mito, ela não fazia sentido algum. Seu perfume Magic Beat foi um fracasso no último inverno. A linha Michael Jackson de roupas e bonecos, estimadas em $20 milhões, também fracassou. A Pepsi, que planejava inundar o Grammy Awards de 1987 com comerciais de Michael Jackson, como fez em anos anteriores, cancelou sua campanha. Como parte do contrato de $10 milhões com Jackson, a empresa já detém um dos singles do álbum ainda não lançado.
É março de 1987 e está ficando tarde. O estúdio de Westlake está deserto, exceto por Michael, Quincy e Bubbles, o chimpanzé, e alguns técnicos. "Smelly", como Jones chama Michael (possivelmente porque o cantor tem obsessão com limpeza) ainda quer gravar mais uns takes. No console de gravação em frente a Quincy está uma tira cômica de jornal que diz, "Michael Jackson tem 30 anos e nunca teve um encontro." Michael a pega e lê. Então ele a coloca de volta, gentilmente, e vira de costas. Ele parece machucado pelas palavras. Então ele ri como um estudante e entra na cabine de gravação.
Sozinho na semiescuridão, iluminado apenas por um spot de luz, ele começa a cantar. Isso, finalmente, é o que importa. Em algum lugar, Prince está terminando seu novo álbum e o Run D.M.C. está pensando no deles e Walter Yetnikoff está aprendendo a viver com o balanço financeiro da CBS. Mas isto é um outro lugar. Aqui, por enquanto, nada disse existe; não existem problemas, nem contratos de merchandise, nem prazos de entrega, nem rivalidades familiares. Existe apenas Michael e a canção.
De repente, ele não é mais o recluso sonhador. Ele não é mais delicado. Ele ataca a música, dançando, balançando as mãos, se movendo com poder inesperado. Ele está em seu próprio mundo mas, desta vez, é um mundo que os outros além dele podem acreditar. Por estes poucos momentos, pelo menos, ele não é mais uma piada e nem um ícone, apenas um cantor muito, muito talentoso.
Mas então a canção termina. Quincy olha com aprovação; é um take. Michael anda até o console e o abraça. Então ele tira uma máscara cirúrgica de seu bolso e cobre o rosto - e se despede pela noite de Los Angeles.